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Obrigado Deus Meu pelo pai e mãe que me deste. Agora estão juntos no céu...

18 fevereiro 2015

Parabéns mãe. 85 anos (no Céu)

PARABÉNS MÃE.
HOJE CELEBRARIA 85 ANOS.
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MAS SEI QUE NA GLÓRIA
DO CÉU HÁ FESTA DA VIDA.

Canta a música popular. "Ó minha mãe, minha mãe, ó minha mãe minha amada. Quem tem um mãe tem tudo, quem não tem mãe não tem nada".
Isto pode ser verdade para quem canta o seu sofrimento e dor pela ausência de quem muito amou e foi amado.
Mas eu não me sinto como alguém que nada tem.
Tenho uma enorme herança recebida daquela Mulher, a minha mãe Maria, que me deu à luz e me ensinou a maior parte do que sou.
Sem dúvida que a Vida ensina muito mas jamais conseguirá ensinar o que uma mãe pode e que a minha ensinou com a maior maestría e hombridade que é possível.


HOJE 85 ANOS na terra. 
Amanhã 5 meses de partida para o Céu.

OBRIGADO MÃE E TENHO TANTAS, MAS TANTAS SAUDADES SUAS.
Beijinho e... muita Festa aí no Céu!

17 janeiro 2015

Parabéns Pai. 84 anos

Pai Manuel Rodrigues
84 ANOS, 
agora a
CELEBRAR
NA GLÓRIA
DO CÉU.

Se na Fé Cristã os que nos precederam e partem na paz, participam agora plenamente da Glória que lhes estava reservada pela bondade infinita de Deus.
Então... neste dia não quero chorar a não ser de saudade, da saudade do seu olhar, do seu canto, das suas gracinhas que nos faziam rir, mas sobretudo da saudade de um abraço e um beijinho, e daquele dia que me disse que punha a sua confiança total em mim.

Não quero chorar mas simplesmente cantar ao Deus Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor, porque não podia ter-me concedido outro pai melhor que o meu pai Manuel.

Pai, tenho saudades suas... mas sei que junto de Deus continua a olhar para nós... eu sinto isso a cada momento.

Beijinho e... muita Festa aí no Céu!

12 janeiro 2015

Conversão ao HOMEM NOVO



O texto que se segue é a minha releitura a partir das palavras da Ir. M.ª Amélia no 8.º Encontro)

FRANCISCO HOMEM CONVERSÃO: Continuação
O Salmo 46, rezado pela manhã, colocou-nos numa espécie de síntese do retiro: fortaleza que nos vem de Deus, o saciar a nossa alma em Deus e sobretudo expressarmos ao mundo dos nossos colóquios íntimos com Deus porque somos eleitos homens e mulheres da intimidade: O Senhor do universo está connosco! O Deus de Jacob é a nossa fortaleza! Vinde e contemplai as obras do Senhor, as maravilhas que Ele realizou na terra”.
Cristo chama à intimidade para depois nos enviar.
No texto anterior ficámos na GRUTA onde Francisco se refugia para um encontro mais íntimo com o Deus de Jesus Cristo.
No nosso processo pessoal, fraterno, comunitário, na sociedade, na Igreja, na Ordem, onde quer que nos encontremos, Cristo chama a sermos sinal da presença testemunhante de Francisco e Clara para que os outros sintam, mais do que verem, sintam que somos diferentes pela intimidade que temos com Ele e que se reflecte na nossa relação com os outros.

Voltemos ao percurso de CONVERSÃO de Francisco. Quais os QUATRO MOMENTOS CHAVE?
· SER POBRE. O gesto que se nos apresenta em primeiro lugar, como início de conversão, está no facto de deixar de ser alguém que dá esmolas aos pobres ao tornar-se ele mesmo pobre e pedir esmola. Este é um gesto provocatório para a sociedade de então, a Igreja e até mesmo a família e amigos, todos lhe chamam louco. Alguém um dia se lembrou de colocar como sendo oração de S. Francisco (da paz) a expressão “porque é dando que se recebe…”. Em Francisco há mais alegria no dar que no receber, isso é um facto. Este dar nem sempre é entregar alguma coisa ao outro, no sentir e viver de Francisco esta alegria pode ser o dar ao outro a oportunidade de me oferecer ele alguma coisa, e aqui Francisco habitualmente refere-se ao perdão. Denota em Francisco a grande preocupação pela alegria da reciprocidade, do amor, da fraternidade.
Uma tal opção de vida, que se alegra mais no dar que no receber, é aquela que faz dele e de nós pobres com os pobres, superar em si mesmo as pretensões para se sentir um igual aos pobres. A partir daqui as suas relações com os outros ganham um valor genuíno em Francisco.
Ser pobre não significa, para ele, não ter coisas mas sim, não ter a posse das mesmas, não ser dono, senhorio porque tudo recebemos na gratuidade de Deus. Ser pobre, para Francisco, é usar bem o que Deus nos concedeu sem permitir que ao seu lado alguém fosse mais pobre que ele. Quantas histórias poderíamos contar aqui de momentos em que ele deu o seu próprio hábito aos pobre que estava mais roto que ele, em que pagou para serem libertadas as rolas cativas, em que mandou aos seus frades que fossem levar comida ao bosque aos irmãos ladrões que os haviam assaltado… e por aí fora.

· BEIJO AO LEPROSO. Este é o segundo momento chave onde Francisco rompe consigo mesmo e com a sua estrutura interior. Os leprosos afastavam-se do resto das pessoas, fugiam, escondiam-se e avisava com uma campainha a sua presença para que todos deles fugissem e não fossem contagiados com a lepra. Quantas vezes Francisco fugiu, enojado talvez, com desprezo pelos que sofriam o mal da doença e da discriminação social inerente à lepra.
Olhar o outro como alguém a quem manifestar afecto e a quem amar com o sentido do coração de Deus leva Francisco a ir ao encontro do leproso, apear-se do cavalo e beijar aquele irmão atónito sem perceber o que estava a acontecer. Seria mesmo um louco, aquele Francisco Bernardone, beijar um leproso. Loucura não foi este gesto mas sim a mudança que ele permite se opere na sua vida e coração, como ele mesmo nos diz no seu Testamento: “e depois o Senhor me conduziu ao meio dos leprosos e o que antes era para mim amargo se tornou em doçura de alma”.
Francisco já não se sente diferente dos outros, dos pobres, dos marginalizados, dos enfermos, dos desenraizados. Francisco, identificado agora com Cristo pobre e sofredor, já não é o jovem das folgazias, o rei da juventude, o jovem de sonhos de cavalaria e honrarias. É um homem em permanente conversão interior que se deixa tocar por aquilo que jamais lhe passaria pela cabeça, Cristo vivo e operante através dos mais frágeis da sociedade. Francisco, neste momento chave da sua conversão, vive talvez uma das etapas mais importantes, difíceis e cruciais da sua vida espiritual, morrer para o amor prefigurado neste abraço ao homem sofredor que o leva sempre ao Cristo sofredor.
Francisco começa a entender aqui que é o morrer constantemente por amor e para o amor que gera mais vida. Por isso ele repete tantas vezes que “o Amor – Cristo – não é amado”, e uma vez mais olhamos a já referida oração que diz que “é morrendo que se vive para a Vida Eterna”.

· De CAVALEIRO A PEDREIRO. Toda a vocação é o chamamento ao SERVIÇO. Só há dois caminhos para Francisco – e para nós creio – viver na lógica do poder ou na lógica do serviço. Francisco já não quer mais ouvir a voz dos que têm o poder das nações, o domínio dos povos mas a voz de UM CRUCIFICADO e que lhe pede o Crucificado? “Vai, Francisco, e repara a minha Igreja que como vês ameaça ruir”. Estamos diante de uma capelinha em ruínas, dedicada a S. Damião, um grande Cristo Bizantino que se ergue diante de Francisco que ali ajoelha em busca da vontade de Deus e repete sem cessar: “quem és Tu, ó Deus meu, e quem sou eu?” e ainda “Senhor, que queres que eu faça, que queres de mim?”
“Repara a minha Igreja…”. Esta é a vontade do Crucificado e, Francisco, prontamente arregaça as mãos e de pedra e argamassa vai reparar as paredes daquela e de outras capelas de Assis. A honestidade da resposta imediata à vontade de Deus nem o deixou pensar que Igreja é esta a que Cristo se refere. Ele mesmo vai dizer que só mais tarde percebeu que não eram igrejas de pedras mas sim a Igreja povo de Deus com os problemas e crises do seu tempo – tão pouco diferente do tempo actual – que Deus queria que ele reparasse.
Este tempo todo é, podemos dizer, o tempo verdadeiro da sua conversão. É aqui que toda a transformação interior se consolida, no serviço aos outros, no trabalho para os outros, na oração íntima com Deus. É o tempo da conversão do narcisismo para o amor, entrega purificada e livre à missão. Dá-se aqui, podemos dizer, um salto verdadeiramente qualitativo na vida de Francisco.
Neste momento Cristo tem Francisco bem preparado para a PROVA DE FOGO, onde ele vai expor a sua descoberta absoluta do seguimento de Cristo.

· DESPOJAMENTO. Fracisco, sem muitas palavras, tudo restitui ao mundo, à família, até o nome Bernardone restitui ao pai para reencontrar a sua nova condição de filho e, despojado de todas as coisas deste mundo, fazer vida as palavras que disse diante do Bispo, do Podesta, da família e da cidade inteira: “de hoje em dianta já não chamarei mais pai a Pedro Bernardone mas antes direi PAI NOSSO que estais no céu”. DEUS É O SEU PAI e assim será sempre.
Despojado se encontra, não como um verme, mas como uma criança é sinal de renascimento, como aconteceu com Nicodemos no Evangelho. Só assim, passando por este caminho seremos livres, responsáveis, capazes de assumir o fracasso, a solidão mas também as vitórias e alegrias em Deus que nascem deste renascimento permanente. Trata-se de viver mais de vinho novo em odres novos e não de vinho velho em odres velhos, como lembra Jesus.

Independentemente da idade que tenhamos somos constantemente convidados a uma conversão que tenha perfume, arejada, suave e capaz de ter o sabor da paz e da alegria: Aleluia!Louvai o Senhor, porque é bom cantar! É agradável e é justo louvar o nosso Deus.” (Sl 147, 1). Deus cuida de nós e esta consciência está sempre presente em Francisco CONVERTIDO POR AMOR bem como em Clara sua Plantazinha e deve estar presente em todos os que de uma forma ou de outra partilham deste sentir de Clara e Francisco. Deus restaura a cada momento a “nossa Jerusalém”, o que somos e temos porque tudo é DOM DO SEU AMOR, convida-nos a entrar lá para renovar a vida, para ser missão.

Muitos foram os momentos chave na vida de Francisco, e por seguimento na vida de Clara, mas ficam estes que partilhou a Irmã Maria Amélia Costa e que, ao longo destes últimos tempos voltei a reflectir, rezar e reescrever ao meu jeito, completando com a minha reflexão pessoal também.
À minha querida Ir. M.ª Amélia Costa quero agradecer o dom enorme que foi ter uma Mulher como ela a orientar a nova caminhada no “chão de Francisco e Clara”.
Dentro de dias, e como corolário de todas estas reflexões, temos, eu e a Ir. M.ª Amélia uma surpresa para todos. Aguardem porque temos certeza que será motivo de alegria e vida partilhada.

Termino com um pensamento para um dos mais belos textos que Francisco escreveu e que é a SAUDAÇÃO À BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA
"Salve, Senhora santa Rainha, santa Mãe de Deus, Maria virgem convertida em templo, e eleita pelo santíssimo Pai do céu, consagrada por Ele com o seu santíssimo amado Filho e o Espírito Santo Paráclito;
que teve e tem toda a plenitude da graça e todo o bem!
Salve, palácio de Deus!
Salve, tabernáculo de Deus!
Salve, casa de Deus!
Salve, vestidura de Deus!
Salve, Mãe de Deus!
E vós, todas as santas virtudes, que pela graça e iluminação do Espírito Santo sois infundidas no coração dos fiéis, para, de infiéis que somos, nos tornardes fiéis a Deus."

11 janeiro 2015

NATAL: Baptismo de Jesus

Terminamos hoje o Tempo do Natal com este dia do
BATISMO DO SENHOR
(Desactivar a música do blog para ouvir a mensagem do vídeo)


Peço uma vez mais que perdoeis algumas gafes ou ideias repetidas mas não é fácil filmar e ao mesmo tempo estar atento às palavras porque, não existe ponto nem cábula para ler.

04 janeiro 2015

Epifania: Viemos adorá-l'O

Hoje o Salmo 71 leva-nos à aclamação: “Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.” E mais adiante referindo-se ao Messias canta que “Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas. Prostrar-se-ão diante dele todos os reis, todos os povos o hão-de servir.”Este Salmo torna-se o mote para a nossa reflexão deste dia, o dia da Epifania, da manifestação de Deus em Jesus Cristo.É d’Ele que fala o salmo. A adoração e a prostração dos grandes do mundo, só poderia acontecer diante do grande mistério da manifestação de Deus ao Seu povo, o novo Israel, a nova Jerusalém.Isaías (Is 60, 1-6) sonha com esta grande realidade e mais ainda aponta-a para um futuro próximo: “Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor”Não é apenas um sonho mas a revelação do próprio Deus que vem, Ele é a Luz que vem para iluminar e guiar nos caminhos da paz e da justiça. “sobre ti levanta-Se o Senhor, e a sua glória te ilumina” (…)Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor”.Como é bom imaginar o profeta a fazer esta preconização na enorme praça da cidade Santa. Como crer que a Luz de Deus vem iluminar quem se sente tão longe d’Ele? Como crer que os outros povos poderosos olharão para uma nova Jerusalém invadindo-a não para a derrotar mas para a encher de bens e de presentes, ouro, sinal da realeza e incenso sinal da divindade.
Deus iluminará o Seu Povo, reformará o seu coração, a sua história e atrairá a ele todos os outros povos.Esta é a promessa que hoje nos narra Mateus 2, 1-12: “Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O».Uns magos, ou reis como também se lhes chama noutros textos, conhecem a Escritura Sagrada, conhecem os sinais dos tempos e deixam-se guiar por uma Luz, uma estrela, diferente de todas as outras. E eis que chegam ao lugar onde está Maria e o Menino. É curioso que o Evangelho não refere mais ninguém, nem mesmo José. “Puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.”José aparece aqui completamente ofuscado pelo mistério da Encarnação. Parece que o Evangelista apenas se preocupa em revelar a grandeza do Menino e de Sua Mãe. Nada mais importa ali naquele lugar. José teve e tem um lugar primordial na vida de Cristo e em toda a história da salvação mas, curiosamente, nos momentos mais fortes – tão poucos – em que José está presente não existe grande preocupação a não ser revelar que o grande Mistério da Salvação nos vem de Jesus por Maria.Aquela pequena terra, Belém, que ao que parece nem era lá muito bem vista aos olhos do tempo, cumpre assim a promessa de Deus como no-lo revela Mateus: “Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo”.
Ao acolher o Messias Belém torna-se a cidade que abre as portas à realização da Salvação divina. Assim, transforma-se na terra do medo de Herodes, medo deste novo Rei e do Seu Povo. Herodes teme e o seu temor leva-o à mentira, à fúria e à morte dos Santos Inocentes recentemente celebrados por todos nós. Aos seus pares, se assim lhes podemos chamar, Herodes manda-os até Belém no intuito de saber onde está tal Rei nascido porque, diz ele, também lhe quer prestar homenagem, também ele o quer ir adorar. A sua mentira não é esquecida por Deus.
Os Magos seguem a estrela e chegam ao lugar onde está Maria e o Menino e, diz Mateus: “abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra”.Já vimos que o ouro é o símbolo da realeza, o incenso da divindade e a mirra é símbolo da humanidade sofredora.

Uns Magos, uns Reis, pessoas importantes de outros povos e nações, prostram-se diante de um bebé acabado de nascer para O adorar. Só por si este gesto é já significativo do reconhecimento de que Ele é a realização da promessa Salvífica de Deus. Reconhecem a Sua Realeza, Cristo é o Rei de todos os Povos, de todo o Universo; reconhecem a Sua Divindade, Cristo é Deus, faz parte do grande mistério que Deus é, mas reconhecem também a sua humanidade e, no dizer de alguns biblistas, a mirra representa todo o sofrimento que o levaria à Cruz.Estes magos representam a humanidade inteira, não é só o Povo Hebreu que recebe ou reconhece a Salvação mas a humanidade inteira.Paulo em Ef 3,2-3a.5-6, lembra-nos esta realidade da sua e nossa fé: “Certamente já ouvistes falar (…) foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo. (…) Revelado pelo Espírito Santo (…) os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.”Aqui vemos a Universalidade da salvação. Cristo vem resgatar todos os povos de todos os tempos. E o mais bonito de todo este mistério do Natal é que a Revelação começa pelos mais pobres e simples, os pastores que guardam os rebanhos, são os Anjos que os convidam a dar glória a Deus e depois os gentios, os Magos, os Reis dos outros povos.
Todos recebem, em símbolos diversos: Palavra de Deus, Anjos, Luz, Estrela, a grande alegria de que “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória de Unigénito do Pai, cheio de graça e verdade”.
E Maria ali está, silenciosa face ao que todos contam acerca do Seu Menino. É a Mãe do silêncio, do acolhimento, da entrega, da Revelação.Voltando ao Evangelho Mateus termina dizendo que: “E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho”.
Os caminhos de Deus manifestam-se a cada momento do nosso dia-a-dia.
Neste dia somos chamados a participar desta Epifania, manifestação da Glória de Deus, através dos nossos gestos e do testemunho da nossa fé. Foi a fé que levou os Magos até Belém. Eu costumo dizer que aquela estrela de que falam os Evangelhos não é mais que a luz da fé que salva e aponta o caminho a seguir. Não foram anjos mas o crer, o acreditar nessa Luz, que levou estes, a que a tradição dá o nome de Baltazar, Gaspar e Belchior, ao lugar onde um Menino e Sua Mãe recebem o louvor, a prostração e a adoração. Adorar o Menino Deus é certamente tecer um gesto de adoração Àquela que abre as portas do Reino de Deus outrora fechadas pelo pecado de Eva. Assim o cantamos nós na antífona: “Por Eva foi fechada aos homens a porta do céu, e a todos foi de novo aberta por Maria”.
Como Igreja em comunhão, não esquecendo os nossos irmãos Ortodoxos que hoje celebram o seu Natal, saibamos deixar-nos guiar pela Luz que é Cristo e na alegria exclamada por Isaías, na fé proclamada por Paulo e na beleza do mistério revelado em Mateus, cantemos com a Igreja inteira:

“Gloria in excelsis Deo”…

27 dezembro 2014

Deus fez-se Humano. Glória in excelsis

"Um Menino nos foi dado, um Santo nos nasceu..."
Hoje alguém me mostrou este vídeo fantástico que nos faz parar e refletir verdadeiramente sobre este grande mistério de um Deus que se faz Menino.
Espero que vos deixe extasiados tal como me deixou a mim e que nos ajude a continuar a celebrar o Tempo de natal.
Boas Festas para todos! 

25 dezembro 2014

Noite Feliz

Já lá vão uns anos desde que gravei este clipe de vídeo.
Com ele quero renovar a minha gratidão a todos os que nos últimos anos foram sinal da presença amorosa do Deus Menino na minha vida.
Uma vez mais Santo e feliz Natal.
(desactivar a música do blog na coluna da esquerda)

21 dezembro 2014

O Senhor está Contigo. Maranatha!

Partilho neste quarto Domingo do advento um vídeo feito pelas Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Nele podemos refletir esta presenta de Deus ao longo da História e como Deus se revela, como nunca, no hoje da nossa Vida, por meio de Seu Filho acolhido no meio de nós pela Virgem Maria.
O SIM de Maria torna-se o sim da Humanidade crente.
Vem, Senhor Jesus! Maranatha!

17 dezembro 2014

Antífonas do Ó

É sempre bom recordar a grande devoção deste tempo último do Advento:
as ANTÍFONAS DO Ó.

Ricas na sua beleza e no que simbolizam neste tempo do advento, são antífonas - pequenas frases que, desde o dia 17 até ao dia 23, rezamos ou cantamos como antífonas do Magnificat, na Oração de Vésperas, e como estrofe da aclamação ao Evangelho da Eucaristia.

Refira-se ainda que nestes momentos da liturgia estas antífonas já estão um pouco mais simplificadas mas sem perderem o verdadeiro sentido original. Pesquisei na net em vários sítios, pedi ajuda aos confrades mais doutos que eu nestas coisas da liturgia. O texto que se segue é o meu resumo do que pude aprender.

Desde o dia 17 de Dezembro ao dia 23, nos momentos litúrgicos acima referidos, cantam-se as antífonas do Ó, habitualmente com melodias gregorianas, antes e depois do Magnificat. Ao que parece terão sido compostas entre os séculos VII e VIII. Pode dizer-se que no seu conjunto resumem um verdadeiro e admirável compêndio da cristologia da antiga Igreja, sendo um resumo expressivo do desejo de salvação de toda a humanidade, tanto de Israel no Antigo Testamento, como da Igreja no Novo Testamento. Trata-se de pequenas estrofes ao jeito de oração, dirigidas a Cristo e que resumem o espírito deste tempo de Advento e Natal. Ao cantar, proclamar ou rezar estas antífonas a Igreja expressa a sua admiração diante do mistério de Deus feito Homem. É de realçar a força com que começam, através da interjeição «Ó», que nos adentra para uma compreensão cada vez mais profunda de tal mistério, bem como a forma suplicante com que terminam: «Vem, não tardes mais!». Estas antífonas são súplicas a Cristo, reverenciando o Senhor que vem, com um título diferente em cada dia, título messiânico retirado do Antigo Testamento, mas que de alguma forma preconiza toda a plenitude que se realizará no Novo: As antífonas em latim têm uma outra particularidade que eu não sabia e que aprendi agora. Vejamos como começam elas em latim e os dias correspondentes:

17 de dezembro: "O Sapientia" (Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo)
18 de dezembro: "O Adonai" (Ó meu Senhor, Guia da Casa de Israel)
19 de dezembro: "O Radix" (Ó Raiz de Jessé)
20 de dezembro: "O Clavis" (Ó Chave de David)
21 de dezembro: "O Oriens" (Ó Sol nascente, esplendor da Luz Eterna)
22 de dezembro: "O Rex gentium" (Ó Rei das Nações)
23 de dezembro: "O Emmanuel" (Ó Deus connosco)

Se lermos as palavras, formadas pelas letras iniciais das palavras latinas, após a interjeição “O”, e lidas no sentido inverso, da última para a primeira, encontramo-nos diante do acróstico (composição poética em que as letras iniciais dos versos, ou as do meio, ou as do final, formam uma frase ou uma palavra) «ERO CRAS». De acordo com os meus confrades, doutos nestas cousas, “ero” significa “ontem” e “cras” significa “amanhã”. Aumentou a minha curiosidade acerca da tradução e significado de tal acróstico. Voltei a questionar os confrades e, dizem eles, e eu assim o creio, significa «virei amanhã, serei amanhã, estarei amanhã», reflectindo desta forma a resposta do Messias à súplica dos fiéis.
Deixo aqui o texto em latim e a tradução que encontrei para a língua Lusa. Confio que esta esteja correcta e com o verdadeiro sentido do original.
O Sapientia, quae ex ore Altissimi prodiisti, attingens a fine usque ad finem, fortiter, suaviterque disponens omnia: veni ad docendum nos viam prudentiae.Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo, e atingis até os confins de todo o universo, e com força e suavidade governais o mundo inteiro: oh vinde ensinar-nos o caminho da prudência!O Adonai, et dux domus Israel, qui Moysi in igne flammae rubi apparuisti, et ei in Sina legem dedisti: veni ad redimendum nos in brachio extento.Ó Adonai (Senhor), guia da casa de Israel, que aparecestes a Moisés na sarça ardente, e lhe destes a vossa lei sobre o Sinai, vinde salvar-nos com braço poderoso!O Radix Jesse, qui stas in signum populorum, super quem continebunt reges os suum, quem gentes deprecabuntur: veni ad liberandum nos, jam nolli tardare.Ó Raiz de Jessé, ó estandarte, levantado em sinal para as nações! Ante vós se calarão os reis da terra, e as nações implorarão misericórdia: Vinde salvar-nos! Libertai-nos sem demora!O Clavis David, et sceptrum domus Israel, qui aperis, et nemo claudit; claudis, et nemo aperit: veni et educ vinctum de domo carceris, sedentem in tenebris et umbra mortis.Ó Chave de David, ceptro da casa de Israel, que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre: vinde logo e libertai o homem prisioneiro que, nas trevas e na sombra da morte está sentado.O Oriens, splendor lucis aeternae et sol justitiae: veni et illumina sedentes in tenebris et umbra mortis.Ó Sol Nascente justiceiro, resplendor da Luz eterna: Oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas e na sombra do pecado e da morte estão sentados.O Rex Gentíum, et desideratus earum, lapisque angularis, qui facis utraque unum: veni, et salva hominem quem de limo formastí.Ó Rei das Nações, desejado dos povos; ó Pedra Angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!O Emmanuel, Rex et legifer noster, expectatio gentium et Salvator earum: veni ad salvandum nos, Domine Deus noster.Ó Emanuel – Deus-connosco, nosso Rei Legislador, Esperança das Nações e dos povos Salvador: Vinde enfim para salvar-nos, ó Senhor nosso Deus!

Termino suplicando “Maranatha!”, vem Senhor Jesus!

(fontes: Wikipédia, a enciclopédia livre, outros sítios da net e Dictionnaire de Archeologie Chretienne et de Liturgie, publié par Dom Fernand Cabral, XII, Paris, 1936, p. 1816)

08 dezembro 2014

Imaculada e Duns Scoto

Imaculada Conceição
e Beato Duns Scoto (OFM)

A catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral desta quarta-feira (07/07/2010)

Queridos irmãos e irmãs:
Imaculada Conceição
difundida e Venerada pelos Franciscanos

Nesta manhã – depois de algumas catequeses sobre diversos grandes teólogos – quero apresentar-vos outra figura importante na história da teologia: trata-se do beato João Duns Scoto, que viveu no final do século XIII. Uma antiga inscrição sobre seu túmulo resume as coordenadas geográficas da sua biografia: “A Inglaterra o acolheu; a França o educou; Colônia, na Alemanha, conserva seus restos; na Escócia ele nasceu”. Não podemos descuidar estas informações, também porque temos poucas notícias sobre a vida de Duns Scoto. Ele nasceu provavelmente em 1266, em um povoado que se chamava precisamente Duns, nas proximidades de Edimburgo.


Atraído pelo carisma de São Francisco de Assis, entrou na família dos Frades Menores e, em 1291, foi ordenado sacerdote.

Dotado de uma inteligência brilhante e levada à especulação – essa inteligência pela qual mereceu da tradição o título de Doctor subtilis, “Doutor sutil” -, Duns Scoto foi dirigido aos estudos de filosofia e de teologia nas célebres universidades de Oxford e de Paris. Concluída com êxito sua formação, dedicou-se ao ensino da teologia nas universidades de Oxford e de Cambridge, e depois de Paris, começando a comentar, como todos os Mestres do seu tempo, as Sentenças de Pedro Lombardo. As principais obras de Duns Scoto representam precisamente o fruto maduro dessas lições, e tomam seu título dos lugares nos quais lecionou: Opus Oxoniense (Oxford), Reportatio Cambrigensis (Cambridge), Reportata Parisiensia (Paris). De Paris ele se afastou quando, após o começo de um grave conflito entre o rei Felipe IV o Belo e o Papa Bonifácio VIII, Duns Scoto preferiu o exílio voluntário, ao invés de assinar um documento hostil ao Sumo Pontífice, como o rei havia imposto a todos os religiosos. Assim, por amor à Sé de Pedro, junto aos frades franciscanos, abandonou o país.
Queridos irmãos e irmãs: este fato nos convida a recordar quantas vezes, na história da Igreja, os crentes encontraram hostilidade e sofreram inclusive perseguições por causa de sua fidelidade e de sua devoção a Cristo, à Igreja e ao Papa. Nós todos contemplamos com admiração esses cristãos, que nos ensinam a proteger como um bem precioso a fé em Cristo e a comunhão com o Sucessor de Pedro e, assim, com a Igreja universal.
No entanto, as relações entre o rei da França e o sucessor de Bonifácio VIII logo voltaram a ser amistosas e, em 1305, Duns Scoto pôde voltar a Paris para lecionar teologia com o título de Magister regens, que hoje seria o de professor efetivo. Sucessivamente, os superiores o enviaram a Colônia como professor do Studium teológico franciscano, mas ele morreu no dia 8 de novembro de 1308, com apenas 43 anos de idade, deixando, contudo, um número relevante de obras.


Por ocasião da fama de santidade de que gozava, seu culto se difundiu em pouco tempo na ordem franciscana e o venerável

Papa João Paulo II quis confirmá-lo solenemente beato no dia 20 de março de 1993, definindo-o como “cantor do Verbo Encarnado e Defensor da Imaculada Conceição”. Nesta expressão está sintetizada a grande contribuição que Duns Scoto ofereceu à história da teologia.


Antes de tudo, meditou sobre o mistério da Encarnação e, ao contrário de muitos pensadores cristãos da época, sustentou que o Filho de Deus teria se feito homem ainda que a humanidade não tivesse pecado. Ele afirma, na Reportata Parisiensa: “Pensar que Deus teria renunciado a esta obra se Adão não tivesse pecado seria totalmente irracional. Digo, portanto, que a queda não foi a causa da predestinação de Cristo, e que, ainda que ninguém tivesse caído, nem o anjo, nem o homem, nesta hipótese Cristo teria

estado ainda predestinado da mesma forma” (in III Sent., d. 7, 4). Este pensamento, talvez um pouco surpreendente, nasce porque, para Duns Scoto, a Encarnação do Filho de Deus, projetada desde a eternidade por parte de Deus Pai em seu plano de amor, é cumprimento da criação e torna possível a toda criatura, em Cristo e por meio d’Ele, ser cumulada de graça e dar louvor e glória a Deus na eternidade. Duns Scoto, ainda consciente de que, na realidade, por causa do pecado original, Cristo nos redimiu com sua Paixão, Morte e Ressurreição, reafirma que a Encarnação é a maior e mais bela obra de toda a história da salvação e que esta não está condicionada por nenhum fato contingente, mas é a ideia original de Deus de unir finalmente todo o criado consigo mesmo na pessoa e na carne do Filho.

Fiel discípulo de São Francisco, Duns Scoto amava contemplar e pregar o mistério da Paixão salvífica de Cristo, expressão do amor imenso de Deus, que comunica com grandíssima generosidade fora de si os raios da sua bondade e do seu amor (cf. Tractatus de primo principio, c. 4). E este amor não se revela somente no calvário, mas também na Santíssima Eucaristia, da qual Duns Scoto era devotíssimo e que via como o sacramento da presença real de Jesus e como o sacramento da unidade e da comunhão que nos

induz a amar-nos uns aos outros e a amar a Deus como o Sumo Bem comum (cf. Reportata Parisiensia, in IV Sent., d. 8, q. 1, n. 3).
Queridos irmãos e irmãs: esta visão teológica, fortemente “cristocêntrica”, abre-nos à contemplação, ao estupor e à gratidão: Cristo é o centro da história e do cosmos, é Aquele que dá sentido, dignidade e valor à nossa vida. Como o Papa Paulo VI em Manila, também eu, hoje, quero gritar ao mundo: “[Cristo] é o revelador do Deus invisível, é o primogênito de toda criatura, é o fundamento de tudo; é o Mestre da humanidade, é o Redentor; nasceu, morreu e ressuscitou por nós; Ele é o centro da história e do mundo; é Aquele que nos conhece e que nos ama; é o companheiro e o amigo da nossa vida… Eu nunca terminaria de falar d’Ele” (Homilia, 29 de novembro de 1970).

Não somente o papel de Cristo na história da salvação, mas também o de Maria é objeto da reflexão do Doctor subtilis. Na época de Duns Scoto, a maior parte dos teólogos opunha uma objeção, que parecia insuperável, à doutrina segundo a qual Maria Santíssima esteve isenta do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção: de fato, a universalidade da Redenção levada a cabo por Cristo, à primeira vista, poderia parecer comprometida por uma afirmação semelhante, como se Maria não tivesse tido necessidade de Cristo e da sua redenção. Por isso, os teólogos se opunham a esta tese. Duns Scoto, então, para fazer compreender esta preservação do pecado original, desenvolveu um argumento que foi depois adotado também pelo Papa Pio IX em 1854, quando definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria. E este argumento é o da “redenção preventiva”, segundo a qual a Imaculada Conceição representa a obra de arte da Redenção realizada em Cristo, porque precisamente o poder do seu amor e da sua mediação obteve que a Mãe fosse preservada do pecado original. Portanto, Maria está totalmente redimida por Cristo, mas já antes da sua concepção. Os franciscanos, seus irmãos, acolheram e difundiram com entusiasmo esta doutrina, e os demais teólogos – frequentemente com juramento solene – se comprometeram a defendê-la e aperfeiçoá-la.
A este respeito, gostaria de evidenciar um dado que me parece importante. Teólogos de valor, como Duns Scoto sobre a doutrina da Imaculada Conceição, enriqueceram com sua contribuição específica de pensamento o que o Povo de Deus já acreditava espontaneamente sobre a Beatíssima Virgem, e manifestava nos atos de piedade, nas expressões da arte e, em geral, na vida cristã. Assim, a fé, tanto na Imaculada Conceição como na Assunção corporal de Nossa Senhora já estava presente no Povo de Deus, enquanto a teologia não havia encontrado ainda a chave para interpretá-la na totalidade da doutrina da fé. Portanto, o Povo de Deus precede os teólogos e tudo isso graças a esse sensus fidei sobrenatural, isto é, essa capacidade infundida pelo Espírito Santo, que capacita para abraçar a realidade da fé, com a humildade do coração e da mente. Neste sentido, o Povo de Deus é “magistério que precede” e que deve ser depois aprofundado e acolhido intelectualmente pela teologia. Que os teólogos possam sempre colocar-se à escuta dessa fonte da fé e conservar a humildade e a simplicidade dos pequenos! Recordei isso há alguns meses, dizendo: “Existem grandes doutos, grandes especialistas, grandes teólogos, mestres da fé, que nos ensinaram muitas coisas. 

Penetraram nos pormenores da Sagrada Escritura (…), mas não puderam ver o próprio mistério, o verdadeiro núcleo (…). O essencial permaneceu escondido! (…) Pensemos em Santa Bernadete Soubirous; em Santa Teresa de Lisieux, com a sua nova leitura da Bíblia ‘não científica’, mas que entra no coração da Sagrada Escritura” (Homilia. Missa com os Membros da Comissão Teológica Internacional, 1º de dezembro de 2009).



Finalmente, Duns Scoto desenvolveu um ponto no qual a modernidade é muito sensível. Trata-se do tema da liberdade e da sua relação com a vontade e com o intelecto. Nosso autor sublinha a liberdade como qualidade fundamental da vontade, iniciando uma postura de tendência voluntarista, que se desenvolveu em contraposição com o chamado intelectualismo agostiniano e tomista. Para São Tomás de Aquino, que segue Santo Agostinho, a liberdade não pode ser considerada uma qualidade inata da vontade, mas o fruto da colaboração da vontade com o intelecto. Uma ideia da liberdade inata e absoluta colocada na vontade que precede o intelecto, tanto em Deus como no homem, corre o risco, de fato, de levar à ideia de um Deus que não estaria ligado tampouco à verdade nem ao bem. O desejo de salvar a absoluta transcendência e diversidade de Deus com uma afirmação tão radical e impenetrável da sua vontade não leva em consideração que o Deus que se revelou em Cristo é o Deus “logos”, que agiu e age repleto de amor a nós. Certamente, como afirma Duns Scoto na linha da teologia franciscana, o amor supera o conhecimento e é capaz de perceber cada vez mais o pensamento, mas é sempre o amor de Deus “logos” (cf. Bento XVI, Discurso em Ratisbona, “Enseñanzas de Benedicto” XVI, II [2006], p. 261). Também no homem a ideia de liberdade absoluta, colocada na vontade, esquecendo o nexo com a verdade, ignora que a própria liberdade deve ser libertada dos limites que lhe foram postos pelo pecado.

Falando aos seminaristas de Roma, no ano passado, eu recordava que “a liberdade, em todas as épocas, foi o grande sonho da humanidade, desde o início, mas particularmente na época moderna (Discurso ao Pontifício Seminário Maior Romano, 20 de fevereiro de 2009). Mas precisamente a istória moderna, além da nossa experiência cotidiana, ensina-nos que a liberdade é autêntica e ajuda na construção de uma civilização verdadeiramente humana somente quando está reconciliada com a verdade. Quando se separa da verdade, a liberdade se converte tragicamente em princípio de destruição da harmonia interior da pessoa humana, fonte de prevaricação dos mais fortes e dos mais violentos e causa de sofrimentos e de lutos. A liberdade, como todas as faculdades de que o homem está dotado, cresce e se aperfeiçoa, afirma Duns Scoto, quando o homem se abre a Deus, valorizando essa disposição à escuta da sua voz, que ele chama de potentia obedientialis: quando nos colocamos à escuta da Revelação divina, da Palavra de Deus, para acolhê-la, então somos alcançados por uma mensagem que enche de luz e de esperança nossa vida e somos verdadeiramente livres.

Queridos irmãos e irmãs: o beato Duns Scoto nos ensina que, na nossa vida, o essencial é crer que Deus está perto de nós e nos ama em Jesus Cristo; e cultivar, portanto, um profundo amor a Ele e à sua Igreja. Desse amor nós somos as testemunhas nesta terra. Que Maria Santíssima nos ajude a receber este infinito amor de Deus do qual gozaremos plenamente pela eternidade no céu, quando finalmente nossa alma estará unida para sempre a Deus, na comunhão dos santos.


[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs:
Dotado de uma inteligência brilhante inclinada à especulação, que lhe valeu o título de “Doutor subtil”, o Beato João Duns Escoto pode ter a sua vida resumida nas palavras duma antiga inscrição que se encontra na sua tumba: “A Inglaterra o acolheu; a França o instruiu; Colônia, na Alemanha, conserva os seus restos; na Escócia ele nasceu”. Atraído pelo carisma de São Francisco de Assis, ingressou na Ordem dos Frades Menores, caracterizando a sua vida e pensamento por um forte cristocentrismo, pela defesa da Imaculada Conceição de Maria e por um profundo amor ao Papa. Sobre o Filho de Deus, alegava que este se teria encarnado mesmo sem que a humanidade tivesse pecado, uma vez que a Encarnação estaria projetada desde a eternidade por Deus Pai no seu plano amoroso. De fato, esse amor imenso de Deus se revelaria na Paixão salvífica de Cristo e na Eucaristia, da qual Duns Escoto afirmava ser o sacramento da Unidade e da Comunhão que leva a nos amar uns aos outros e amar a Deus como Sumo Bem comum. Seguindo o sensus fidei do Povo de Deus desenvolveu o tema da “redenção preventiva” segundo o qual a Imaculada Conceição representa a obra-prima da redenção operada por Cristo, ao preservar Maria da mancha do pecado original. Morreu ainda jovem, com fama de santidade, legando um número relevante de obras.
Uma saudação cordial aos peregrinos de língua portuguesa, com votos de que sejais sobre esta terra testemunhas do amor de Cristo, consolidando a fé que professais através da visita às tumbas dos Apóstolos Pedro e Paulo. Que Deus vos abençoe!



Papa Bento XVI (7-7-2010)

(http://www.franciscanos.org.br)

Acrescento eu que:
Em Portugal o Rei D. João IV - em 1946 - retira da sua cabeça a coroa real e coroa com ela a Imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, como Rainha e Padroeira de Portugal sendo que nunca mais nenhum Monarca em Portugal usou coroa real.

07 dezembro 2014

ADVENTO: Figuras marcantes

As figuras do advento
Isaías - Isaías é o profeta que, durante os tempos difíceis do exílio do povo eleito, levava a consolação e a esperança. Na segunda parte do seu livro, dos capítulos 40 - 55 (Livro da Consolação), anuncia a libertação, fala de um novo e glorioso êxodo e da criação de uma nova Jerusalém, reanimando assim os exilados.
As principais passagens deste livro são proclamadas durante o tempo do Advento num anúncio perene de esperança para os homens de todos os tempos. Ele que no capitulo 7 do seu livro já anuncia a vinda do Senhor.

João Baptista - É o último dos profetas e segundo o próprio Jesus, "mais que um profeta", "o maior entre os que nasceram de mulher", o mensageiro que veio diante d'Ele a fim de lhe preparar o caminho, anunciando a sua vinda (Lc 7, 26 - 28), pregando aos povos a conversão, pelo conhecimento da salvação e perdão dos pecados (Lc 1, 76s). A figura de João Baptista ao ser o precursor do Senhor e aponta como presença já estabelecida no meio do povo, encarna todo o espírito do Advento. Por isso ele ocupa um grande espaço na liturgia desse tempo, em especial no segundo e no terceiro domingo. João Baptista é o modelo dos que são consagrados a Deus e que, no mundo de hoje, são chamados a também ser profetas e profetisas do reino, vozes no deserto e caminho que sinaliza para o Senhor, permitindo, na própria vida, o crescimento de Jesus e a diminuição de si mesmo, levando, por sua vez os homens a despertar do torpor do pecado.

José - Nos textos bíblicos do Advento, se destaca José, esposo de Maria, o homem justo e humilde que aceita a missão de ser o pai adoptivo de Jesus. Ao ser da descendência de David e pai legal de Jesus, José tem um lugar especial na encarnação, permitindo que se cumpra em Jesus o título messiânico de "Filho de David".José é justo por causa de sua fé, modelo de fé dos que querem entrar em diálogo e comunhão com Deus.

Maria – É a personagem central do Advento. É a "Cheia de graça", a "bendita entre as mulheres", a "Virgem", a "Esposa de Jesus", a "serva do Senhor". É a mulher nova, a nova Eva que restabelece e recapitula no desígnio de Deus pela obediência da fé o mistério da salvação. É a Filha de Sião, a que representa o Antigo e o Novo Israel. É a Virgem do Sim a Deus. É a Virgem da escuta e acolhe. Maria aceitou ser a mãe de Jesus Cristo, o Filho de Deus Salvador. A Liturgia do Advento sintetiza a função de Maria no Natal de Jesus:
"Nós vos louvamos, nós vos bendizemos e vos glorificamos pelo Mistério da Virgem Mãe. Porque, se do antigo adversário nos veio a ruína, no seio da Filha de Sião germinou aquele que nos nutre com o pão celestial, e fez brotar para todo o género humano a salvação e a paz. A graça que Eva nos arrebatou nos foi devolvida em Maria. Nela, mãe de todos os homens, a maternidade, redimida do pecado e da morte, abre-se ao dom de uma vida nova. Assim, onde havia crescido o pecado, superabundou vossa misericórdia em Cristo nosso Salvador. Por isso nós, enquanto esperamos a vinda do Cristo, unidos aos anjos e aos santos, cantamos o hino louvor" (Prefácio IV).
http://www.pucrs.br/pastoral/advento

30 novembro 2014

Advento: orígem e simbologia



O tempo de Advento
Advento, do latim Adventus: "chegada", do verbo Advenire: "chegar a", é o primeiro tempo do calendário religioso. Corresponde às quatro semanas que antecedem e preparam o Natal. Inicia no domingo mais próximo à Festa do Apóstolo Santo André, dia 30 de Novembro e termina em 24 de Dezembro. É a primeira das três etapas que, em unidade, celebram o Nascimento de Cristo:
Advento, Natal e Epifania. Para os cristãos, é um tempo de preparação, expectativa e alegria, quando os fiéis, esperando o nascimento de Jesus Cristo, vivem a conversão e promovem a fraternidade e a Paz.
Origem
O símbolo do Advento é a Coroa, que teve sua origem em culturas pré-cristãs da Europa. No rigoroso inverno do Hemisfério Norte se acendia fogos ao deus Sol com a esperança de que a sua luz e o seu calor voltasse. Os primeiros missionários católicos aproveitaram desta tradição para expressar a doutrina e a fé cristãs. A coroa é formada por uma grande quantidade de símbolos:
A forma circular: O círculo não tem princípio, nem fim. Ele representa o amor
de Deus, que também não tem princípio, nem fim, nunca vai terminar, é eterno. O círculo também é símbolo de unidade e aliança entre Deus e as pessoas.
Os ramos verdes: Verde é a cor da esperança e da vida. O Cristão antecipa a vida eterna, a comunhão com Deus, a felicidade da vida futura pela virtude da Esperança.
Aguarda a plenitude da salvação trazida pelo Cristo.
As velas: As quatro velas representam essas quatro semanas e serão acesas, uma a uma, desde o primeiro domingo do Advento até o quarto domingo, sucessivamente. Isto representa a passagem da escuridão do pecado para a vida nova em Cristo, que vem como “luz do mundo”, que dissipa toda escuridão, trazendo aos nossos corações o perdão, a reconciliação e a paz tão esperada.
A primeira referência ao "Tempo do Advento" é encontrada na Espanha, quando no ano 380, o Sínodo de Saragoça prescreveu uma preparação de três semanas para a Epifania, data em que, antigamente, também se celebrava o Natal. Há relatos de que o Advento começou a ser vivido entre os séculos IV e VII em vários lugares do mundo, como preparação para a festa do Natal. Mais tarde o Advento passou a ser celebrado nos seus dois aspectos: a vinda definitiva do Senhor e a preparação para o Natal, mantendo a tradição das 4 semanas. Surgido na Igreja Católica, este tempo passou também para as igrejas reformadas, em particular à Anglicana, à Luterana, e à Metodista, dentre várias outras.
Símbolos do Advento
Vários símbolos do Advento nos ajudam a mergulhar no mistério da encarnação do Filho de Deus e a vivenciar melhor este tempo. Entre eles há a Coroa do Advento. Ela é feita de galhos verdes entrelaçados, formando um círculo, no qual são colocadas 4 velas representando as 4 semanas do Advento. A luz indica a proximidade do Natal, quando Cristo salvador e luz do mundo, brilhará para toda a humanidade, e representa também, nossa fé e nossa alegria pelo Deus que vem. A cor roxa das velas nos convida a purificar nossos corações em preparação para acolher o Cristo que vem. A vela de cor rosa, nos chama a alegria, pois o Senhor está próximo. Os detalhes dourados prefiguram a glória do Reino que virá.

O simbolismo da Coroa Advento
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25 novembro 2014

Papa Francisco ao Parlamento Europeu

Discurso do Papa Francisco, em visita a Estrasburgo, na sede do parlamento Europeu. Francisco fez um discurso onde começou lembrando que desde a última visita de um Papa, em 1988, muita coisa mudou na Europa e no mundo. 
VISITA DO PAPA FRANCISCO
DISCURSO DO SANTO PADRE
AO PARLAMENTO EUROPEU
Estrasburgo, França
Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Vice-Presidentes,
Ilustres Eurodeputados,
Pessoas que a vário título trabalhais neste hemiciclo,
Queridos amigos!
Agradeço-vos o convite para falar perante esta instituição fundamental da vida da União Europeia e a oportunidade que me proporcionais de me dirigir, por vosso intermédio, a mais de quinhentos milhões de cidadãos por vós representados nos vinte e oito Estados membros. Desejo exprimir a minha gratidão de modo particular a Vossa Excelência, Senhor Presidente do Parlamento, pelas cordiais palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome de todos os componentes da Assembleia.
A minha visita tem lugar passado mais de um quarto de século da realizada pelo Papa João Paulo II. Desde aqueles dias, muita coisa mudou na Europa e no mundo inteiro. Já não existem os blocos contrapostos que, então, dividiam em dois o Continente e, lentamente, está a realizar-se o desejo de que «a Europa, ao dotar-se soberanamente de instituições livres, possa um dia desenvolver-se em dimensões que lhe foram dadas pela geografia e, mais ainda, pela história»[1].
A par duma União Europeia mais ampla, há também um mundo mais complexo e em intensa movimentação: um mundo cada vez mais interligado e global e, consequentemente, sempre menos «eurocêntrico». A uma União mais alargada, mais influente, parece contrapor-se a imagem duma Europa um pouco envelhecida e empachada, que tende a sentir-se menos protagonista num contexto que frequentemente a olha com indiferença, desconfiança e, por vezes, com suspeita.
Hoje, falando-vos a partir da minha vocação de pastor, desejo dirigir a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e encorajamento.
Uma mensagem de esperança assente na confiança de que as dificuldades podem revelar-se, fortemente, promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com o mundo inteiro – está a atravessar. Esperança no Senhor que transforma o mal em bem e a morte em vida.
Encorajamento a voltar à firme convicção dos Pais fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro assente na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e promover a paz e a comunhão entre todos os povos do Continente. No centro deste ambicioso projecto político, estava a confiança no homem, não tanto como cidadão ou como sujeito económico, mas no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente.
Sinto obrigação, antes de mais nada, de sublinhar a ligação estreita que existe entre estas duas palavras: «dignidade» e «transcendente».
«Dignidade» é uma palavra-chave que caracterizou a recuperação após a Segunda Guerra Mundial. A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade, unicidade e irrepetibilidade de cada pessoa humana. Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da história, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente»[2], dando origem precisamente ao conceito de «pessoa».
Hoje, a promoção dos direitos humanos ocupa um papel central no empenho da União Europeia que visa promover a dignidade da pessoa, tanto no âmbito interno como nas relações com os outros países. Trata-se de um compromisso importante e admirável, porque persistem ainda muitas situações onde os seres humanos são tratados como objectos, dos quais se pode programar a concepção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser jogados fora quando já não servem porque se tornaram frágeis, doentes ou velhos.
Realmente que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o pensamento próprio ou professar sem coerção a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um quadro jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder? Que dignidade poderá ter um homem ou uma mulher tornados objecto de todo o género de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, que não tem o trabalho que o unge de dignidade?
Promover a dignidade da pessoa significa reconhecer que ela possui direitos inalienáveis, de que não pode ser privada por arbítrio de ninguém e, muito menos, para benefício de interesses económicos.
É preciso, porém, ter cuidado para não cair em alguns equívocos que podem surgir de um errado conceito de direitos humanos e de um abuso paradoxal dos mesmos. De facto, há hoje a tendência para uma reivindicação crescente de direitos individuais – sinto-me tentado a dizer individualistas –, que esconde uma concepção de pessoa humana separada de todo o contexto social e antropológico, quase como uma «mónada» (μονάς) cada vez mais insensível às outras «mónadas» ao seu redor. Ao conceito de direito já não se associa o conceito igualmente essencial e complementar de dever, acabando por afirmar-se os direitos do indivíduo sem ter em conta que cada ser humano está unido a um contexto social, onde os seus direitos e deveres estão ligados aos dos outros e ao bem comum da própria sociedade.
Por isso, considero que seja mais vital hoje do que nunca aprofundar uma cultura dos direitos humanos que possa sapientemente ligar a dimensão individual, ou melhor pessoal, à do bem comum, àquele «nós-todos» formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social[3]. Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflitos e violências.
Assim, falar da dignidade transcendente do homem significa apelar para a sua natureza, a sua capacidade inata de distinguir o bem do mal, para aquela «bússola» inscrita nos nossos corações e que Deus imprimiu no universo criado[4]; sobretudo significa olhar para o homem, não como um absoluto, mas como um ser relacional. Uma das doenças que, hoje, vejo mais difusa na Europa é a solidão, típica de quem está privado de vínculos. Vemo-la particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados à sua sorte, bem como nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidades para o futuro; vemo-la nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vemo-la no olhar perdido dos imigrantes que vieram para cá à procura de um futuro melhor.
Uma tal solidão foi, depois, agravada pela crise económica, cujos efeitos persistem ainda com consequências dramáticas do ponto de vista social. Pode-se também constatar que, no decurso dos últimos anos, a par do processo de alargamento da União Europeia, tem vindo a crescer a desconfiança dos cidadãos relativamente às instituições consideradas distantes, ocupadas a estabelecer regras vistas como distantes da sensibilidade dos diversos povos, se não mesmo prejudiciais. De vários lados se colhe uma impressão geral de cansaço, de envelhecimento, de uma Europa avó que já não é fecunda nem vivaz. Daí que os grandes ideais que inspiraram a Europa pareçam ter perdido a sua força de atracção, em favor do tecnicismo burocrático das suas instituições.
A isto vêm juntar-se alguns estilos de vida um pouco egoístas, caracterizados por uma opulência actualmente insustentável e muitas vezes indiferente ao mundo circundante, sobretudo dos mais pobres. No centro do debate político, constata-se lamentavelmente a preponderância das questões técnicas e económicas em detrimento de uma autêntica orientação antropológica[5]. O ser humano corre o risco de ser reduzido a mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo que a vida – como vemos, infelizmente, com muita frequência –, quando deixa de ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas, como no caso dos doentes, dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças mortas antes de nascer.
É o grande equívoco que se verifica «quando prevalece a absolutização da técnica»[6], acabando por gerar «uma confusão entre fins e meios»[7], que é o resultado inevitável da «cultura do descarte» e do «consumismo exacerbado». Pelo contrário, afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da vida humana, que nos é dada gratuitamente não podendo, por conseguinte, ser objecto de troca ou de comércio. Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer não lucrativa: cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à «cultura do descarte». Cuidar da fragilidade das pessoas e dos povos significa guardar a memória e a esperança; significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade[8].
Mas, então, como fazer para se devolver esperança ao futuro, de modo que, a partir das jovens gerações, se reencontre a confiança para perseguir o grande ideal de uma Europa unida e em paz, criativa e empreendedora, respeitadora dos direitos e consciente dos próprios deveres?
Para responder a esta pergunta, permiti-me lançar mão de uma imagem. Um dos mais famosos afrescos de Rafael que se encontram no Vaticano representa a chamada Escola de Atenas. No centro, estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo apontando para o alto, para o mundo das ideias, poderíamos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para o espectador, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita de encontro permanente entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas.
O futuro da Europa depende da redescoberta do nexo vital e inseparável entre estes dois elementos. Uma Europa que já não seja capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida é uma Europa que lentamente corre o risco de perder a sua própria alma e também aquele «espírito humanista» que naturalmente ama e defende.
É precisamente a partir da necessidade de uma abertura ao transcendente que pretendo afirmar a centralidade da pessoa humana; caso contrário, fica à mercê das modas e dos poderes do momento. Neste sentido, considero fundamental não apenas o património que o cristianismo deixou no passado para a formação sociocultural do Continente, mas também e sobretudo a contribuição que pretende dar hoje e no futuro para o seu crescimento. Esta contribuição não constitui um perigo para a laicidade dos Estados e para a independência das instituições da União, mas um enriquecimento. Assim no-lo indicam os ideais que a formaram desde o início, tais como a paz, a subsidiariedade e a solidariedade mútua, um humanismo centrado no respeito pela dignidade da pessoa.
Por isso, desejo renovar a disponibilidade da Santa Sé e da Igreja Católica, através da Comissão das Conferências Episcopais da Europa (COMECE), a manter um diálogo profícuo, aberto e transparente com as instituições da União Europeia. De igual modo, estou convencido de que uma Europa que seja capaz de conservar as suas raízes religiosas, sabendo apreender a sua riqueza e potencialidades, pode mais facilmente também permanecer imune a tantos extremismos que campeiam no mundo actual – o que se fica a dever também ao grande vazio de ideais a que assistimos no chamado Ocidente –, pois «o que gera a violência não é a glorificação de Deus, mas o seu esquecimento»[9].
Não podemos deixar de recordar aqui as numerosas injustiças e perseguições que se abatem diariamente sobre as minorias religiosas, especialmente cristãs, em várias partes do mundo. Comunidades e pessoas estão a ser objecto de bárbaras violências: expulsas de suas casas e pátrias; vendidas como escravas; mortas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o silêncio vergonhoso e cúmplice de muitos.
O lema da União Europeia é Unidade na diversidade, mas a unidade não significa uniformidade política, económica, cultural ou de pensamento. Na realidade, toda a unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem: como uma família, que é tanto mais unida quanto mais cada um dos seus componentes pode ser ele próprio profundamente e sem medo. Neste sentido, considero que a Europa seja uma família de povos, os quais poderão sentir próximas as instituições da União se estas souberem conjugar sapientemente o ideal da unidade, por que se anseia, com a diversidade própria de cada um, valorizando as tradições individuais; tomando consciência da sua história e das suas raízes; libertando-se de tantas manipulações e fobias. Colocar no centro a pessoa humana significa, antes de mais nada, deixar que a mesma exprima livremente o próprio rosto e a própria criatividade tanto de indivíduo como de povo.
Por outro lado, as peculiaridades de cada um constituem uma autêntica riqueza na medida em que são colocadas ao serviço de todos. É preciso ter sempre em mente a arquitectura própria da União Europeia, assente sobre os princípios de solidariedade e subsidiariedade, de tal modo que prevaleça a ajuda recíproca e seja possível caminhar animados por mútua confiança.
Nesta dinâmica de unidade-particularidade, coloca-se também diante de vós, Senhores e Senhoras Eurodeputados, a exigência de cuidardes de manter viva a democracia, a democracia dos povos da Europa. Não escapa a ninguém que uma concepção homologante da globalidade afecta a vitalidade do sistema democrático, depauperando do que tem de fecundo e construtivo o rico contraste das organizações e dos partidos políticos entre si. Deste modo, corre-se o risco de viver no reino da ideia, da mera palavra, da imagem, do sofisma... acabando por confundir a realidade da democracia com um novo nominalismo político. Manter viva a democracia na Europa exige que se evitem muitas «maneiras globalizantes» de diluir a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os fundamentalismos a-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria[10].
Manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.
Dar esperança à Europa não significa apenas reconhecer a centralidade da pessoa humana, mas implica também promover os seus dotes. Trata-se, portanto, de investir nela e nos âmbitos onde os seus talentos são formados e dão fruto. O primeiro âmbito é seguramente o da educação, a começar pela família, célula fundamental e elemento precioso de toda a sociedade. A família unida, fecunda e indissolúvel traz consigo os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro. Sem uma tal solidez, acaba-se por construir sobre a areia, com graves consequências sociais. Aliás, sublinhar a importância da família não só ajuda a dar perspectivas e esperança às novas gerações, mas também a muitos idosos, frequentemente constrangidos a viver em condições de solidão e abandono, porque já não há o calor dum lar doméstico capaz de os acompanhar e apoiar.
Ao lado da família, temos as instituições educativas: escolas e universidades. A educação não se pode limitar a fornecer um conjunto de conhecimentos técnicos, mas deve favorecer o processo mais complexo do crescimento da pessoa humana na sua totalidade. Os jovens de hoje pedem para ter uma formação adequada e completa, a fim de olharem o futuro com esperança e não com desilusão. Aliás são numerosas as potencialidades criativas da Europa em vários campos da pesquisa científica, alguns dos quais ainda não totalmente explorados. Basta pensar, por exemplo, nas fontes alternativas de energia, cujo desenvolvimento muito beneficiaria a defesa do meio ambiente.
A Europa sempre esteve na vanguarda dum louvável empenho a favor da ecologia. De facto, esta nossa terra tem necessidade de cuidados e atenções contínuos e é responsabilidade de cada um preservar a criação, dom precioso que Deus colocou nas mãos dos homens. Isto significa, por um lado, que a natureza está à nossa disposição, podemos gozar e fazer bom uso dela; mas, por outro, significa que não somos os seus senhores. Guardiões, mas não senhores. Por isso, devemos amá-la e respeitá-la; mas, «ao contrário, somos frequentemente levados pela soberba do domínio, da posse, da manipulação, da exploração; não a “guardamos”, não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito do qual cuidar»[11]. Mas, respeitar o ambiente não significa apenas limitar-se a evitar deturpá-lo, mas também utilizá-lo para o bem. Penso sobretudo no sector agrícola, chamado a dar apoio e alimento ao homem. Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de produtos alimentares são descartadas diariamente das nossas mesas. Além disso, respeitar a natureza lembra-nos que o próprio homem é parte fundamental dela. Por isso, a par duma ecologia ambiental, é preciso a ecologia humana, feita daquele respeito pela pessoa que hoje vos pretendi recordar com as minhas palavras.
O segundo âmbito em que florescem os talentos da pessoa humana é o trabalho. É tempo de promover as políticas de emprego, mas acima de tudo é necessário devolver dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua realização. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para combinar a flexibilidade do mercado com as necessidades de estabilidade e certeza das perspectivas de emprego, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro, significa fomentar um contexto social adequado, que não vise explorar as pessoas, mas garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.
De igual forma, é necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos.

Senhor Presidente, Excelências, Senhoras e Senhores Deputados!
A consciência da própria identidade é necessária também para dialogar de forma propositiva com os Estados que se candidataram à adesão à União Europeia no futuro. Penso sobretudo nos Estados da área balcânica, para os quais a entrada na União Europeia poderá dar resposta ao ideal da paz numa região que tem sofrido enormemente por causa dos conflitos do passado. Por fim, a consciência da própria identidade é indispensável nas relações com os outros países vizinhos, particularmente os que assomam ao Mediterrâneo, muitos dos quais sofrem por causa de conflitos internos e pela pressão do fundamentalismo religioso e do terrorismo internacional.
A vós, legisladores, compete a tarefa de preservar e fazer crescer a identidade europeia, para que os cidadãos reencontrem confiança nas instituições da União e no projecto de paz e amizade que é o seu fundamento. Sabendo que, «quanto mais aumenta o poder dos homens, tanto mais cresce a sua responsabilidade, pessoal e comunitária»[12], exorto-vos a trabalhar para que a Europa redescubra a sua alma boa.
Um autor anónimo do século II escreveu que «os cristãos são no mundo o que a alma é para o corpo»[13]. A tarefa da alma é sustentar o corpo, ser a sua consciência e memória histórica. E uma história bimilenária liga a Europa e o cristianismo. Uma história não livre de conflitos e erros, e também de pecados, mas sempre animada pelo desejo de construir o bem. Vemo-lo na beleza das nossas cidades e, mais ainda, na beleza das múltiplas obras de caridade e de construção humana comum que constelam o Continente. Esta história ainda está, em grande parte, por escrever. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. É a nossa identidade. E a Europa tem uma necessidade imensa de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus Pais fundadores, na paz e na concórdia, já que ela mesma não está ainda isenta dos conflitos.
Queridos Eurodeputados, chegou a hora de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com confiança o seu futuro, para viver plenamente e com esperança o seu presente. Chegou o momento de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade!
Obrigado!


[1] Discurso ao Parlamento Europeu (11 de Outubro de 1988), 5.
[2] JOÃO PAULO II, Discurso à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (8 de Outubro de 1988), 2.
[3] Cf. BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 7; CONC. ECUM. VAT. II, Const. pastGaudium et spes, 26.
[6] BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 71.
[7] Ibid., 71.
[8] Cf. Carta ap. Evangelii gaudium, 209.
[9] BENTO XVI, Discurso aos Membros do Corpo Diplomático (7 de Janeiro de 2013).
[10] Cf. Carta enc. Evangelii gaudium, 231.
[11] FRANCISCO, Audiência Geral (5 de Junho de 2013).
[12] CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 34.
[13] Carta a Diogneto, 6.

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