A partir de amplas discussões de que participaram os representantes de vários círculos ecuménicos na Polónia, ficou decidido focalizar um tema que diz respeito ao poder transformador da fé em Cristo, particularmente no que se refere à nossa oração pela unidade visível da Igreja, o Corpo de Cristo. Isso baseou-se nas palavras de São Paulo aos coríntios, que se referem à natureza temporária da nossa vida presente (com todas as suas aparentes “vitórias” e “derrotas”) em comparação com o que recebemos através da vitória de Cristo, pelo mistério pascal.
Razão do tema
A história da Polónia tem sido marcada por uma série de derrotas e vitórias. Podemos mencionar as muitas vezes em que a Polónia foi invadida, as divisões de território, a opressão por poderes estrangeiros e sistemas hostis. A constante luta para superar toda a escravidão e o desejo de liberdade são características da história polaca que têm levado a significativas mudanças na vida nacional. E ainda onde há vitória há também perdedores que não compartilham da alegria e do triunfo dos vitoriosos.
Essa particular história nacional polaca levou o grupo ecuménico que escreveu o material deste ano a refletir mais profundamente sobre o que significa “vencer” e “perder”, especialmente considerando o modo como a linguagem de “vitória” é tão frequentemente entendida em termos de triunfalismo. Mas Cristo apresenta-nos um caminho bem diferente!
Em 2012 o campeonato europeu de futebol acontecerá na Polónia e na Ucrânia. Isso nunca foi possível em anos passados. Para muitos, isso é um sinal de outra “vitória nacional”, quando centenas de milhões de fãs ansiosamente aguardam notícias de equipas vencedoras, a jogar nessa região da Europa. Pensar nesse exemplo pode levar-nos a considerar o apelo dos que não são vencedores – não apenas no desporto, mas nas suas vidas e comunidades: quem dedicará um pensamento aos perdedores, àqueles que constantemente sofrem derrotas porque lhes é negada a vitória por causa de várias condições e circunstâncias? A rivalidade é uma característica permanente, não apenas no desporto, mas também na política, nos negócios, na cultura e mesmo na vida da Igreja.
Quando os discípulos de Jesus entraram em disputa sobre “quem era o maior” (Mc 9,34), ficou claro que esse impulso era forte. Mas a reação de Jesus foi muito simples: “quem quiser ser o primeiro seja o último de todos e servo de todos” (Mc 9,35). Essas palavras falam de vitória através do serviço, da ajuda mútua, promovendo a auto-estima daqueles que são os “últimos”, os esquecidos, os excluídos. Para todos os cristãos, a melhor expressão de tal serviço humilde é Jesus Cristo, sua vitória através da morte e sua ressurreição. É na sua vida, ação, ensinamento, sofrimento, morte e ressurreição que desejamos buscar inspiração para uma moderna e vitoriosa vida de fé que se expressa no compromisso social em espírito de humildade, serviço e fidelidade ao Evangelho. E, quando se viu na expectativa do sofrimento e da morte que estavam para vir, ele orou pedindo que seus discípulos fossem um, a fim de que o mundo pudesse crer. Essa “vitória” só é possível através de uma transformação espiritual, uma conversão. É por isso que consideramos que o tema para nossas meditações deveria vir daquelas palavras do Apóstolo das nações. O objetivo é conquistar uma vitória que integre todos os cristãos ao redor do serviço a Deus e ao próximo.
À medida que oramos e trabalhamos pela plena unidade visível da Igreja nós – e as tradições a que pertencemos – seremos mudados, transformados e moldados à semelhança de Cristo. A unidade, pela qual oramos, pode exigir a renovação de formas da vida eclesial, com as quais estamos familiarizados. Isso é uma visão emocionante, mas pode trazer-nos algum tipo de medo! A unidade, pela qual oramos, não é simplesmente uma noção “confortável” de amizade e cooperação. Ela exige a disposição de renunciar à competição entre nós. Precisamos de nos abrir uns aos outros, oferecer e receber dons uns dos outros, para que possamos verdadeiramente entrar na nova vida em Cristo, que é a única verdadeira vitória.
Há lugar para todos, no plano de salvação de Deus. Através de sua morte e ressurreição, Cristo abraça a todos, independentemente de vencer ou perder, “a fim de que todo aquele que crê tenha nele a vida eterna”. (Jo 3,15) Nós também podemos participar da sua vitória! É suficiente crer nele, assim acharemos mais fácil vencer o mal com o bem.
Oito dias de reflexão sobre nossa mudança em Cristo
Na Semana que se aproxima, somos convidados a entrar mais profundamente na nossa fé, para que sejamos todos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo. As leituras bíblicas, comentários, preces e perguntas para reflexão são recursos que exploram diferentes aspectos daquilo que isso significa para as vidas dos cristãos e para a sua unidade uns com os outros, dentro do mundo de hoje e para esse mundo. Começamos a contemplar o Cristo que serve e a nossa jornada e nos leva à celebração final do reino de Cristo, por meio da sua cruz e ressurreição .
Primeiro dia: Transformados pelo Cristo servidor
O Filho do Homem veio para servir (cf Mc 10,45)
Neste dia, encontramos Jesus no caminho para a vitória, através do serviço. Vemo-lo como “aquele que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão” (Mc 3,45). Consequentemente, a Igreja de Jesus Cristo é uma comunidade servidora. O uso dos nossos diversos dons em serviço comum à humanidade torna visível a nossa unidade em Cristo.
Segundo dia: Transformados na paciente espera pelo Senhor
Agora é assim que nos convém cumprir toda a justiça. (Mt 3,15)
Neste dia, concentrar-nos-emos na espera paciente pelo Senhor. Para obter qualquer transformação, são necessárias a perseverança e a paciência. Orar a Deus por qualquer tipo de transformação é também um ato de fé e confiança nas suas promessas. Tal espera pelo Senhor é essencial a todos aqueles que oram pela unidade visível da Igreja, nesta Semana. Todas as atividades ecuménicas requerem tempo, atenção mútua e ação conjunta. Somos todos chamados a cooperar com o trabalho do Espírito, na união dos cristãos.
Terceiro dia: Transformados pelo Servo Sofredor
Cristo sofreu por nós (cf 1 Pd 2,21)
Este dia chama-nos a refletir sobre o sofrimento de Cristo. Seguindo Cristo, o Servo Sofredor, os cristãos são chamados à solidariedade com todos os que sofrem. Quanto mais perto estivermos da cruz de Cristo, mais próximos estaremos uns dos outros.
Quarto dia: Transformados pela vitória do Senhor sobre o mal
Sê vencedor do mal por meio do bem (Rom 12,21)
Este dia leva-nos a aprofundar as lutas contra o mal. Vitória em Cristo é a superação de tudo o que danifica a criação de Deus e nos mantém separados uns dos outros. Em Jesus, somos chamados a participar dessa nova vida, lutando junto com ele contra o que está errado no nosso mundo, com renovada confiança e tendo satisfação no que é bom. Nas nossas divisões, não podemos ser suficientemente fortes para vencer o mal no nosso tempo.
Quinto dia: Transformados pela paz do Senhor ressuscitado
Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco. (Jo 20,19)
Hoje celebramos a paz do Senhor ressuscitado. O Ressuscitado é o grande Vitorioso sobre a morte e o mundo das trevas. Ele une os seus discípulos, que estavam paralisados com medo. Ele abre-nos novas perspectivas de vida e de ação pelo Seu reino que está a chegar. O Senhor Ressuscitado une e fortalece todos os que crêem. Paz e unidade são as marcas da nossa transformação na ressurreição.
Sexto dia: Transformados pelo amor persistente de Deus
Esta é a vitória, nossa fé ( Cf 1 Jo 5,4)
Neste dia concentramos a nossa atenção no amor persistente de Deus. O mistério pascal revela a firmeza desse amor, e chama-nos a um novo caminho de fé. Essa fé supera o medo e abre os nossos corações ao poder do Espírito. Tal fé nos chama-nos à amizade com Cristo e, consequentemente, de uns com os outros.
Sétimo dia: Transformados pelo Bom Pastor
Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21,17)
Neste dia os textos bíblicos mostram-nos o Senhor fortalecendo o seu rebanho. Seguindo o Bom Pastor, somos chamados a fortalecer-nos uns aos outros no Senhor, e a sustentar e fortalecer os fracos e perdidos. Há um só Pastor e nós somos o seu povo.
Oitavo dia: Unidos no Reino de Cristo
Ao vencedor, concederei sentar-se comigo no trono (Ap 3,21)
Neste último dia de nossa Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos celebramos o Reino de Cristo. A vitória de Cristo capacita-nos a olhar para o futuro com esperança. Essa vitória supera tudo que nos impede de partilhar vida plena com ele e uns com os outros. Os cristãos sabem que a unidade entre nós é, acima de tudo, um dom de Deus. É uma participação na gloriosa vitória de Cristo sobre tudo o que gera divisão.