Amigos da Família Retalhos.Neste dia em que terminou o Capítulo Geral da Ordem, em Assis, quero agradecer a vossa companhia orante. Aqui, e a partir deste simples espaço, fomos acompanhando os trabalhos.
Muito iremos continuar a publicar e a partilhar convosco porque, pelo menos para mim, em textos, mensagens, fotos e vídeos muito há ainda para partilhar.
Mas hoje quero deixar convosco o texto final de Fr. José Rodriguez Carballo - Ministro Geral - dirigida esta manhã aos irmãos ao redor da Capelinha da Porciúncula (na foto) no encerramento do Capítulo.
Que a todos Deus, por intermédio de Francisco e Clara nos abençoe.
MENSAGEM FINAL DO MINISTRO GERALQueridos irmãos: O Senhor vos dê a paz!
Com a graça do Senhor chegámos ao fim do nosso 187º Capítulo Geral. Durante quatro semanas aqui nos reunimos, na Porciúncula, onde faz agora 800 anos começou a aventura franciscana, sob o olhar maternal de Santa Maria dos Anjos. Foram dias vividos numa intensa atitude orante, nos quais invocámos a presença do Senhor ressucitado e do seu Espírito no meio de nós. Foram dias de alegre encontro fraterno que nos permitiram abraçar irmãos provenientes de todos os continentes e de mais de 110 paises, de diferentes raças e culturas. Na diversidade que nos caracteriza reconhecemos a feliz notícia de um Deus sempre fecundo. Foram dias de profunda reflexão, o que nos permitiu lançar alto o olhar no camino –moratorium- para ver onde estamos e até onde queremos e devemos caminhar. Foram dias de projecção, que nos permitem olhar o futuro com esperança. Como não pensar, então, naquele primeiro pentecóstes que viu reunidos no cenáculo os discípulos com a Maria, “aguardando” a vinda do Espírito? Como não pensar num novo pentecóstes para a nossa Ordem que este ano celebra os seus 800 anos de fundação? Como não pensar nos primeros capítulos da Ordem os quais tratavam de tudo o que se relacionava com a vida e missão dos irmãos? Por tudo isso, fazemos nosso o canto do salmo responsorial: Alegra-se o nosso coração no Senhor, ao mesmo tempo que confessamos cheios de alegria: O Senhor revestiu-nos com as vestes da salvação.
Nestes dias olhamos o nosso passado e o nosso presente, recordando a graça das nossas origens. Pela santidade e a alegre fidelidade de tantos irmãos de ontem e de hoje, com o coração a transbordar de alegria, dizemos ao Altíssimo, Omnipotente e bom Senhor: pelo dom dos irmãos, louvado sejas meu Senhor!. Este olhar positivo e agradecido ao nosso passado e ao nosso presente não nos impede ver as sombras e as infidelidades, o cansaço e as rotinas, que, a miúdo, acompanham o nosso caminhar. Por tudo isso, enquanto pedimos perdão, assumimos com renovado compromisso o chamamento a nascer de novo (Jo 3, 3) para acolher, pessoalmente e institucionalmente, o Evangelho como forma de vida, sem ceder à constante tentação de domesticar as suas exigências mais radicais para as adaptar a um cómodo estilo de vida.
Agora, terminado o Capítulo, apresenta-se diante de nós o presente/futuro, como tempo do Espírito. E então perguntamos a nós mesmos: que devemos fazer irmãos? (Act 2, 37)
O Senhor durante estes dias de Capítulo disse-nos de mil formas: Ide e pregai o Evangelho a todas as nações (Mt 28, 19-20), e tornando-se presente no meio de nós envia: Ide a anunciar aos meus irmãos que partam para a Galilea, ali me verão (Mt 28, 10). Desde o ícone do Cristo de São Damião, o Senhor nos disse como a Francisco, Vai e repara a minha Igreja. Cristo Ressucitado espera-nos no espaçoso claustro que é o mundo, ali onde vive o homem, ali onde se encontra na sua diversidade, ali onde sofre, trabalha e espera. Uma vez mais o Ressucitado nos diz: Não me retenhais (Jo 20, 17). A nossa condição é a de ser testemunhas do Ressuscitado na Galileia das nações (Is 8, 23), no meio das gentes, inter gentes, em qualquer país ou nação, aos que estão longe e aos que estão perto (Ef 2, 17). Quem se encontrou com Cristo ressucitado não pode deixar de o anunciar, como Maria Madalena (cf. Mc 16, 10). Quem encontrou a pérola preciosa não pode deixar de comunicar tal descoberta a quantos encontra pelo caminho (cf. Mt 13,46). Cristo é a nossa “pérola”, não podemos “retê-la” para nós mesmos. Ide, saí, ao mundo inteiro. A missão evangelizadora não é para nós apenas mais uma actividade, mas sim é a nossa definição, pois, somos efectivamente: Missionários no coração do mundo, como irmãos e menores, com o coração voltado para o Senhor.
Estamos conscientes de que a missão que nos espera é árdua. O terreno no qual temos que semear a semente do Evangelho, o coração do homem, está cheio de obstáculos, como nos recorda a parábola do semeador (cf. Mt 13, 3). Mas estamos igualmente conscientes que a força germinativa da semente da Palavra de Deus não diminuiu. Vivemos nem momento de crise, que para alguns possivelmente comporta uma ameaça mortal e que para outros pode ser uma prova de fé no Senhor da história e na sua presênça indefectivel. O momento em que vivemos é delicado e decisivo. Mas temos que estar bem consciêntes de que este é o tempo de Deus e, enquanto tal, revela novas oportunidades, purifica, desperta potencialidades, revela sinais de futuro e de ressurreição. Em todo o caso não podemos ser ingénuos. O semeador, cada um de nós, há-de conhecer bem o campo da sementeira, conhecer os seus elementos positivos e valorizar, com precisão, os obstáculos (cf. Mt 13, 18-23). Necessitamos conhecer bem o coração dos homens aos quais nos dirigimos, o seu modo de pensar e de se situar. Torna-se necessário entrar numa constante actitude de discernimento, examinando tudo, para ficarmos com o essencial (cf. 1Ts 5, 21). Torna-se necessário, também, viver em estreita relação com todos os homens e mulheres, nossos contemporâneos. Somos, e temos de continuar sendo, os frades do povo. Com o povo, particularmente com os mais pobres, somos chamados a sentir-nos mendicantes de sentido, fazendo nossas as suas próprias procuras, deixando-nos interpelar por tantas situações negativas do contexto em que vivemos.
Também é necessário estar bem preparados intelectualmente, para uma leitura atenta dos sinais dos tempos e dos lugares, e poder, deste modo, dar uma resposta evangélica a todos eles. Essa resposta implica, da nossa parte, elaborar e levar a cabo novos projectos de evangelização para as situações actuais (VC 73). Essa é a nossa grande responsabilidade nestes momentos. De nós, filhos de Francisco de Assis, o mundo espera, e tem pleno dereito a isso, que trabalhemos como instrumentos de paz e de reconciliação, numa sociedade profundamente marcada pela violência e as divisões, assim como pela salvaguarda da criação, quando esta está seriamente ameaçada. De nós, filhos do Poverello, o mundo espera, e tem pleno direito a isso, que sejamos homens que fomentam o diálogo entre as culturas, as gerações, as religiões, as correntes de pensamento, a fim de propiciar o conhecimento e o reconhecimento mutuos e a procura de caminhos comuns para instaurar um mundo irmanado nas ricas e sãs diferenças. De nós, Irmãos Menores, o mundo espera, e tem pleno direito a isso, que sejamos menores entre os menores, e solidários com todos, homens que trabalhem para que de uma economia de mercado se passe a uma economia solidária, que crie redes de comunicação que beneficiem a inter-dependência de bens e recursos com o objectivo de uma vida digna para todos. A nossa missão evangelizadora implica tudo isso, como implica ir ali onde todavia não estamos, abrindo novos projectos missionários para colaborar com a Igreja na implantação do Reino de Deus, por vezes somente com a presença silenciosa, mas sempre fecunda, e na implantação da Ordem, ali onde isto seja possível. Por tudo isso passa a nossa missão evangelizadora, a qual dedicamos as nossas reflexões durante este Capítulo de Pentecóstes 2009. Por tudo isso passa a fidelidade criativa e alegre que somos chamados a testemunhar (cf. VC 37) nestes momentos delicados e duros, não isentos de tensões e de provas, mas cheio, também, de grandes possibilidades (cf. VC 13). Tudo isto é necessário se queremos reproduzir com audácia e criatividade a santidade de Francisco (cf. VC 37), e de tantos irmãos que nos precederam nestes 800 anos de caminho da nossa Fraternidade.
Durante o Capítulo sentimos fortemente o chamamento a uma profunda renovação para ser fiéis à graça das origens, mas sabemos muito bem que a garantia de uma tal renovação está na procura de uma sintonia cada vez mais plena com o Senhor (cf. VC 37). Só Ele pode manter constantemente o vigor e a autenticidade das origens e, ao mesmo tempo, infundir a coragem da audácia e da criatividade para responder aos sinais dos tempos (CdC 20). Só reencontrando o primeiro amor seremos fortes e audazes, pois somente esse amor pode infundir valor e ousadia, em tempos como os nossos. Eis aí, então, o chamamento mais urgente que nos vem do Evangelho e da nossa condição de discípulos e missionários: uma profunda converção do coração e um voltar-se constantemente para o Senhor. Não podemos esquecer que é Deus aquele que torna fecundo e fértil o terreno da missão evangelizadora. É Ele, e só Ele, quem faz crescer a semente (cf. Mc 4, 27). A evangelização é acima de tudo obra da força do alto. No Cenáculo os discípulos recebem o Espírito. É Ele quem dá a Pedro a força para proclamar o Evangelho no dia de Pentecóstes. Do mesmo modo, aqueles que quiserem anunciar com coragem o Evangelho na Galileia das nações hão-de encontrar-se no Cenáculo, com Maria, e receber o Espírito Santo. Ele é o único que pode mover os nossos corações e os nossos pés para ir até aos confins da terra e ali, nas condições mais diversas e, por vezes, mais adversas, pregar a Jesus Cristo como a Boa Nova do Pai das misericórdias à humanidade. Ele é o único que pode abrir o coração dos homens e mulheres do nosso tempo para acolher tal Boa Nova. É a força do Espírito aquela que nos tornará verdadeiramente livres. Por outro lado, só quem, como Maria, se deixa habitar pela Palavra, poderá comunicá-la aos outros (cf. Lc 1, 39-44). Só quem, como Francisco, se deixa encontrar pelo Evangelho, poderá ser Evangelho vivo.
Maria, vírgem da atenção, alcança-nos do Senhor a capacidade para conservar no nosso coração o mistério de Deus e dos homens.
Maria, crente aberta ao Espírito, alcança-nos do Senhor a docilidade incondicional às suas inspirações.
Maria, primeira evangelizadora, alcança-nos do Senhor a audácia de levar a Boa Nova aos nossos contemporâneos.
Maria, mulher feita serviço, alcança-nos do Senhor a capacidade de servir ao Evangelho e aos seus primeiros destinatários, os pobres.
Maria, bendita entre as mulheres, alcança-nos do Senhor a graça de saber estar sempre ao lado de quem necessite de nós.
Maria, donzela de Nazaré, alcança-nos do Senhor a valentia de dizer-lhe sempre SIM, agora e na hora da nossa morte. Amén.
Fr. José Rodriguez Carballo
Ministro Geral da OFM
(Tradução do Espanhol para a língua portuguesa: Fr. Albertino Rodrigues OFM))