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25 setembro 2010

PESSOA INSATISFEITA: Que resposta?

7.º ENCONTRO (de 8):

(FOTO: Cruz em pedra frente à entrada principal do Convento de Varatojo.

O texto que se segue é a minha releitura a partir das palavras da Ir. M.ª Amélia no 7.º Encontro)

PESSOA INSATISFEITA: Que resposta?

Como vimos nos encontros anteriores, o chamamento de Deus não é um acaso, é a vontade do Pai acerca de nós e nos chama a testemunhar a Vida do Filho na acção do Espírito. Tomando consciência desta realidade na nossa vida, e de como deve o nosso SIM ser um sim verdadeiro, ganha grande realce o papel da ORAÇÃO porque é ela que nos ajuda a “ver claramente visto” o que Ele quer para nós na Sua visita ao nosso dia-a-dia, como aconteceu nos vocacionados já referidos nos encontros anteriores.

Mas como estamos nós dispostos a responder ao Senhor que chama e envia? Como temos nós alicerçado e bem cuidado o nosso SIM? O nosso querer abre-se ao querer de Deus com beleza, sem brechas, sem ranhuras que deixem entrar o vazio, o silêncio infecundo, o medo de arriscar? Que alicerces temos nós?

As grandes casas e obras normalmente precisam de obras de restauro e manutenção para se consolidarem e continuarem a expressar a beleza e missão para as quais foram edificadas.

CADA UM DE NÓS É UMA OBRA PRIMA DE DEUS e por isso faz todo o sentido abrirmo-nos às obras de restauro, à praxis, ao conceito do lugar onde é preciso que eu me deixe restaurar, ou então não faz sentido fingir que rezamos e que confiamos em Deus se não deixamos que Ele transforme e purifique o barro que somos. Ele é o oleiro e nós o barro em Suas mãos, como nos diz a Sagrada Escritura: Como o barro está nas mãos do oleiro, que o molda a seu bel-prazer, assim o homem está nas mãos do seu Criador, que lhe retribuirá segundo o seu juízo.” (Sir 33, 13) e ainda Mas Tu, Senhor, é que és o nosso pai. Nós somos a argila e Tu és o oleiro. Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos” (Is 64, 7). Devemos ser mais obra prima, mais obra que Ele sonha, mais obra que o mundo espera de nós. Devemos deixar-nos aperfeiçoar pelo Criador, somos Seus, obra das Suas mãos, para sermos os profissionais na missão de pescadores de Homens que tudo deixam para todos conquistar e trazer para Cristo como diz S. Paulo: “Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante” (1 Cor 2, 19-27). Devemos ser profissionais a sério, esquecer as pescas falhadas e lançar as redes com esperança sempre renovada, sem medo porque estando nós restaurados por Deus as nossas redes também estarão.

O mundo de hoje não se agarra a qualquer isco. Se o nosso isco não for o reflexo do rosto amoroso de Deus em nós, quem morder o nosso isco fá-lo não por Deus e pelo Seu Amor mas apenas por nós mesmos e pelos nossos olhos. Por isso muitas vezes as nossas pescas passado pouco tempo dão em fracasso porque não foram pescas para Deus e com Deus mas para nós e apenas connosco.

Aqui a nossa Irmã M.ª Amélia, no seu jeito simples de ser, pegou na viola e cantou-nos um dos cânticos da sua autoria: “ouve-me, meu filho e servo Israel, a quem escolhi. Eu pensei em ti, eu te criei e desde o seio materno, te formei”, fazendo uma reflexão, ao jeito de música e beleza de Deus do texto de Isaias 44, 1-5: Mas agora ouve-me, Jacob, meu servo,Israel a quem escolhi: Eis o que diz o Senhor que te criou, que te formou desde o seio materno e te socorre: ‘Nada temas, Jacob, meu servo,

e Jechurun, que Eu escolhi. (…) E receberá o sobrenome de Israel.

Deus ama-nos desde o seio materno, escolheu-nos, protege-nos, dá-nos o Seu Nome, uma identidade que revela a afinidade entre Ele e nós. Já não somos muitas tribos mas um único povo com um único Deus: Ó pastor de Israel, escuta,Tu que conduzes José como um rebanho, Tu que tens o teu trono sobre os querubins! Mostra a tua grandeza às tribos de Efraim, Benjamim e Manassés! Desperta o teu poder e vem salvar-nos! Ó Deus, volta-te para nós! Mostra-nos o teu rosto e seremos salvos! (Sl 80, 1-10). É importante abrir-mos os olhos do coração para vermos o rosto iluminado de Deus porque Ele brilha em cada um de nós.

E Deus renova o Seu Amor, a Sua Aliança, o Seu projecto de salvação para com todos estes povos e tribos, são o Seu Povo que clama por justiça, amor e unidade para com Deus que responde: “Dar-lhes-ei um coração para que me conheçam e saibam que Eu sou o Senhor. Eles serão o meu povo, e Eu serei o seu Deus, pois se converterão a mim de todo o coração” (Jer 24, 7).

Não podemos afastar o nosso coração deste Deus que permanentemente nos fala ao coração, nos revela o Seu Amor infinito e nos diz que quer salvar. O Homem assim chamado e amado por Deus não pode ter senão uma atitude , a de servo amado, de filho identificado, de ser homem e mulher em relação amorosa com Deus pela coerência do seu ser e agir permanentes. Poderíamos recordar aqui uma vez mais o episódio da pesca milagrosa (Lc 5, 1-11), momento tão importante na caminhada dos Apóstolos em que fora de toda a lógica – andaram na faina toda a noite e sem nada pescar e, contudo, Jesus, manda que lancem as redes de novo – quando tudo parecia perdido e a desilusão se apoderara dos seus corações, ao convite de Jesus lançam as redes, confiam no Mestra e a pesca foi abundante.

INSATISFAÇÃO: Que resposta?

Por vezes questionamo-nos sobre a vontade de Deus a nosso respeito, que quererá Ele de nós, que sinais nos dá Ele e até onde nos levam…

Certamente, na maior parte dos casos – salvo raras excepções – já todos nós (religiosos) sabemos qual é a vontade de Deus a nosso respeito e qual a decisão certa a tomar, coisa que nem sempre fazemos, não por desconhecimento, mas por falta de coerência e coragem para ousar escutar Deus e seguir o Seu caminho mais que os caminhos que nos são traçados pelos Homens. Sabemos sem dúvida e vamos formá-la cada vez mais em cada dia que passa porque conhecemos o DOM de Deus em nós e sabemos o que é certo, tal como Maria que sabia mas silenciava pela fidelidade ao Deus da Sua Vocação.

Identificar a vontade de Deus devia levar-nos a tomar as decisões certas para nós e para os nossos irmãos, também eles dom de Deus, mas nem sempre o fazemos por falta de coragem, ousadia, fidelidade a Deus. Não podemos ficar por aqui, na inércia de não seguir em frente face à vida plena e feliz em Deus junto dos outros.

Muitas vezes encontramos pessoas, ao longo dos nossos dias, tristes, amarguradas, zangadas com a vida, INSATISFEITAS consigo mesmas e, se escutarmos bem as razões de tais sentimentos e atitudes, veremos que estão assim CONSIGO MESMAS numa insatisfação aquietada à situação e à atitude de outrem, insatisfação que parece DAR TUDO mas que na verdade nada dá. Isto mesmo acontece na VIDA RELIGIOSA onde sentimos o chamamento de Deus, respondemos, consagramo-nos e, ao longo da vida, por nós mesmos ou pela “obediência”, tantas vezes longe do espírito dos nossos fundadores, nos vamos deixando desalentar, desapaixonar, desiludir face ao que sabemos ser a vontade de Deus para nós. O tempo em que o sino era a voz de Deus já não é o nosso tempo, aliás hoje em dia, já não é o sino que chama para as Horas Sagradas nem para a Refeição, mas sim o nosso desejo de estar próximo de Deus e em convívio fraterno.

O importante a realçar nesta última reflexão, não é a forma como somos chamados exteriormente para os momentos mais importantes da nossa vida, nem mesmo – talvez – por quem somos chamados ao nível humano. O importante é, isso sim, a forma interior como sentimos esse chamamento. Nas aldeias ainda o sino toca para a Missa, na Cidade já nem tanto. Na vida familiar a voz do pai ou da mãe na criança ainda marcam o ritmo do crescimento, coisa que ao adulto já não acontece. Assim também na nossa vida, o importante é a voz de Deus que ecoa cá dentro, bem fundo de cada homem e mulher, religioso ou não, mas que está pronto a acolher com alegria e disponibilidade o Dom de Deus que nos quer muito próximos como um pai ou uma mãe aos seus filhinhos.

Nesta forma de resposta, da nossa parte para com Deus, chama-nos a Ir. Amélia à reflexão VÁRIAS RESPOSTAS, relatadas na Sagrada Escritura:

· Vejamos Mc 10, 17-31: O HOMEM RICO

Marco diz-nos que é um homem rico (Lucas diz que é um chefe e Mateus que é um jovem), cheio de boa vontade, boas intenções. Queria… mas… (adversativa), desperdiça a sua existência mas vive sempre no condicional: “se”, “se eu tiver em troca”, “se fizerem”, “eu quero ir mas”… queremos mas não queremos, vivemos na linha do condicional e não da disponibilidade nem para nós mesmos nem para Deus. Diz o nosso povo que “de boas intenções está o inferno cheio” e não deixará, a sabedoria popular de ter alguma razão. Este homem quer alcançar a Vida Eterna contudo termina o texto por dizer que se retirou pesaroso porque não foi capaz de aliviar a carga dos bens materiais por um bem maior: seguir Jesus.

Nós somos um TESOURO da obra-prima de Deus, com os dons e talentos que Ele nos deu e que devemos partilhar com os outros e não guardar apenas para nós mesmos, deixando por isso tais bens de ser tesouro. Nem todos os bens podem ser considerados um tesouro se não houver quem lhes dê o verdadeiro valor, se nós não partilharmos a sua beleza e riqueza com os demais.

Face a esta atitude deste homem rico também nós nos podemos questionar sobre o que devo eu fazer, ou mesmo, o que faço eu com o TESOURO QUE EU SOU e com os tesouros que Deus me deu?

A boa vontade leva muitas vezes à graxa, a palavras bonitas “bom Mestre, que devo…”. Num dos seus célebres sermões, o grande Santo Português e Franciscano, António de Lisboa exclama: “cessem as palavras e deixemos falar as obras”. O homem rico tinha vontades e palavras bonitas contudo o seu querer (vida eterna) não foi mais forte que o ter (muitos bens). Retirou-se, fugiu ao desafio lançado por Cristo, não respondeu sequer, pesaroso deixou para um amanhã a decisão.

Nas nossas respostas ao nosso querer e ao querer de Deus, não devemos ter presente o que vamos fazer num amanhã, como vamos responder num amanhã mas sim o que vou fazer e responder, e como, no hoje concreto da minha história.

Recordemos uma vez mais as palavras de Jesus na Sinagoga: Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir” (Lc 4, 21) e em casa de Zaqueu: Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão” (Lc 19, 9) e ainda aquele momento em que Francisco de Assis com os seus dois primeiro companheiros escutam a Palavra do santo Evangelho e exclamam: “é isto que eu quero, é isto que eu desejo seguir de todo o coração”.

É HOJE QUE A NOSSA RESPOSTA SE DEVE DAR.

Não podemos deixar de referir aqui que o texto Sagrado nos diz que “Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele”. Só depois deste sentimento Jesus lhe lança o grande desafio: “vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.” Para melhor entendermos este olhar de amor convido-vos a procurar a Carta de João Paulo II aos jovens e a meditar no número 7 da mesma.

· Vejamos Lc 9, 57-62: EXIGÊNCIA DO DISCÍPULO

Encontramos neste texto três situações distintas. Um discípulo que diz querer seguir Jesus para todo o lado mas Jesus recorda-lhe que Ele não tem onde reclinar a cabeça. A outro, o próprio Cristo chama: “SEGUE-ME” mas este depressa se escusa querendo ir sepultar os seus mortos e outro ainda diz querer seguir Jesus mas primeiro tem que se despedir da família ao que Cristo recorda o agricultor que não pode lançar mão ao arado e voltar atrás.

Três tipos de chamamento e ao mesmo tempo três tipos de resposta.

Recordemos que, enquanto seguidores de Cristo os discípulos, e de forma especial os Apóstolos, eram conhecidos como caminhantes, como peregrinos e, por isso mesmo, muitas vezes estas narrativas acontecem à beira do caminho, enquanto Cristo peregrina com os Seus.

Referiu aqui a nossa irmã que era importante que hoje o mundo nos conhecesse como os Franciscanos e Franciscanas do caminho, como peregrinos, onde Cristo nos espera em cada irmão, em cada irmã”.

Realçamos aqui que o verdadeiro discípulo não encontra a sua motivação nem o seu caminho em casa alguma ou lugar algum mas apenas no Coração de Deus onde Cristo põe também a Sua confiança. Cristo, ao perguntarem-lhe dois dos discípulos de João Baptista - onde morava respondeu: “Vinde e vede” (Mt 1, 39). Tal como Francisco de Assis quando um candidato à Ordem lhe pergunta onde é o seu convento simplesmente responde: “o meu claustro é o mundo”.

A primeira resposta “deixa-me ir enterrar o meu pai”, é a resposta de quem quer mas SEM PRESSA. Cristo é radical, chama à radicalidade, e responde duramente: “deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. O seguimento de Cristo não é para ontem nem para amanhã. É no HOJE, no AGORA com radicalidade. Este é o tipo de pessoa que às vezes NEGOCEIA com Deus, regateia o preço, o custo, os fundos, o lucro que não se entrega na GRATUIDADE.

A nossa resposta é opcional, livre, consciente e para sempre, escuta o projecto de Deus, questiona-o e questiona-se mas na gratuidade RESPONDE “SIM”, como Maria que sofreu no silêncio a dor mas foi fiel ao Seu “SIM” até ao fim.

· Vejamos Gn 22, 1-14: ABRAÃO, PAI NA FÉ

Todos conhecemos a história e percurso vocacional de ABRAÃO.

Este trecho que aqui nos é apresentado para nossa reflexão é aquele em que Deus Pai, depois de ter dado a Abraão e Sara o FILHO DA PROMESSA, lho pede agora em SACRIFÍCIO: Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar.” (Gn 22, 2). E Abraão parte no dia seguinte como o Senhor lhe ordenara para sacrificar o seu filho Isaac.

O tipo de resposta de Abraão é só para quem tem um certificado de robustez psíquica, humana, espiritual.

“Dá-me o teu filho…”, diz Deus. Este filho continua a ser pedido em cada dia a cada um de nós, este filho são os dons de Deus, oferta amorosa d’Ele para connosco e que Ele continuamente nos pede que lh’O ofertemos em sacrifício de entrega e disponibilidade igualmente amorosa.

Deus prova a nossa FÉ, a nossa confiança n’Ele e Abraão não questionou, simplesmente cumpre a vontade de Deus. Deus por sua vez, provada a fé de Abraão, providencia para que o DOM que é ISAAC não seja ali oferecido em libação: Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em substituição do seu filho” (Gn 22, 13)”. Oferecido o cordeiro – pré-anuncio da oblação do Cordeiro Jesus – Abraão chama àquele lugar o lugar da Providência Divina.

Deus não pode deixar de premiar a Fé de Abraão: Juro por mim mesmo, declara o Senhor, que, por teres procedido dessa forma e por não me teres recusado o teu filho, o teu único filho, abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Os teus descendentes apoderar-se-ão das cidades dos seus inimigos. E todas as nações da Terra se sentirão abençoadas na tua descendência, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22, 16-18).

Por vezes Deus vai longe nas provas a que nos submete, leva-nos aos maiores sacrifícios por um sim fiel e generoso na entrega dos maiores dons que nos deu e promete dar-nos a Sua benção e tornar o nosso testemunho fiel como um sinal para os vindouros.

· Vejamos Lc 5, 1-11: PEDRO

De Pedro muitas coisas poderíamos nós aqui dizer e reflectir. Quantas provas Cristo lhe pediu e quantas respostas diferentes Pedro lh’E deu.

O trecho que aqui se nos apresenta coloca-nos de novo no cenário do mar da Galileia. Uma multidão se aglomera para escutar Jesus e Este sente necessidade de se afastar. É a barca de Simão (Pedro) que o leva para o largo e dali Jesus ensina a multidão. Depois manda que lancem as redes com confiança anunciando a Pedro que “de hoje em diante serás pescador de homens”, depois deste ter ficado perplexo com a pescaria abundante e reconhecendo não ser digno de estar na presença de Cristo porque era PECADOR.

Há que destacar aqui alguns VERBOS: Jesus está entre a multidão e VIU dois barcos e VIU que os pescadores já lavavam as redes, sinal de MISSÃO CUMPRIDA. SUBIU para o barco de Pedro e PEDIU que DEIXASSEM a praia e se AFASTASSEM um pouco. Esta cadência verbal leva-nos, impulsiona-nos a um crescendo na intenção de Jesus, mostrar aos Apóstolos qual e como deveria ser a sua missão no meio do mundo, enviados ao mundo sem ser do mundo nem estarem presos às coisas do mundo.

Vivemos hoje um momento em que é importante não nos afastarmos do essencial (referia-se a irmã ao final do nosso retiro e preparação próxima de tomadas de hábito, Profissões temporárias e Renovação de Votos), recolhidos, colhidos sobre nós mesmos num silêncio interior, para perscrutarmos no íntimo o que vamos fazer com os nossos DONS.

Pedro lançou as redes com confiança e coragem. É hora de olhar para as nossas redes, estarão prontas para limpar, remendar e guardar ou para as lançar na pesca a que Cristo nos chama?

Depois de Jesus falar à multidão, de mostrar que a missão Apostólica é anunciar a Palavra do Reino, preparado o coração de Simão, então Jesus faz-lhe o CONVITE a que O siga, que seja a Sua presença no mundo. Diante de tal convite Pedro CAI DE JOELHOS, toma consciência do seu ser limitado e PECADOR. É curioso que Pedro havia-se afastado de Deus (é o seu irmão André que depois de conhecer Jesus vai chamar o seu irmão Simão como vemos em Jo 1, 41-42) e agora é Pedro quem pede a Jesus (Deus) que se afaste dele. Poderíamos fazer aqui uma espécie de check up à relação de Pedro com Deus. Mas talvez o possamos, na intimidade, fazer acerca da nossa relação fraterna vertical (com Deus) e horizontal (com os irmãos).

Ao ver isto, Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (v. 8). A presença de Cristo incomoda, não porque Cristo levado ao temor mas porque o medo se apoderara de Pedro que andava afastado de Deus. Incómoda a Sua presença, claro o Seu convite e a resposta de Pedro e dos demais na confiança à palavra dada por Jesus. O medo dá lugar à confiança/acção e esta à admiração/exultação: “Ele e todos os que com ele estavam encheram-se de espanto por causa da pesca que tinham feito; o mesmo acontecera a Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: ‘Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens.’ E, depois de terem reconduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus” (vv. 9-11). Na hora certa Jesus sabe em quem confiar, Pedro, Tiago e João, estes mesmos que Jesus chama para a intimidade da Sua relação com o Pai, como aconteceu no Monte Tabor onde Cristo se transfigura e é aqui que eles finalmente entendem o quão bom é estar e seguir Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (Mt 17, 4). É uma resposta quase inpensada, repleta da maravilha que é estar ali diante da manifestação de Deus em Jesus Cristo, é disponibilidade para O seguir na radicalidade.

(No próximo texto, e último deste retiro, faremos reflexão sobre a CONVERSÃO)

21 setembro 2010

Maria: Formadora de Jesus em nós

6.º ENCONTRO (de 8):

(FOTO: Imaculada Franciscana que se venera na Ig. do Seminário da Luz.

O texto que se segue é a minha releitura a partir das palavras da Ir. M.ª Amélia no 6.º Encontro)

MARIA: FORMADORA DE JESUS EM NÓS

Antes de falarmos sobre Maria, a formadora de Jesus em nós, somos convidados a olhar para Moisés e a sua intimidade com Deus, como esta intimidade transforma não só o interior como o exterior: Moisés desceu do monte Sinai, trazendo na mão as duas tábuas do testemunho. Não sabia, enquanto descia o monte, que a pele do seu rosto resplandecia, depois de ter falado com Deus. (…) Os filhos de Israel viam resplandecer a face de Moisés que, em seguida, tornava a colocar o véu sobre o rosto, até entrar novamente para falar com Deus. (Ex 34, 29-35)

Começamos por tomar consciência de que só deixando-nos inteiramente inundar pela presença e Luz de Deus, nos deixaremos transformar inteiramente por Ele. O nosso exterior deve ser o reflexo do que vivemos interiormente. É uma forma de transfiguração, esta subida ao monte para dele descer com a Palavra e a Luz de Deus e, assim transfigurados, seremos sinal da Sua presença no mundo.

Olhemos então agora para MARIA DE NAZARÉ, chamada de MULHER DA BEM-AVENTURAÇA: “Enquanto Ele falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: «Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” (Lc 11, 27).

Maria é FELIZ, é a BEM-AVENTURADA por excelência. Não é Ela que o afirma de si mesmo, nem sequer, neste caso, aqueles que A conhecem mas tão simplesmente os que vêm em Jesus o reflexo d’Aquela que o gerara, que o amamentara, que o educara.

Maria é a Mulher que educa e se torna bem-aventurada porque escuta a Palavra e a põe em prática.

Certa vez os que ouviam Jesus “anunciaram-lhe: «Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te.» Mas Ele respondeu-lhes: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.” (Lc 8, 20-21). Esta resposta de Jesus parece-nos estranha à partida, afinal é a Sua Mãe que lh’E quer falar, que O quer ver. Parece que Ela não dá grande importância à presença de Maria contudo, uma tal resposta parece ter por objectivo, não o desprezo para com a Mãe, mas exactamente mostrar que Ela sabe quem Ele é desde a Anunciação, Ele sabe que Ela sempre escutou a Palavra na obediência amorosa e gratuidade generosa. Jesus sabe que Maria O entenderá, Ela melhor que ninguém saberá ler nas entrelinhas o que Ele quer dizer.

Este texto leva-nos a ter um olhar diferente para com Maria, Ela é a FORMADORA DE JESUS EM NÓS.

Maria tem uma missão especial na nossa vida e que ganha um sentido especial na manhã de Pentecostes onde Ela se torna Mãe da Igreja, Mãe e educadora.

Em Maria inicia-se o germinar da vida divinizada na acção do Espírito Santo e na Encarnação. É fecundidade biológica e divina. Maria não é a Mãe possessiva que agarra os filhos para si mas aponta sempre para o Filho como em cana: Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2, 5). O centro da atenção e da acção nunca é Ela mas sim o Filho, Ele é que é o sentido de toda a Sua entrega, do Seu SIM AO PAI.

Nos escritos de S. Francisco, Maria é também Aquela que aponta o Filho, aliás é de recordar que a devoção à Imaculada Conceição surge com os Franciscanos que tomam por ícone a Mulher descrita no Apocalipse (Ap 12, 1-6) que luta com o dragão para salvar o Filho. Ela é aqui Rainha e Senhora do Bem, Ela luta para que o mal não vença sobre o Bem dando à luz o Filho de Deus. Por isso Francisco a identifica sempre unida e inseparável ao Filho, Ela é o Templo da Santíssima Trindade. Um dos textos mais belos sobre Maria, em S. Francisco, é a Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria (SVM). Ninguém como Ela para nos dizer quem é Deus. Ela foi discípula e Mãe, percebendo, por isso mesmo, muitas coisas e ao mesmo tempo não entendendo outras. Uma Mãe que faz aprendizagem com o Filho que d’Ela aprende também a crescer.

· SER MÃE: modo de ser onde cabe toda a existência, todo o destino histórico que viveu com o Filho da hora da Anunciação até à hora da Cruz. As mães tratam os filhos como se estes fossem sempre os seus filhinhos pequenos, como se fossem sempre os meninos que estão a crescer. A mãe educa o filho constantemente, não é só para o dar á luz, ela é em toda a vida e sempre se preocupa com o que queremos, o que somos e construímos. Maria Mãe, não deixou nunca o Seu Filho e também não nos deixará a nós porque o Seu olhar e coração maternal estão sempre atentos aos seus filhos amados.

ETAPAS DA VIDA DE MARIA:

· Hora terça (meio dia): Hora da anunciação, hora da Aliança de Deus com a Humanidade, hora da Graça de Deus que em maria nos quer abrir a porta da Salvação encerrada no pecado de Eva.

· Caná: Hora da transformação e ao mesmo tempo de provocação aos discípulos para acolherem o dom da Fé.

· Cruz: Hora da coragem e da ousadia. De pé Ela acolhe a vontade do Pai, entrega toda a Sua vida uma vez mais ao Pai e confia naquela Cruz, ousa desafiar tudo e todos mantendo-se ali, de pé, até que lhe entreguem o Seu Filho querido. É também a hora de mais um SIM, aceitar ser Mãe da Humanidade em João.

Ao chamar, Deus coloca o chamamento no limite da prova, tal como acontece com Maria. 4 PALAVRAS:

· Do Anjo enviado: “Alegra-te”. Palavra que perturba de imediato a serenidade de Maria que de imediato coloca questões. Deus, pela voz do Anjo, serena, pacifica, leva a confiar porque “a Deus nada é impossível”.

· “Não temas, darás à luz um Filho”. Palavra que assusta, Maria é Virgem, não conheceu homem, como pode dar á luz, e dar á luz Alguém tão grande que reinará para sempre?

(vejamos aqui um paralelo com a anunciação do nascimento de João Baptista a Zacarias)

· “Como será isso?”. Eis a primeira palavra de Maria no Evangelho. Maria não teme questionar quando está em causa a fidelidade a Deus, a realização do projecto de Deus para si e por si á humanidade. Como Ela também nós devemos questionar, fazer perguntas que levem a respostas pacificadoras e inspiradoras de confiança nos projectos que nos são apresentados, sobretudo os que se nos apresentam como sendo projectos de Deus.

· Deus dá sempre um sinal de que é Ele que falar e quer. Zacarias fica mudo e Maria vê na gravidez de Isabel a certeza de que “a Deus nada é impossível” e por isso responde “Eis a Serva do Senhor, faça-se", segunda palavra de Maria (Lc 1, 26-38). É um “Eis-me” firme, confiante, disponível, seguro porque Ela ouviu dizer que era obra do Espírito Santo e Ela sabia bem quem era o Espírito Santo, estava atenta, conhecia as Escrituras e Deus encontrou em Maria o coração, o ventre seguro.

· Maria foi visitar Isabel e saudou-a (terceira palavra de Maria). Não sabemos qual foi nem como foi, sabemos que Ela saudou, a palavra existiu porque Isabel exclama: “Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor” (Lc 1, 44-45). Imaginemos o que deve ter sido esta saudação… o olhar, a presença, o gesto, uma palavra tal que João exulta no seio de Isabel e esta alegra-se e professa a sua fé no Messias reconhecendo Maria como Mãe do seu Senhor.

· Somos impelidos de imediato à quarta palavra de Maria: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome…” (Lc 1, 46-56). Maria tem consciência que é Mulher humilde mas Bem-aventuras porque o que n’Ela se opera é obra do Altíssimo pelo Espírito Santo, daí o seu magnificat profundo e orante.

Depois desta reflexão poderíamos talvez perguntar a nós mesmo COMO ESTÁ O MEU MAGNIFICAT, como o rezo na minha vida, não o texto de Lucas mas o da nossa vida diária com tudo e todos os que dela fazem parte, o nosso magnificat pessoal de homens e mulheres chamados à missão como Maria foi chamada a uma Missão.

Maria foi uma Mulher de risco, muito provada e em cada momento da Sua vida dá-se um novo chamamento: desde a anunciação à formação e acompanhamento dos Apóstolos pós Calvário. Maria ficou com eles (Apóstolos) e certamente foi para eles a conselheira, a Mãe que acompanha e educa, a Mulhe que na sua experiência leva à intimidade com Deus, a Rainha que aponta a vitória do bem sobre o mal.

No Pentecostes Maria está presente e a Sua presença é sinal de esperança, é reconforto nas dúvidas, é segurança nos medos. Maria vivera a noite do frio da fuga para o Egipto, da incerteza do caminho mas da confiança em Deus. Maria é mulher silenciosa quando alguém, no Templo, lhe diz que Ela vai sofrer por causa d’Aquele Menino, uma espada de dor se fará sentir no Seu Coração de Mãe, viveu também a espera em Jerusalém e Caná da manifestação do Filho, espera confiante o novo amanhecer do terceiro dia pós calvário quando os discípulos fogem de medo.

Fracisco de Assis fala sempre de Maria em referência ao Filho, já o dissemos, não há Maria sem Jesus Cristo. A vida de Maria resume-se num “SIM” e nele está a plenitude dos tempos como meta a atingir na aceitação do sim de Maria em Cristo, sim que traz a renovação do mundo como que irrevogavelmente decretada.

Estar com Maria é escutar permanentemente o que Ela nos aponta a fazer face a tudo o que nos rodeia, como olhar o Filho, como escutar a palavra, como dizer o nosso sim ao projecto de Deus.

Com Maria somos convidados a transformar o nosso sim em outros permanentes sim. Ela é o modelo da humildade verdadeira e não a falsa humildade que vemos em tantos chamados que tentam “fugir com o rabo à seringa”, como acontece com a maior parte dos profetas… e connosco em tantas situações de chamamento.

Ela responde e confia que no Seu itinerário o Filho sempre lh’E dirá o que fazer e como fazer.

Também nós tivemos e temos anunciação. O peso do nosso sim entende-se de forma mais clara quando exista o medo, a dor, a dúvida, o impasse. Talvez só nos momentos dos limites, em que como Ela devemos dizer SIM, seja em que idade for, por vezes talvez até mesmo no fim da vida seja a hora de percebermos como a vida foi e deve ser num permanente amanhecer.

Assim, como Maria, seremos Bem-aventurados… viveremos o Sermão da montanha.

Seremos felizes se cultivarmos a mansidão e a humildade, se formos loucos pelo Reino, sem perdermos a ocasião de semear a paz, se mais que receber sonhamos dar, se o nosso coração e olhar estão limpos, se em lugar do poder (posse) buscamos a verdade no servir, se valorizamos mais a ternura que o ter, se partilhamos o que é nosso com os demais, se nos encontramos com Deus nos outros e se os outros são o lugar do encontro e nos oferecem um espaço novo.

Assim, teremos a certeza que em cada momento da nossa vida, Maria é a formadora de Jesus em nós.

15 setembro 2010

Programa de Jesus: B. Aventuranças


(FOTO: Ir. M.ª Amélia Costa falando aos irmãos. Cruz de S. Damião, que falou a S. Francisco, preside aos encontros fraternos.

O texto que se segue é a minha releitura a partir das palavras da Ir. M.ª Amélia no 5.º Encontro)

O PROGRAMA DE JESUS

Ao reflectirmos sobre o texto anterior: as estratégias e critérios (programa) do demónio, somos tentados a olhar apenas para isso mesmo, o mal, o negativo, a destruição da nossa dignidade. Na verdade não deve ser assim, ou esquecemos nós que Cristo tem também um programa, estratégias e critérios para nos libertar do medo opressor face ao mal e ao maligno?

Pois bem, o dia iniciou-se com o convite – feito pela Ir. Amélia – a olhar-mos para a nossa realidade humana diante de Deus e dos outros. Para tal recorremos ao chamado “Canto de Ana ”, em Samuel, (1 Sam 2, 1-10) que nos recorda as nossas limitações, pobreza, limites, debilidade mas lutadores e exaltados como Ana, nas palavras de Samuel e como Maria nas palavras de Lucas (Lc 1, 46). O Canto de Samuel (Ana) é quase que uma antecipação do canto do Magnificat: “Exulta o meu coração no Senhor, que humilha e exalta…”, “A minha alma glorifica o Senhor… porque olhou para a Sua humilde Serva…”.

Olhando para esta realidade da nossa Vida Religiosa, e da nossa relação íntima com Deus, somos então desde estes cânticos convidados a entrar no silêncio que conduz a esta intimidade. Silêncio que não mais é lugar da tentação, lugar de entrada do maligno mas lugar de Deus, lugar tempo de Graça, como no-lo deixou testemunhado João Paulo II nos números 58 e 59 do seu Documento sobre a Vida Consagrada, fazendo reflexão ao desafio que se coloca cada vez mais pertinente á Vida Consagrada no combate permanente a fugir ao mais fácil, ao supérfluo, ao vazio.

Francisco de Assis também nos deixa testemunhos disso, muitos mas a reflexão cai sobre o texto de Primeira Celano 91 (1C 91), que nos diz que Francisco se recolhe a um lugar de silêncio para se ocupar só de Deus e poder sacudir do seu espírito o pó acumulado no trato das coisas do mundo. Para ali foi com poucas companhias (a exemplo de Jesus) entre os mais íntimos e mais ao corrente da sua vida para evitarem a invasão de visitas inoportunas. Aí permanecer em contínua oração e permanente contemplação, desejou saber o que mais podia querer dele o Rei e Senhor. Empenha toda a inteligência, alma, vontade, sentimentos, emoções e busca a melhor forma e o caminho mais apto para alcançar uma unidade de vida com as aspirações do Senhor e da Sua vontade.

Esta foi sempre a sua mais alta filosofia de vida, supremos anseio, e de todos queria saber como chegar ao caminho da verdade e subir a metas mais altas ainda.

É aqui que nos vamos então cruzar com o PROGRAMA DE JESUS que se pode resumir desta forma: “negar-se a si mesmo…”, “Tomar a Cruz todos os dias…”, “Seguir-Me”.

CRITÉRIO DE JESUS:

Os critérios de Jesus têm uma cartilha única: o Sermão da Montanha ou Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12; Lc 6, 20-23).

Ao lermos estes textos sagrados, o nosso pensamento vai também para aquele da perfeita alegria em S. Francisco, texto que podemos dizer ser o hino das Bem-aventuranças franciscanas.

As Bem-aventuranças são a carta magna do cristianismo, primeiro grande discurso de Jesus ao contrário das tentações que são a carta magna do mundo.

Quais são então os critérios para os que querem seguir Jesus?

· Os pobres em espírito, os que choram, serão consolados pela bondade do coração e pela presença de Deus que está dentro de nós. Cristo também chorou.

· Os mansos herdarão a terra porque vão ser acolhidos no coração dos outros. Não se trata de ser bonzinho por ser bonzinho, de ser anjinho (papudo) mas ser manso e humilde de coração sincero. Estes encontrarão sempre espaço onde viver em paz mesmo no meio de conflitos porque a mansidão é uma atitude interior

· Os que têm fome e sede de justiça serão saciados quando trabalhem pela justiça não pagando o mal com o mal mas fazer o bem a quem faz o mal. Aquele que semeou o bem colherá o bem, a mansidão colherá a mansidão do Evangelho. Isto pode ser a maior provocação à altivez, um coração manso numa comunidade incomoda, chateia, aborrece e nem sempre é entendido como manso e humilde de coração.

· Os misericordiosos terão e receberão misericórdia e quanta Ele tem tido para connosco… mas, quem são os misericordiosos? Olhamos para Francisco de Assis que nos apela permanentemente ao uso da misericórdia e do perdão, antes mesmo do irmãos que nos ofendeu nos pedir, já devemos nós ir ao seu encontro para lhe oferecer o perdão e usar de misericórdia para com todos os que pecaram.

· Os puros de coração porque verão a Deus. A pureza aparece aqui como condição para ver Deus, para estar na presença e intimidade com Ele. Não é o que entra pela boca – diz a Escritura – que perturba o coração mas o que sai. O coração deve ser limpo, puro, sem dobras, transparente e não novelado em problemas, inquieto e sem paz. Estes verão Deus no seu dia-a-dia e nos outros em tudo o que acontece.

· Os construtores da paz porque terão paz. Não basta desejar, ansiar, rezar pela paz. É preciso construir a paz, agir em prol dela. Não constrói a paz, aquele que está sempre a intervir, a não respeitar, aquele que está sempre a “brigar” com o outro. Com o intuito de construir a paz não podemos ser demolidores do ser do outro, ou do ser que o outro é, e que o é em permanente crescimento e maturação. Não constrói a paz, aquele que usa de violência verbal e que prolifera em expressões como “deixa-me”, “vai dar uma volta”, “não chateies”, “mete-te na tua vida”, “não é da tua conta” e por aí fora… Os construtores da paz respondem com um sorriso, um olhar calmo, palavra serena aos que os ofendem, perdoam, mesmo que chorem porque são frágeis mas é Deus que perdoa e isso torna-nos mais acessíveis à Graça.

· Os perseguidos por causa do Reino, do nome de Jesus, porque alcançarão a Vida Eterna. A maledicência acerca de nós, a crítica destrutiva, a destruição do nosso ser e agir não pode deixar-nos de cabeça em baixo, de coração destroçado se nos lembrarmos que de tudo isto já nos falava Jesus nas Bem-aventuranças. Aqui resta-nos agarrar a Cristo e rezar “perdoa-lhe, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). A lógica de Cristo é passar pelo meio deles, dos que nos perseguem, de cabeça erguida e pedir-lhE que nos dê toda a força para não pagarmos o mal com o mal nem retribuirmos com a mesma moeda. A melhor e positiva forma de provocarmos alguém e a sua consciência é mantermos a nossa serenidade, confiança, tranquilidade e segurança, maturidade de atitudes.

Estas Bem-aventuranças são o preço da Cruz que nos leva a crescer somente para Cristo. Em vez de nos questionarmos sobre as causas e os porquês de nos acontecerem tantas coisas menos boas, quando procuramos nós mesmos fazê-las, olhemos para a Cruz e vejamos o Cristo que por ter passado por este mundo fazendo o bem ali deu a Sua Vida por nosso amor. Na Cruz abatemos o nosso sofrimento e o peso da nossa cruz se A olharmos como lugar da glória da Vida (Exaltação da Santa Cruz). Muitos cotovelos precisam de consultas de ortopedia para que as “dores de cotovelo” não estraguem a vida e dignidade dos irmãos. Mas nós não podemos esquecer que as provas são caminho para o amadurecimento na vida. O limite humano faz-nos amadurecer, estender mais a mão ao próximo com verdade, relativizar mas as coisas, sobretudo as negativas, porque a nossa vida, ainda que com sofrimentos, vai ganhando um novo sentido. “Se algum irmão tiver alguma coisa contra ti, vai ter com ele e oferece-lhe o teu perdão” (Mt 5, 23-24). Se isto formos capazes de fazer é sinal de que temos maturidade humana e espiritual.

Os Evangelhos estão cheios de textos que nos mostram como o nosso ser debilitado está em permanente frente a frente face ás tentações. A resposta de Jesus são as Bem-aventuranças e em João ao dizer-nos: “Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!” (Jo 16, 33).

Cristo é honesto, chama, ergue os olhos sobre os discípulos (é sério o que lhes vai dizer) e depois faz um discurso sem lógica alguma, as Bem-aventuranças. Este discurso de Cristo é um carisma vital para a Vida Religiosa e a única forma de lhe encontrar algum sentido é olhar claramente a chave de leitura: “POR MINHA CAUSA…”, por causa do Filho do Homem Cristo vive e anuncia o caminho da bem-aventurança e, por isso, Ele pode exigir aos Seus discípulos que sigam um tal caminho.

S. Francisco, na Exortação XXII diz que “todos os que injustamente nos causam dor, martírio e morte são nossos amigos aos quais devemos amar porque por tudo isto alcançaremos a vida eterna". Esta exortação mostra-nos bem a radicalidade evangélica do Poverello de Assis e da linha de orientação que ele mesmo vive e quer que os seus tenham sempre presente. Recordemos ainda uma vez mais que ele mesmo recomenda que antes que um irmão nos venha pedir perdão tomemos a iniciativa de lho levar. As Bem-aventuranças não são para o além, para o amanhã, são para o aqui e agora da nossa realidade concreta.

Em Mt 10, 16-23 Jesus diz que sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos”. Este “POR MINHA CAUSA” abre-nos os olhos e o coração para sentirmos unidade de sentimentos com Cristo porque o que nos acontece é por causa d’Ele. Há tantas formas de prender e injustiçar um irmão. Basta olhar para a nossa volta, talvez paras as nossas atitudes. Ao mesmo tempo talvez nos sintamos nós mesmo presos pela nossa própria corrente e não nos abrimos a Cristo que nos quer libertar do mal e do maligno. Ele mesmo nos referiu que nos enviaria o Espírito da Verdade que nos ensinará todas as coisas e então seremos verdadeiramente livres.

Concluimos mais um texto a partir das refelxões da nossa Ir. Amélia onde o caminho das Bem-aventuranças nos impele a seguir Cristo e a deixar as atitudes fáceis da vida enquanto nos abrimos ao Espírito que nos revelará todas as coisas e tornar-nos-é livres.

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