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PORTUGAL: BEM VINDO SANTO PADRE!

VÍDEOS: Para visualizar e ouvir os vídeos deverá dasativar a música de fundo no painel aqui do lado esquerdo

31 dezembro 2011

2012 abençoado por Deus

Chegados ao final de 2011 e início de 2012 aqui deixo, uma vez mais, mensagem em vídeo HD.
Que a todos vós Deus conceda um novo ano abençoado! Em tempo de crise, que não se confina apenas ao económico, urge ter sentido de esperança e de luta para que a bênção de Deus se faça sentir junto de todos, sobretudo dos mais desfavorecidos da nossa sociedade.
(desactivar a música na coluna da esquerda e se preferir ver com mais amplitude clicar sobre o título da postagem)

14 novembro 2011

Rezar para testemunhar

O testemunho suscita vocações”

Senhor da messe e pastor do rebanho,
faz ressoar em nossos ouvidos
o teu forte e suave convite: “Vem e segue-Me”!
Derrama sobre nós o teu Espírito:
que Ele nos dê sabedoria para ver o caminho
e generosidade para seguir a tua voz.
Senhor, que a messe não se perca por falta de operários.
Desperta as nossas comunidades para a missão.
Ensina a nossa vida a ser serviço.
Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino,
na vida consagrada e religiosa.
Senhor, que o rebanho não pereça por falta de pastores.
Sustenta a fidelidade dos nossos bispos,
padres e ministros.
Dá perseverança aos nossos seminaristas.
Desperta o coração dos nossos jovens
para o ministério pastoral na tua Igreja.
Senhor da messe e pastor do rebanho,
chama-nos para o serviço do teu povo.
Maria, Mãe da Igreja,
modelo dos servidores do Evangelho,
ajuda-nos a responder “sim”.
Ámen.

08 novembro 2011

Semana dos Seminários 2011

A Semana dos Seminários, que a Igreja Católica assinala entre 6 e 13 de novembro, conta com um guião disponível gratuitamente na internet que inclui textos, catequeses e orações, além de relembrar atitudes a seguir pelos padres.
A “proposta de reflexão” sublinha que o sacerdócio deve ser vivido “não como privilégio, nem como conquista nem como motivo de glória nem como anelo de triunfo ou êxito, nem sequer no terreno da santidade”.
O padre, “enquanto homem de comunhão, privilegiará sempre o diálogo”, indica o caderno de 90 páginas elaborado pelos seminários das dioceses de Évora e Algarve, acrescentando que o presbítero é chamado a cultivar “a capacidade de colaborar e trabalhar em equipa”.
O tema da edição de 2011 da Semana dos Seminários, “Formar pastores consagrados totalmente a Deus e ao seu povo”, baseia-se na homilia da missa que Bento XVI celebrou a 19 de agosto, durante a Jornada Mundial da Juventude realizada em Madrid.
Além desta intervenção do Papa dirigida aos seminaristas presentes na capital espanhola, o guião inclui a mensagem de D. António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro e presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios, responsável pela organização da Semana dos Seminários.

O livro apresenta sugestões de catequeses para a infância, adolescência, juventude e idade adulta, com textos, cânticos e dramatizações, apontando-se neste capítulo alguns indícios reveladores da inclinação para o sacerdócio, como quando a missa ou a oração “começa a ser uma necessidade quotidiana”.

Os “sinais” de vocação detetam-se também quando o trabalho feito na paróquia ou movimento começa a “‘roubar o coração” e a pessoa passa grande parte do tempo nessa atividade, quando a figura de um padre suscita o projeto de consagrar a vida à semelhança da dele ou quando se deseja uma “felicidade que o mundo não pode dar”.

O caderno compreende uma vigília de oração, textos para as missas que ocorrem durante a Semana dos Seminários, um itinerário espiritual baseado numa leitura bíblica alusiva ao tema deste ano, bem como meditações para os mistérios do Terço.

A Comissão Episcopal também organizou o 8.º Fórum Nacional das Vocações, que decorreu na última sexta-feira e sábado em Fátima, sob o tema “A Pastoral Vocacional em tempos difíceis e aliciantes”.

O comunicado final do encontro enviado à Agência ECCLESIA aponta para a “necessidade de propostas de qualidade, exigentes e sérias, através de testemunhos convincentes, ação coerente e formação adequada”.

Os testemunhos escutados no encontro sublinharam três vetores: a “experiência de sentir-se desejado por Deus”, a “vivência de experiências religiosas marcantes”, e a “direção espiritual”, onde os a ação dos “mediadores” foi decisiva em “momentos-chave” do percurso vocacional.

D. António Francisco dos Santos “relembrou que os tempos não são de otimismos fáceis, mas de esperança firme e confiança confirmada”, em que todos os católicos são convocados para o “incessante e constantemente recomeçado de chamar”.

O portal da Conferência Episcopal Portuguesa disponibiliza UMA PÁGINA com conteúdos respeitantes à Semana dos Seminários - Cartaz/Livro/Pagela.

03 novembro 2011

Retalhos: 5 ANOS

O dia vai caindo…



É no final da vida que seremos julgados pelo Amor, como nos diz S. João da Cruz.


É também no fim deste dia que, não por julgamento mas, por partilha amiga, páro para olhar este blog RETALHOS que hoje faz CINCO ANOS.


Fui olhar mais uma vez as primeiras partilhas do blig 1 em http://betus_pax.blogspot.com para voltar a sentir o sabor das origens, ou o objectivo com que um dia me lancei na aventura de criar um blog, e eu que nem sabia o que isso era.


Foi a ajuda inicial de um AMIGO, ao qual cada dia foi trazendo novos Amigos, que aqui deixaram tantas palavras e partilhas ao jeito de retalhos de vida, onde o importante é fazer parte da vida de alguém. Assim nascia um blog. E depois teve o irmão, gémeo, talvez, ou então não gémeo porque é o mesmo objectivo, o mesmo sentir, as mesmas partilhas actualizadas dentro do possível.


Muitos momentos de alegria, alguns menos bons por palavras e juízos que não foram/são autênticos mas que partem tantas vezes da malvadeza de alguns, da inveja e até mesmo da ignorância. Tal como se faz aos ramos secos de uma planta deixei-os cair, não sem antes, e porque não ser sincero, tivessem feito alguma mossa nas motivações que alimentam um espaço como este que procura ser diferente no mundo da internet.


Quantos por aqui passaram e já não vieram mais, quantos passam e deixam a sua passagem numa partilha, quantos passam e ficam no silêncio, quantos…


Cinco anos é para mim, creio poder dizer para vós também – Família Retalhos – tempo de pensar no futuro da criança, na alimentação da planta, no que deve ser ou não este espaço. Muitas coisas têm estado pendentes, para reflectir, para pensar se vale ou não vale a pena, porque como bem calculais manter um espaço destes ano após ano implica muitas, mas muitas horas mesmo de trabalho, de dedicação, e mesmo de novidade que nem sempre se encontra.


Hoje quero apenas parar para olhar o que foi, o que é o Retalhos 1 e 2 e pensar no que poderá vir a ser um Retalhos 3, ou se será de pensar num site mais profissional e os conteúdos ali a inserir e partilhar.


Ao terminar este dia de aniversário do “Retalhos” quero agradecer-vos todas as vezes que por aqui passais e as partilhas que fazeis.


Que a todos Deus abençoe, Francisco proteja e Maria Mãe acalente no Seu Coração.


Benedicat!

26 outubro 2011

Espírito de Assis: 25 anos

ASSIS: Cidade da Paz (1986 – 2011)
25º Aniversário
Foi há 25 anos que João Paulo II ali esteve com dezenas de líderes de todas as Religiões e amanhã, dia 27, Bento XVI repete este gesto pela Paz.
ASSISTA EM DIRETO AQUI:
http://www.vatican.va/video/index.html
Fica o vídeo dos nossos irmãos do Brasil e no final um texto e programa do encontro ecuménico.

Na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2011, Liberdade religiosa, caminho para a paz, o Papa Bento XVI fez já referência a esta iniciativa de oração e reflexão de todas as religiões em favor da paz para a humanidade:


Em 2011, tem lugar o 25º aniversário da Jornada Mundial de Oração pela Paz, que o Venerável Papa João Paulo II convocou em Assis em 1986. Naquela ocasião, os líderes das grandes religiões do mundo deram testemunho da religião como sendo um factor de união e paz, e não de divisão e conflito. A recordação daquela experiência é motivo de esperança para um futuro onde todos os crentes se sintam e se tornem autenticamente obreiros de justiça e de paz.


E foi na saudação do Angelus de 1 de Janeiro de 2011 que o Papa anunciou a sua intenção de renovar esta iniciativa:


No próximo mês de Outubro, irei como peregrino à cidade de são Francisco, convidando os irmãos cristãos das diferentes confissões, os expoentes das tradições religiosas do mundo e, idealmente, todos os homens de boa vontade, a unir-se neste caminho com o objectivo de recordar aquele gesto histórico desejado pelo meu Predecessor e de renovar solenemente o empenho dos crentes de cada religião a viver a própria fé religiosa como serviço para a causa da paz. Quem está a caminho rumo a Deus não pode deixar de transmitir paz; quem constrói a paz não pode deixar de se aproximar de Deus. Convido-vos a acompanhar desde já esta iniciativa com a vossa oração.
A Família Franciscana tem procurado manter viva esta iniciativa que ficou vulgarmente conhecida pelo Espírito de Assis. Assim, a Conferência da Família Franciscana enviou já uma breve carta a convidar-nos para celebrarmos este aniversário:


Caros irmãos e irmãs,
Que Senhor vos conceda a Paz!


Durante mais de um ano, a Conferência da Família Franciscana (CFF) tem discutido sobre o modo de comemorar o 25° Aniversário do Dia Mundial de Oração pela Paz, que aconteceu em Assis em 27 de Outubro de 1986. Tendo como base a celebração, João Paulo II tornou popular o evento do Espírito de Assis. Este gesto tem inspirado grandes esforços na busca de promover a paz e o diálogo, pelo menos, durante um quarto de século. Gostaríamos de reforçar o nosso compromisso com a paz e o diálogo, encorajando toda a Família Franciscana a celebrar esse importante aniversário.


(…) Convidamos toda a Família Franciscana a se preparar para celebrar este importante aniversário. Estamos conscientes de que, durante vários anos, muitos de vós já tendes promovido celebrações anuais em memória deste evento e gostaríamos de encorajar a sua continuidade.


(…) Irmãos e irmãs, o legado de Francisco e Clara guiaram o Santo Padre a escolher Assis como o lugar do evento original, tornando-se conhecido como O Espírito de Assis. Rezemos para que, durante a celebração deste aniversário, possamos ser inspirados a renovar o espírito dos nossos Santos Fundadores, que nos conduz a curar as feridas que afligem o mundo hoje. Que a celebração do 25° aniversário do Espírito de Assis possa ajudar-nos a revitalizar a nossa vida e os nossos trabalhos. Como Francisco e Clara, possamos oferecer testemunho e serviços vibrantes na construção de um mundo mais justo e pacífico.


O programa do ENCONTRO INTER-RELIGIOSO em Assis, a 27 de Outubro de 2011, será o seguinte:


- Viagem de comboio de Roma para Assis, com o Papa e as delegações convidadas


- Basílica de Santa Maria dos Anjos: Momento de comemoração dos encontros anteriores e de aprofundamento do tema deste novo encontro


- Refeição simples, no espírito de estar juntos em fraternidade e em união com tantos homens e mulheres que não conhecem a paz


- Tempo de silêncio, de reflexão e oração


- Caminhada até à Basílica de S. Francisco, peregrinação em silêncio para simbolizar o caminho da humanidade na busca assídua da verdade, da justiça e da paz


- Momento conclusivo da Jornada, junto à Basílica de S. Francisco, com renovação solene do Compromisso comum pela Paz.


(Para mais informações ver: http://spiritodassisi.wordpress.com/portugues)

22 outubro 2011

Dia do Beato João Paulo II

Hoje celebramos o dia litúrgico do Beato João Paulo II.
Retalhos uma vez mais presta homenagem a tão ilustre Pai, Mestre, Pastor e Amigo...
Que junto de Maria, a Senhora de Fátima, João Paulo II olhe por todos nós.

02 outubro 2011

S. Francisco On-LIne

PAZ E BEM!
Em todo o mundo a Família Franciscana vai ecoando já os louvores ao Senhor pelo Irmão Francisco.
Nestes dias 3 e 4 de Outubro faremos memória, uma vez mais, do dia em que Francisco de Assis, deitado sobre a Mãe terra, acolhe a Irmã Morte corporal.
É momento de reflexão, sempre cada vez mais renovada, esta Solenidade de S. Francisco de Assis. O mundo inteiro, crentes e não crentes, não fica indiferente a esta personagem tão marcante na vida e na história do 2.º milénio.
Francisco de Assis tem os seus restos mortais numa urna encaixada em pedra, vinda da Mãe Terra, em Assis, e que agora os nossos Irmãos disponibilizam imagem on-line para que, onde quer que nos encontremos e seja a que hora for, possamos, via internet, visitar o túmulo de S. Francisco de Assis e dos seus primeiros companheiros, ali sepultados com ele na Cripta do Sacro Convento em Assis.
Podeis aceder em direto ao túmulo de S. Francisco atraves do site  http://www.sanfrancescopatronoditalia.it/webcam_tumba_sao_francisco.php

ou sempre que entrardes no Retalhos clicar no ícone do canto superior direito.

Que o Senhor vos abençoe por intermédio de S. Francisco de Assis

18 setembro 2011

Varatojo: Experiência de Deus (1)

3.º Encontro: A minha alma tem sede do Deus vivo (1)


(Na medida em que vou relendo o que escrevi, a partir das reflexões de Fr. Jaime - no retiro - aqui partilho a minha visão do tema, ou talvez a minha experiência. Algumas reflexões acabem por ficar longas e, por isso, as separo em duas partes)

O dia iniciou-se com a oração e reflexão do salmo 42 e uma vez mais a Oração de abandono de Charles de C.

“Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo! Quando poderei contemplar a face de Deus?”

Este Salmo 42, e a referida oração, remetem-nos para um encontro de intimidade. Somos levados a sentir uma imensa sede do Deus da Vida e mais ainda a querer encontrá-lO. O encontro íntimo com alguém, e aqui neste caso com Deus, será tão mais íntimo e profundo quanto maior for o desejo de que este venha a acontecer, este desejo que o salmista nos apresenta como uma sede tremenda de encontrar a água viva. Este trecho do Salmo toca sempre a alma de qualquer crente, de quem está em comunhão com o Criador, toca de forma muito especial a alma Lusa, ou a de quem do espírito da língua e cultura Lusa se deixa embrenhar, para recordar o sentimento tão nobre e que tão poucos povos sabem definir como nós o definimos: SAUDADE.

Ter saudade de Deus, desejar com todas as veras da alma e do corpo, como dizia S. Francisco, encontra-se com Ele, deliciar-se n’Ele, abandonar-se aos Seu Amor infinitamente misericordioso. “Quando poderei contemplar a face de Deus?”, poderíamos nós repetir em cada amanhecer. Quantas vezes já dissemos, a Deus, que temos sede d’Ele?

QUAL A MINHA EXPERIÊNCIA DE DEUS?

a) A primeira questão que se nos coloca é sobre a nossa experiencia de Deus. Se eu tiver que mostrar aos outros onde está e quem é o meu Deus, como o faria? Como revelaria, a quem questionar as razões da minha fé, o Deus da minha vida, de quem tenho sede e com quem vivo em permanente intimidade? Mais ainda, e como Franciscanos, que realce teria este meu testemunho para mostrar uma experiência de Deus na linha de uma espiritualidade e vida franciscana? O nosso Deus seria o Deus de Francisco de Assis a quem nos propomos seguir? Vivemos nós a espiritualidade do Poverello que nos obriga à relação íntima e profunda com Deus?

Uma experiência de Deus na perspectiva franciscana só é possível na vida fraterna, no convívio orante com os irmãos e no respeito pelo que cada um deles é diante de Deus: “Lembra-te, ó Homem, que vales muito aos olhos de Deus”, diria Francisco a quem o Senhor deu os irmãos que ele quer amar e respeitar porque são um dom do Amor. Caminhar e fazer experiência de Deus leva-me sempre ao caminho trilhado por cada Irmão Menor, na sua individualidade, na sua identidade própria, nos seus carismas que são o meio privilegiado para mostrar o Deus de quem tenho sede, o Deus me habita.

b) Passados oito séculos, ainda hoje se continua a olhar para Francisco de Assis como o “outro Cristo na terra”, dada a sua identificação tão forte com Jesus desde o mistério na Natividade, prolongada em Greccio, ao mistério do Calvário, experiência máxima, em Francisco, do Cristo Crucificado e que ele recebe no Monte Alverne, através dos Sagrados Estigmas, dois anos antes da sua morte.

Desta forma creio que seria bom recordar o quanto Francisco faz a experiência de Deus e de Jesus Cristo sempre a partir da opção pelo pobre: “Jesus quis viver vida de pobreza com Sua Santíssima Mãe”, dirá Francisco na Carta a toda Ordem. O Deus que Francisco experiencia ao longo da sua vida é o Deus que, em Jesus e Maria, se identifica com os mais humildes e pobres recordados no Magnificat: “olhou para a sua humilde Serva… exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens… acolheu Israel…”(Lc 1, 46-56). É desta forma que Francisco, nos seus escritos, nas regras, nas exortações e através dos seus biógrafos que nos testemunham o seu estilo de vida pobre e humilde, nos impele sempre o olhar o outro com um olhar como o de Jesus e Maria pobres e humildes, por amor dos mais pobres, o que leva verdadeiramente a que Francisco deixe muito claro que esta nova Ordem de Irmãos que o Senhor lhe deu se chame sempre Ordem dos Irmãos Menores.

c) Nesta experiência de Deus em perspectiva franciscana, a Fraternidade e ser irmão com os irmão é algo imperativo de ser vivido, como diria Francisco, “com todas as veras do nosso coração e da nossa alma”. Não existe experiência de Deus em Francisco e na vida franciscana sem que ela seja experiência de vida fraterna onde cada um sabe acolher, respeitar e amar o seu irmão. Viver uma experiência desta forma remete-nos de novo para a última ceia em S. João, desde o gesto de lavar os pés ao convite permanente de Cristo para que nos amemos uns aos outros, e sirvamos, como Ele nos amou e serviu até dar a vida por nós. Servir e amar o irmão é reconhecer nele um dom de Deus para mim, é aceitá-lo tal como ele é e fazer caminho fraterno com ele, perdoando-o nas suas fragilidades e ajudando-o no seu caminhar. É ao mesmo tempo reconhecer-me como irmão que também é dom para o outro e, por ele, deixar-me ser amado, ser perdoado e ser companheiro de jornada na estima recíproca e no sentido de quem faz cada dia um novo dia, como Francisco no-lo pediu à hora da morte: “Irmãos recomecemos, porque até agora nada fizemos de bom…”.

Francisco não teme deixar a mãe terra para ir ao encontro do Deus Criador e Amor. Francisco chega a pedir ao médico que o assiste, estando este renitente em lhe dizer que o resto da sua vida terrena não seria longo, que lhe diga o que tem de enfermidade e quanto tempo lhe resta de vida porque anseia ir ao encontro de Deus. Este mesmo sentimento o nutre interiormente e o manifesta já na Porciúncula, na hora da partida, exortando aos irmãos que não chorem por ele porque vai para Deus, tem sede de O ver. Acolher a Irmã Morte exortando os seus irmãos à vida fraterna, à intimidade com Deus e a liberdade das coisas deste mundo só é possível quando se tem uma experiência sedenta de Deus, do Deus vivo: “A minha alma tem sede de Vós…”.

Posto isto que acabámos de reflectir nas alíneas supra, podemos colocar a nós mesmos, e à Vida Religiosa, a questão sobre qual é a experiência de Deus que nós fazemos, onde a fazemos, com quem e como. E já agora como a testemunhamos à nossa volta, junto daqueles que nos questionam ou simplesmente nos olham com um olhar de quem tem sede de encontrar em nós o rosto de Deus.

Nos últimos a Vida Religiosa, como toda a Vocação aos Sagrados Ministérios, tem sofrido com a falta de vocações, com o elevado número de Religiosos, sacerdotes e demais Ministros com idade já avançada e também não menos importante com o desencanto, desalento ou desenamoramento dos mais jovens. Este é um tema sempre presente em momentos de retiro, reflexões ou simples diálogo entre irmãos. A sede de Deus é cada vez maior mas também parece ser cada vez maior o lugar humano onde podemos encontrar a Fonte que mana e corre, como diz o Salmista (Sl 36, 10).

Na formação para a Vida Consagrada este tema continua a ser pertinente na medida em que se procura encontrar a forma, ou o caminho, que leve os Consagrados a ter sede de Deus, do Deus vivo, do Deus da vida que chama, consagra e envia, o Deus que sacia a nossa sede de autenticidade na resposta fiel que lh’E damos. Na reflexão que se faz para encontrar um caminho formativo, para uma Vida Religiosa autêntica, pautado pela fidelidade ao carisma fundador e aos carismas como dom de Deus, parece cada vez mais claro que só encontraremos Deus através dos outros e na forma como vivemos e nos relacionamos com eles e, por eles, com Deus.

Recordando a reflexão feita pelo Fr. Jaime, a propósito do que atrás acabo de escrever, dizia ele que na formação a ministrar aos candidatos à Vida Religiosa, e Franciscana, se deveria ter em conta dois “problemas”, ou talvez lhe possamos chamar desafios formativos:

Abordar cara a cara, sem medo, as estruturas pelas quais nos regemos, e sublinhava o Frei, as estruturas AFECTIVAS. Questionar e questionarmo-nos sobre o que na verdade nos impede, no tempo actual, de viver o enamoramento para com Cristo, a realização dos verdadeiros projectos que Deus nos pede a cada um individualmente, tendo em conta os dons e carismas que cada um de nós recebeu, e tendo em conta a grande força que somos quando fraternamente os pomos todos ao serviço do mundo, da Igreja e dos irmãos. Questionar e questionarmo-nos face a fece e sem medo, sobre as nossas relações fraternas, como testemunho do já referido e manifestado por Jesus na última ceia. Sem afectos não há verdadeira relação humana e fraterna, sem esta relação fraterna, não pode haver relação íntima e amorosa com Deus porque "se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 19-21).

Esta é um problema do nosso tempo, cada vez mais temos convites que conduzem ao individualismo e menos à relação. Temos medo de enfrentar e confrontar as estruturas, algumas até “institucionalizadas”, de uma formação de outros tempos que ainda olham os afectos como um mal e um perigo e não um bem que pode e deve levar a crescer na maturidade do que somos enquanto seres chamados à relação. Temos medo de questionar e enfrentar estas estruturas, de intimidade amadurecida e autêntica, que querem constituir-se e amadurecer no caminhar com os irmãos e não de contornar aquilo de que tantas vezes se fala como perigo na nossa vida. Frei Jaime perguntava se nesta perspectiva nós temos medo dos Amigos íntimos ou do Amigos sinceros? É que muitas vezes fala-se da intimidade amadurecida como os “amigos íntimos” senão quando mesmo sob o nome de “amigos espirituais” para denotar tais expressões com o que é mau, imoral e condenatório em vez de valorizar uma das maiores características do ser humano que é ser em relação com o outro e com Deus.

S. Francisco de Assis viveu uma vida de intimidade profunda com Deus porque vivia a relação amadurecida e fraterna com os irmãos, com Clara e suas irmãs, não esquecendo a sua grande amiga Jacoba de Setesolli, que lhe levava doces e bolinhos e a quem ele permitia entrar no claustro dos irmãos, de tal forma foi esta amizade que hoje os restos mortais desta mulher/amiga repousam na mesma Cripta onde repousam os restos mortais de Francisco e seus primeiros companheiros, no Sacro Convento em Assis.

• A outra questão que Fr. Jaime realça, é esta mesma que temos estado a falar, a da nossa relação com Deus.

Recorda ele que por vezes, na formação, há uma preocupação desmesurada por passar horas em oração, ou melhor orações, mas sem nos preocuparmos com a qualidade dessas mesmas orações. Muitas orações pré-feitas, muitas devoções piedosas de livros ou pagelas, muitos silêncios contudo, que sentimos nós quando as fazemos/rezamos? Que experiência de Deus fazemos nós nos muitos silêncios sob a capa da oração e contemplação? Não, não se trata de desvalorizar aqui qualquer momento celebrativo, devoção ou oração, menos ainda de desvalorizar o silêncio de quem nele se entrega à contemplação e adoração do seu Senhor. Trata-se, isso sim, de reflectir sobre a qualidade destes momentos celebrativos e silenciosos diante de Deus.

Pode parecer estranho o que escrevo mas dou como exemplo dois testemunhos: por um lado irmãos temos, que passam o dia de Terço nas mãos, mesmo até enquanto se celebra a Eucaristia, mesmo até quando se servem à mesa, obrigando o Crucifixo a cair dentro da terrina da sopa ou na travessa, isto porque ainda não se rezaram não sei quantos Terços em honra da Virgem Maria. Em honra? Será?

Diria Deus, de nós, o que outrora disse ao Seu Povo através do profeta Isaías: “Este povo aproxima-se de mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro”. (Is 29, 13)

O outro exemplo que dou é o de santos religiosos que, depois de um dia de muito trabalho e em que não lhes foi possível ir ao Coro rezar com os irmãos os salmos da Liturgia das Horas, deambulam pelos corredores, claustro, capela ou quarto apenas para cumprir um preceito estabelecido. Será esta uma oração de qualidade? Será mais valiosa que as horas de serviço fraterno numa paróquia, instituição ou serviços mais humildes e fraternos de entrega na fidelidade à missão de amar e servir os irmãos, onde Deus, Cristo, Maria e os santos se sentem verdadeiramente honrados e glorificados.

Dentro disto, é mister que perguntemos também o que sentimos quando temos sede de Deus, quando no nosso dia-a-dia procuramos celebrar a Vida e a Fé com os irmãos e através dos irmãos até Deus, que sentimos quando reconhecemos que o outro, através da sua vida, testemunho, relação e partilha nos leva ao Deus que nos chama a amar o outro como a Si mesmo? “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. (Lc 10, 27)
Na vida fraterna, sobretudo franciscana, é Deus quem garante a minha forma de relação e me pede fidelidade. Diz S. Francisco no seu Testamento que “quando o Senhor me deu irmãos, ninguém me dizia o que eu devia fazer, mas o mesmo Senhor mo revelou através do santo Evangelho e eu assim o fiz escrever”. Que lugar ocupa o Evangelho na nossa vida e no nosso caminho com e para Deus?

(em breve a continuação)

08 setembro 2011

Varatojo: identidade cultural

TU ME CONHECES E SONDAS (2)
Continuamos as nossas partilhas do Retiro em Varatojo. Recordo que o que aqui se escreve é a minha releitura feita a partir dos apontamentos que fui anotando das conferências de Fr. Jaime ofm cap.
Ao iniciarmos mais um encontro fizemo-lo ao jeito de oração cantando: “O Senhor é a minha força, ao Senhor o meu canto, n’Ele está a salvação, n’Ele eu confio e nada temo”.
Voltámos então ao tema da IDENTIDADE, aquela que tem a sua raiz na memória (experiências da vida) e na fantasia (os nossos sonhos)
Vejamos agora o que diz respeito à IDENTIDADE CULTURAL:
Muitas são as circunstâncias da nossa vida que ao olhar-mos para nós mesmos e as nossas realidades nos recusamos a ver as nossas feridas. Muitas vezes ouvimos as pessoas dizer que são muito positivas e que o negativismo não as atinge. Na verdade não acredito que isto seja mesmo assim. Se ao olhar-mos para nós só vemos positivo pode ser por dois aspectos: ou verdadeiramente estão saradas e curadas todas as feridas que o tempo nos deixou ou então é porque não as queremos ver na realidade, como diz o nosso povo “o pior cego é aquele que não quer ver”. Nem sempre a nossa linguagem corresponde à nossa realidade vital. Talvez possamos recordar mais um velho dito popular: “muito bem prega frei Tomás, olha para o que ele diz e não para o que ele faz”. Por vezes todos nós somos assim, dizemos uma coisa mas a realidade é bem outra.
Nós cristãos, e aqui no caso, franciscanos, temos que ser os mestres capazes de curar feridas mas nem sempre temos as nossas curadas, somos acompanhantes – espiritualmente – de muitos irmãos mas nem sempre somos acompanhados ao mesmo nível.
Ao nível da nossa IDENTIDADE CULTURAL a primeira coisa que temos que ter em conta é a influência enorme que cada tempo, lugar, povo e cultura exerce sobre nós e a nossa forma de ser e estar, no fundo, a nossa identidade.
A sociedade vai-nos configurando, ainda que a critiquemos, ainda que a vejamos e digamos como algo mau, em crise, mas nós também nos deixamos enredar por ela e pelo materialismo e consumismo desenfreado da sociedade hodierna.
Vejamos três aspectos onde somos influenciados:
a)      Individualismo: Este é hoje muitas vezes proclamado como o cancro da sociedade.
Face a esta tendência do mundo actual, não podemos jamais esquecer que viver como irmãos é a opção clara da Vida Franciscana e não o individualismo. Viver esta Vida é viver em fraternidade de irmãos onde todos se devem sentir unidos no mesmo ideal, carisma e missão.
Ser indivíduo é ter identidade única e irrepetível. Somos únicos porque criados à imagem e semelhança de Deus e Deus não criou repetições. O ser único leva a que nos sintamos singulares na ordem da criação, a que sintamos que somos verdadeiramente importantes porque temos a certeza de que nunca houve, não há e jamais haverá alguém exactamente igual a nós. Nem os processos de clonagem poderão fazer uma tal façanha. Poderá a clonagem repetir traços físicos mas o nosso ser único implica muito mais que isso. Portanto somos seres de identidade única, indivíduos mas que são chamados a viver em relação com todos os outros indivíduos. Sem esta relação então aí sim, caímos no individualismo onde o indivíduo se reveste de negatividade porque se auto-exclui da relação com os outros.
O individualismo aparece então como um convite à auto-suficiência, à não necessidade de nada nem de ninguém e tantas vezes até prescindindo de si mesmo sem dar conta. Alguém que paute a sua existência por um individualismo, desta forma, acaba por se afastar do Deus que o criou, acaba por se sentir cada vez mais só na ordem do universo.
A individualidade é uma atitude sadia, é sã porque implica da parte do indivíduo uma grande maturidade humana e espiritual e um enorme conhecimento de si mesmo e da sua identidade.
No individualismo somos levados a crer que não necessitamos dos outros e tornamo-nos egoístas. De acordo com os estudiosos destas coisas esta é uma questão cultural que cada vez mais a todos nos afecta, como atrás referi.
Também a nível afectivo se passa o mesmo, queremos ser auto-suficientes, não precisamos de nada, de um gesto de confiança, de busca do outro, não precisamos sequer de uma sã inter-dependência tão natural quando existe maturidade humana.
Penso que o mundo actual deveria levar aos bancos das escolas e às estradas da vida, de forma muito amadurecida, a mensagem do Principezinho: “somos responsáveis por aqueles que cativamos”… “Se tu me cativares, eu preciso de ti e tu precisas de mim”… “passamos a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos” e bem lá no final “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante para ti”.
A cultua actual leva-nos cada vez mais a sermos uns sós no meio da multidão, uns sós porque não nos conhecemos, não nos relacionamos, não nos identificamos.
b)      O consumismo, como referimos, é a procura da auto-suficiência e pode ter por consequência a exclusão.
Noutros tempos falava-se de aforro, de juntar, amealhar, agora fala-se de consumir, gastar o que se tem e o que se não tem sob os auspícios de que se assim não for a economia não avança. Seria necessário que cada um de nós perguntasse a si mesmo se temos o que precisamos ou se temos mais do que precisamos. O consumismo leva-me ao encontro com o outro ou exclui-me da vida e do convívio com o outro?
A este respeito podemos recordar aquela história de um noviço que vai pedir a S. Francisco que, para rezar melhor e mais fervorosamente, Francisco lhe dê um Breviário (Livro da Liturgia das Horas), ao que Francisco lhe responde que não lho dá porque agora como noviço pede um Breviário mais tarde vai pedir mais e mais até chegar ao ponto em que mandará aos irmãos que lhe vão buscar o dito Breviário.
Ter as coisas, no sentido da pobreza franciscana, é não ter a posse das mesmas mas usá-las para louvor d’Aquele que tudo nos dá.
c)       Aborrecimento (tédio) espiritual
Uma das características também desta nossa cultura é tédio. À nossa volta parece não haver expectativas, esperanças, novidade ou garra para atingir objectivos. Vivemos num tempo e cultura em que impera o niilismo, o nada, cultura onde não espero nada de mim mesmo, da sociedade em crise, da Igreja, da Ordem, dos outros. É uma espécie de comodismo niilista que nos coloca diante da questão sobre a verdadeira auto-suficiência, ou não, de mim mesmo e dos outros. Tudo parece levar ao aborrecimento, ao tédio, ao vazio e à exclusão. Urge cada vez mais voltar aos valores que nos forem incutidos e que aprendemos provavelmente na nossa infância, os valores da família, do direito e do dever, da justiça e da verdade, da moral e da ética, do sentido do Sagrado em nós.
Teremos que nos questionar sobre o quanto há em mim de individualismo, comodismo, tédio. Que fazer face à realidade que me envolve? Que faço eu?
A alternativa a tudo isto é fugir do individualismo e procurar construir e viver a Fraternidade, sentir-se irmão de igual para igual, irmão do Homem e da Criação inteira. Neste viver a fraternidade e fraternidade cristã/franciscana temos que tem sempre como bastião uma clara opção pelos mais pobres, pelos sem vez nem voz, pelos marginalizados desta nossa sociedade e cultura. Às atitudes de exclusão temos que suplantar atitudes de inclusão que integrem o que somos diante do outro e de Deus.
Dizia o nosso orientador, Fr. Jaime, que quem não tem uma estrutura afectiva e amadurecida de inclusão, não pode ser Franciscano. Atitude amadurecida afectivamente que não leve a uma relação possessiva e exclusiva porque esta seria tudo menos Relação Fraterna.
d)      Contemplação
Outro aspecto importante a ter em conta nesta busca da nossa identidade cultural é o da contemplação. Hoje fala-se muito pouco do valor de contemplar, de silenciar os sentidos para experienciar, pelo olhar e pelo coração, a ternura e o afecto de Deus para connosco.
Muitas vezes se diz que contemplar é permanecer em silêncio e a rezar ou a fazer leitura espiritual. Não é que não o seja mas seria muito redutor olhar a contemplação apenas por este prisma.
Contemplar é uma atitude existencial onde descubro que sou capaz de admirar-me, surpreender-me positivamente face ao mundo do tédio que parece nada ter para me dar.
Nesta atitude de contemplar, a exemplo de Francisco de Assis, a par da oração íntima com Deus, o Irmão Menor (Franciscano) opta pela relação humana, pela atitude de inclusão como Cristo que nunca excluía e que é capaz de se contemplar e contemplar tudo o que o rodeia como dom de Deus. Contemplando a Criação – onde o Homem tem lugar privilegiado – Deus é contemplado e isso só existe na mais estrita intimidade oracional com Deus. Não são apenas as muitas orações, silêncios ou leituras que nos levam a uma contemplação espiritual, sobretudo se não levarmos, a esses momentos, os irmãos que o Senhor nos deu na sua realidade existencial.
Urge ver onde nos situamos, que pregamos aos outros com as palavras e se estas estão em consonância com a vida.
Por fim, Fr. Jaime, levantou três grandes questões pertinentes para a nossa reflexão:
1ª Estou bem comigo mesmo? E com os outros? Isto implica conhecimento e aceitação da minha realidade social e física. Há quem não goste de si, de como é física ou emocionalmente.
2.ª Tenho na minha vida experiências de amor incondicional? Alguém me conhece melhor que eu mesmo e me continua a amar ou há alguém que eu ame tal como é, sem restrições? Aqueles que me conhecem, se me conhecessem tal como sou, sem capas ou máscaras, continuariam a amar-me? Lembramos aqui um pai que tudo fez na vida pelo seu filho, que o ama incondicionalmente, e a quem este filho vem dizer que cometeu um crime, que está na droga, que tem sida ou outra doença que… continuará o pai a amá-lo incondicionalmente? Sem dúvida se na verdade o olhar como pai que é capaz de dar a vida. E se isso acontecesse connosco, com um amigo nosso, com um membro da nossa família ou comunidade? Que atitude teria eu?
3.ª Ao longo dos nossos dias procuramos fazer um projecto vocacional minimamente definido?
Eu que sou franciscano, sei por onde quero ir? Sei como quero ir e com quem no sentido de viver a vida de fraternidade como legado que Francisco de Assis nos deixou?
Um projecto de vida assim minimamente definido, não é algo eclético, super fechado que não permite mudanças de acordo com o senso comum e a vocação de cada irmão, algo tão sagrado para Francisco. Um projecto minimamente definido a partir da nossa identidade e do encontro com Deus e com os irmãos terá sempre, na perspectiva franciscana, que ser um projecto em construção com os outros na procura de responder aos apelos de Deus e à vocação que Deus dá a cada irmã porque todos somos diferentes nos carismas e nas capacidades e é tendo em atenção estes aspectos que Francisco tão marcadamente viveu e pediu que vivêssemos que deve ser vista a vocação e missão do Irmão Menor hoje.
(O pior é quando quem manda não tem atitudes de inclusão mas de exclusão, não olha a pessoa do irmão na sua individualidade e capacidade mas apenas os interesses provenientes de quem manda e como lhe dá mais jeito. Quantos exemplos destes encontramos na nossa vida e Vida Religiosa)

07 setembro 2011

Hábito Franciscano: 25 ANOS

Paz e bem a todos.


Queria ter já publicado mais algumas reflexões do nosso retiro mas ainda me não foi possível. Aos poucos aqui as publicarei depois de rezadas e reescritas a partir do que escrevi enquanto ouvia o nosso orientador partilhar do seu saber e espiritualidade.

Hoje não venho fazer eco de nenhuma dessas reflexões.

Quero deixar aqui a referência, neste dia 7, ao momento em que a Província Portuguesa da Ordem Franciscana assume comigo, e eu com ela, o compromisso de caminhar juntos no sentido de viver a Vocação Franciscana ao jeito de Francisco de Assis.

Porquê marcar este dia? Pois é, não o posso deixar passar porque faz hoje precisamente 25 anos que na Capela da Senhora do Sobreiro datada de 1777, onde se Venera uma pequena imagem encontrada por volta de 1474 dentro da cavidade de um sobreiro da mata do convento, eu tomei o Hábito de S. Francisco.

25 ANOS ENVERGANDO O HÁBITO que noutros tempos era de pobre burel, e CINGIDO COM O CORDÃO franciscano ostentando três nós que recordam os votos feitos ao Senhor de viver em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Essa Profissão Religiosa foi feita um ano depois, estaremos aqui dentro de um ano para recordar e rezar as Bodas de Prata da minha Profissão Religiosa.

Hoje quero recordar o dia, que era sempre tão esperado para os candidatos à Ordem, a tomada de hábito e entrada no Noviciado, o “ano da prova” como lhe chamava S. Francisco.

Apenas os Irmãos Franciscanos presentes, esta é por tradição uma celebração feita na intimidade da Fraternidade, a Capela velhinha ornamentada no seu altar lindíssimo, uma carpete vermelha no chão que fora já antes de outros chãos, cadeira frente ao Altar para o Ministro Provincial, ladeado dos mestres de formação anterior e o que iria receber os novos irmãos: Fr. Albertino da Silva Rodrigues, Fr. Joaquim Augusto Freitas e Fr. Anibal Augusto (este irmão abandonou a Vida Religiosa).

Vestidos com uma peça de roupa exterior – género de um casaco – ali estamos diante da Fraternidade. Era a Hora de Vésperas e as celebramos na simplicidade Franciscana mas com muito canto e alegria. Depois dos Salmos de Vésperas escutamos as palavras do Evangelho e a seguir as palavras de S: Francisco no que se refere à “nossa vida” e ao “ano de prova”. Terminam estes textos com a palavra de Francisco aos Ministros: “e depois de ditas todas estas coisas dêem-lhes o hábito da Ordem…”. E assim foi, os hábitos dobrados com o cordão em cima deles foram então benzidos pelo Ministro Provincial e um a um os entregou ao mestre de Noviciado e este ao nosso padrinho. Era tradição da Ordem – e este ano recuperou-se esta mesma tradição – que nós escolhêssemos um frade para ser o nosso padrinho, eu escolhi o amigo e irmão Fr. Carlos Santana. Era o padrinho que assumia caminhar connosco, rezar por nós e ajudar no que fosse pertinente na nossa caminhada franciscana.

Benzidos e entregues os hábitos ao padrinho, nós retirámos a veste simbólica que tínhamos vestida e o padrinho vestiu-nos o Hábito em forma de TAU, colocou o Capz lembrando as penas da irmã cotovia – assim o relatam os primeiros biógrafos de Francisco – e nos ajudava a cingir com o cordão franciscano onde se realçam os três nós como memória permanente dos Votos Religiosos.

Depois de revestidos com o Hábito de S. Francisco a Capela encheu-se de alegria no louvor ao Deus da Vocação e um por um os irmãos presentes acolhem com um enorme abraço os irmãos agora revestidos de Francisco.

Então, o mestre da formação entregou oficialmente os irmãos ao mestre de Noviços e assim se iniciou o noviciado no lindo e Real Convento de Varatojo.

Foi assim há 25 anos dia da minha tomada de Hábito e entrada no Noviciado.

Desde esse dia e até hoje, sempre que visto o Hábito de S. Francisco, sinto-me muito identificado com Francisco e toda a Ordem. Tenho sempre presente que vestido de Hábito não vou sozinho mas, neste sinal exterior, está toda a Ordem e a espiritualidade Franciscana.

Usar o Hábito é um momento de muito respeito e deve encher-nos de sentimentos cada vez mais Fraternos… “porque o Senhor me deu irmão”, assim o fez escrever S. Francisco.

Passados 25 anos louvo a Deus por tudo o que Ele realizou por mim e em mim.

30 agosto 2011

Varatojo: Realidade e identidade pessoal

TU ME SONDAS E CONHECES:
Este será o tema central das reflexões deste dia.
Iniciámos o dia com uma alusão, na Hora de Laudes, ao texto do Evangelho de Mt 16, 21-28: “Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me...”
Tomar a Cruz todos os dias? Grande desafio para o novo amanhecer, ter consciência de que seguir Jesus Cristo não é para facilidades, tem uma cruz como Ele teve a sua e nos desafia a carregá-la, não como sinal de sofrimento pelo sofrimento mas como expressão máxima do amor de Deus para connosco e do caminho de amor que fazemos com Jesus.
No final deste caminho perguntaremos como nos apresentamos nós diante de Deus? Habitualmente desejamos não nos apresentar diante de Deus com as mãos vazias, quase como paradigma de quem nada tem para lhe apresentar – qual administrador infiel – e tememos que Deus nos venha a punir por termos as mãos vazias. Mas será que ter mãos vazias é sempre sinal de má administração dos bens de Deus? Na perspectiva criastã, e aqui no caso Franciscana, estar diante de Deus de mãos vazias mais não deve significar que recebenmos bens da parte de Deus e os partilhámos com os demais, não aprisionámos tais bens somente para nós ou para os devolver a Deus com juros senão que os partilhámos na gratuidade com os outros a quem Deus nos envia. “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8).
É esta a perspectiva de Francisco de Assis que na primeira Regra nos faz referência a esta forma de ser e estar diante de Deus e uns dos outros na gratuidade (Cf. 1R 23). Isto leva-nos a dizer como Santa Teresa de Jesus: “nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta”.
1º ENCONTRO: A NOSSA REALIDADE E IDENTIDADE PESSOAL
Antes de mais é importante recordar que todo o Homem é um mistério e que por mais que queiramos entrar no seu mistério esse se nos depara como que oculto na medida em que eu só posso conhecer o outro e a sua realidade na medida em que ele me deixa entrar.
Não se trata de saber quem sou mas sim o que estou sendo. Este mistério da pessoa humana é o que podemos chamar de parte não esgotada da realidade que há em mim, algo que ainda não está completo em mim, que não conheço e que está em permanente descoberta existencial e neste sentido importa que cada um se redescubra a si mesmo face à realidade do que ele mesmo é e está sendo.
Existem variados conceitos para definir o ser humano, pensemos na arte, por exemplo, e na forma como hoje se pinta ou esculpe o homem.
Os filósofos, através das suas teorias, também procuram definir o ser humano como Freud que diz que “o homem é um meio de complexos e definições, o homem é insegurança”. Também Vich (não sei bem se é este o nome) refere que “o homem é poder, é super-homem” e ainda Nietzsche que diz que “dentro de cada um há um pequeno animal quando procura dominar e esmagar o outro”.
Quantas deixamos que estas teorias ou conceitos se façam sentir e influenciem a nossa Vida Religiosa? Parece um absurdo pensar desta forma mas não andaremos todos nós com medo de o pensar? Olhemos bem a nossa realidade e a daqueles que connosco vivem. Quantas vezes na vida fraterna o poder não é o do serviço do lava pés mas o do poder dominador, da posse sobre o outro, como se fosse uma coisa ou objecto. “compreendeis o que vos fiz – disse Jesus – se eu que sou mestre e Senhor vos lavei os pés, fazei-o vós também uns aos outros” (Jo 13, 14).
O homem é a capacidade de transformação permanente, de crescimento contínuo. Muitas vezes enchemos a boca com palavras sobre o que é a gratuidade, a entrega ao outro desinteressadamente mas na verdade à nossa volta tudo parece ser negociável até mesmo na nossa relação com Deus. Quantas vezes, sob a capa das nossas orações e devoções, dos nossos sacrifícios físicos e promessas várias, pensamos que estamos a viver uma profunda experiência de entrega a Deus e na verdade mais não estamos a fazer que negociar com Ele uma coisa que queremos ver realizada, independentemente de ser algo bom ou mau. E esta realidade podemos vê-la não só na nossa relação com os outros mas também muitas vezes ao nível da Vida Consagrada. Basta olhar para a forma como terminam a maior parte dos formulários que proferimos aquando da Profissão Religiosa, não terminam quese todos com algo parecido com: “se estas coisas observares, te prometo da parte de Deus a vida eterna”? Claro que temos muitos argumentos para justificar esta linguagem mas será que não parece aos olhos dos outros um negócio? Se deres a Deus isto tudo terás a vida eterna, se não deres terás a condenação.
Estes aspectos da nossa existência, em que tudo parece poder ser motivo de negociação a nosso belo prazer, leva a que alguém refira que o homem é um animal, é um lobo para os outros homens. Vivemos um tempo de dominismo (domínio), da evolução onde quem se adapta é o mais forte e os que não são capazes de se adaptar são excluídos de forma natural. É o tempo da lei do mais forte e da lei do mais fraco. O homem de hoje parece viver uma certa tendência para a animalizção em detrimento da humanização que torna o ser humano um par com os seus pares reconhecendo no outro os mesmos direitos e deveres que pretende lhe sejam reconhecidos.
A bondade, a ternura e o amor é o que nos diferencia dos animais, é o que nos deve fazer ir ao encontro do outro não para o usar e dominar mas para partilhar vida e afectos como testemunho do amor de Deus que eu vivo e sou.
Se estou indiferente ao sofrimento do meu irmão não estou a ser fiél à antropologia cristã que nos diz que o homem é imagem e semelhança de Deus (desde a sua orígem, Gn 1, 26), tema tão querido à Escola Franciscana sobretudo com S. Boaventura. A natureza humana é a bondade e a ternura que nos vem de Deus e que devemos elevar de novo a Deus num acto de louvor e gratidão. Nós somos assim como que a capacidade amorosa de Deus no mundo, somos relação de Deus junto dos outros como defende S. Agostinho. Nós somos a graça original e não o pecado original como princípio permanente. Não podemos insultar o Criador como fazem tantos movimentos religiosos que parece verem apenas no homem a sua condição de pecadores e esquecem a graça de Deus no homem pecador. Há que descobrir uma antropologia positiva porque eu sou centelha do amor infinito de Deus e não pecado, pecado, pecado...
A solidão e o encontro, tema sempre presente em ambientes de retiro, são duas faces que nos leva a encontrar com a nossa própria realidade, connosco mesmos, sem medo desse encontro íntimo e pessoal com a nossa realidade existencial. Se o não fizermos não teremos a capacidade de partilhar a nossa intimidade com o outro, logos continuaremos a perder o tempo de graça que Deus nos proporciona.
Surge aqui a questão sobre a qualidade da nossa relação com os outros. Falamos aos outros de nós mesmos ou das futilidades que nos envolvem como a moda, os preços, desporto...
Neste sentido devemos perguntar-nos sobre quem é o Homem para nós, para mim? Colocar esta questão é perguntar o que é que sou eu, é fazer perguntas acerca de mim mesmo o que implica que eu me abra a escutar-me, a conhecer-me bem.
Ao conhecer-me é importante levantar uma outra questão que é a do corpo e da alma, o que muda e o que permanece em nós. A minha identidade é o conjunto das experiências da minha vida que vão permanecendo em mim. Não se trata daquilo que eu sou mas sim do que estou sendo, não se trata de uma identidade estática que já está finalizada mas de uma identidade sempre em advir, dinâmica que se vai cinstruindo a partir da minha realidade existencial. Esta identidade implica:
a)      Memória afectiva: experiências e encontros que eu tive e que podem influenciar o meu futuro impulsionando-o ou bloqueando-o. Quem não se referiu já a algo, alguém ou algum momento como algo com valor afectivo? Pois é aí que reside parte desta memória.
b)      Fantasia: o que eu sonho para o meu futuro, os meus projectos, ambições e objectivos sem nunca esquecer que o futuro sou eu mesmo e que sou imprevisível na medida em que ainda não sou mas estou sendo.
A primeira grande experiência de Jesus é a da filiação e isto remete-nos para um Deus que é família, relação. Deus não bloqueia a nossa vida, Deus impulsiona-a. O homem é que se condiciona a si mesmo e à sua vida, condicionando a sua capacidade de sonhar, de voar, de ir sendo na relação com o outro.
Sem experiencias de encontros fortes não há nada pelo qual dar a vida, não há motivação para a partilha, não sei quem sou.
Que preço tem tudo o que fazemos? Que sentido tem tudo o que experienciamos na vida? Temos experiência de que nos amam pelo que somos ou pelo que parecemos?
Ao terminar este encontro perguntaremos afinal quem sou eu?
Quais as experiências fundantes, positivas e negativas, da minha vida?
Que sonhos, objectivos e caminhos desejo construir?
(continuaremos na próxima publicação o tema da identidade)

28 agosto 2011

Varatojo: do Serviço à Contemplação

 Mais uma vez o Real Convento de Varatojo acolhe os Irmãos da Província para o retiro anual. Este retiro reveste-se sempre de um cariz especial dado que é especialmente para os irmãos em formação inicial, irmãos de Portugal, Moçambique, Timor Leste, Cabo Verde e Brasil, irmãos que se preparam para tomar hábito e entrar no Noviciado, outros que terminam e farão a sua Profissão Religiosa e Franciscana e os que renovarão os seus Votos Religiosos. Outros irmãos sacerdotes e não sacerdotes participam também deste mesmo retiro para a sua formação permante, uma das grande opções da Ordem Franciscana.


Este ano orienta o mesmo um irmão nosso Franciscano Capuchinho, Frei Jaime, que vindo de Madrid aqui faz partilha da sua experiência e saber sobre a Vida Fraterna e Franciscana.
Nos próximos tempos aqui partilharei convosco, a exemplo dos anos anteriores, tudo aquilo que eu captei das suas exposições e ao mesmo tempo o que me fica da reflexão pessoal a partir das mesmas.
Por isso quero realçar que o que aqui partilhar não é “ipsis verbis” (tal qual) o que o nosso irmão disse mas o que eu captei, escrevi, rteflecti e reescrevi aqui.
Varatojo: do serviço à contemplação
Iniciámos o nosso retiro recordando João 13, 1+ com o texto do lava pés na Última Ceia. Coincidência este Evangelho foi o que eu escolhi para a celebração da minha Missa Nova.
Centrando-nos em todo o cenário que João nos apresenta, João convida-nos a fazer uma experiência de vida importante e fundante. Faz-nos um convite a que deixemos que Jesus nos lave os pés, algo que – tal como aconteceu com Pedro – parece absurdo e fora de tudo o que parece lógico, Cristo lavar-me os pés.
É interessante recuar ao capítulo 12 onde o Apóstolo já havia preparado este momento ao deixar que Maria, irmã de Lázaro, lhE lavasse os pés a Ele. Para Jesus este gesto não oferece problema algum na medida em que Ele bem sabe que Maria o faz com um amor incondicional, ela sente que não o poderá fazer no momento da despedida do Mestre amado e, por isso mesmo, escolhe este momento para lavar e ungir os pés do seu Senhor e Mestre. Quem ama deixa-se amar e retribui com o mesmo amor. Este gesto implica à partida uma grande humildade. A falta desta leva-nos ao orgulho e arrogância: “Tu não me lavarás os pés”. Vemos aqui provavelmente uma recusa impensada ao amor que nos amou primeiro, Jesus.
Assim, e de olhos postos neste cenário do lava pés, Fr. Jaime convida-nos a que façamos deste tempo um tempo da humildade e do amor no encontro com Cristo e com os outros, sem esquecer que para isso teremos que nos encontrar cada um consigo mesmo.
Que objectivos se poderão então traçar para estes dias de retiro? Muitos se poderiam enumerar mas, quiçá, continuariamos a repetir o mesmo de sempre. Assim somos convidados a que façamos deste tempo um tempo de prioridade neste encontro com o Mestre que nos serve com amor e nos convida a fazer o mesmo, “vistes o que vos fiz? Fazei vós também...”
Entretanto, o nosso orientador, quer realçar talvez três aspectos que nos podem ajudar a entender as prioridades de cada momento para quem se retira num lugar tão especial e espiritual como este em que nos encontramos:
  1. Olhar a própria história
Não se trata de olhar apenas esta minha história com tudo o que ela tem em si com o meu olhar mas olhá-la a partir do olhar de Deus.
S. Agostinho convida-nos sempre a entrar dentro para nos olharmos com os olhos de Deus, a partir de dentro, da nossa realidade concreta e não a partir apenas de aspectos exteriores.
Não se trata de fazer aquilo a que hoje se pode chamar de psico-terapia mas sim perceber se sou capaz de deixar que Deus me olhe e me ajude a olhar-me a mim. Este olhar leva-nos sempre ao Cristo da Cruz contudo, não podemos olhar a vida apenas a partir do peso da Cruz, isso seria mau, escândalo. Olhar sim para a Cruz mas como caminho de Glória como dizia S. Paulo “ai de mim gloriar-me a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”(Gal 6, 14).
Este olhar a partir de Deus é permitir que Deus entre na nossa vida e nos olhe com amor, com carinho, é deixar que Cristo nos toque até na sensibilidade da àgua e de tantas outras coisas onde Cristo está presente e S. Francisco o soube testemunhar de forma tão sublime eo ver e sentir Jesus em todas as coisas que o rodeavam e assim o fez escrever no belíssimo Cântico das Criaturas.
  1. Verificar a partir da experiência pessoal
A verificação é algo cada vez mais exigido pela ciência para demonstrar factos e/ou verdades de conhecimento. Sem experimentar verdadeiramento um estudo realizado não se pode afirmar que o resultado deste é digno de toda a fé, de toda a crença.
Também nós precisamos verificar o concreto da nossa vida a partir da nossa experiência pessoal, do que a nossa vida já nos demonstrou ser ou não ser, das coisas que vivemos e o que com elas aprendemos.
Hoje vivemos num tempo onde parece que todos percebem de tudo, todos opinam acerca de tudo, todos parecem ter solução para tudo mas na verdade, a maior parte das vezes, o que vemos é um desgaste da palavra, uma verborreia de vocábulos tantas vezes descontextualizados ou que não estão em consonância de verdade com o que vivemos realmente. Muitas vezes as opiniões que emitimos como nossas não passam de coisas que lemos, ouvimos ou “fantasiamos” mas que em nada se parecem com o que foi por nós verificado com a aprendizagem do nosso viver.
Não nos basta falar dos pobres e da opção que devemos fazer por eles, da fraternidade e do sentido de sermos irmão, da oração como encontro íntimo com Deus, da solidariedade com os mais frágeis da nossa sociedade, do sofrimento de Cristo, dos Votos Religiosos e por aí fora. Dizia que não nos basta falar apenas destas coisas tão bonitas e cada vez maos chavões que se repetem se nós não o fazemos a partir da nossa experiência pessoal, do que podemos afirmar ser um dado da minha história pessoal, daquilo que eu sou e vivo.
As experiências únicas da nossa vida são aquelas que mais nos marcaram e com as quais mais aprendemos e agora podemos testemunhar com verdade e autenticidade. Não serão meras palavras mas sim o testemunho fundamental e verdadeiro do que sou.
Aqui parece também surgir a grande questão sobre a importância de verificarmos todo o nosso discurso acerca da Vida religiosa e Franciscana, acerca da nossa experiência de Deus e do Seu olhar de Amor, acerca de nós mesmos e da realidade que somos diante de Deus, de nós mesmos e dos outros. Daqui passamos ao terceiro aspecto ou prioridade para estes dias:
  1. Tomar consciência de que este retiro é um tempo especial.
Retirar-se deve implicar à partida deixar todas as coisas que no dia a dia nos trazem ocupados para podermos olhar a nossa realidade a partir deste tempo de graça, tempo novo e que o nosso orientador chamou também de tempo afectivo porque me deixo olhar e amar por Deus retribuindo com o meu olhar de amor para com Deus. Este tempo não se mede pelo cronos – tempo físico dos nossos dias e horas – mas pelo tempo do olhar amoroso de Deus e esse não se mede com dias e horas. Quase me apetece recordar saint Exupery no seu livro “Petit Prince” aos dizer-nos que “o essencial é invisível aos olhos (humanos), só se vê bem com o coração”. E é ali no coração que Deus nos olha tal como somos, sem capas, sem falsidades, mas com verdade, é o tempo em que por mais que queiramos enganar Deus não o conseguimos fazer. Recordo a leitura que escutámos este Domingo “seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir...” (Jr 20, 7). Talvez esta expressão do profeta Jeremias nos ajude a reflectir sobre este coração onde Deus nos olha e ama e pede que O olhemos e amemos tal como somos, sem mentira e falsidade.
Perder tempo tão especial como este tempo afectivo de Deus e com Deus é mau, é negativo porque é perder um tempo de Graça, a Graça que Deus nos oferece viver. Diz o nosso orientador que, nesta linha de pensamento, quase poderíamos dizer que quem assim perde tão grande tempo afectivo não merece perdão, se não deixarmos Deus falar na maturidade do que somos enquanto Homens e enquanto Crentes.
Então este tempo afectivo do amor é o tempo do silêncio, não como uma forma de estar sem dizer palavras, não como um tempo em que por imposição (do retiro) se não possa dizer absolutamente nada. Este tempo terá que ser, para ser verdadeiramente afectivo, o tempo do silêncio da contemplação e para contemplar eu devo sentir a necessidade do silêncio de muitas palavras exteriores para poder estar à escuta da Palavra interior – Deus.
Falar pode ser um tempo bom, enriquecedor, se for feito de momentos de partilha do que celebramos, do que experienciamos, do que vivemos em Deus. Esta partilha leva-nos então ao encontro do outro que se silencia para me escutar e me permite silenciar para o escutar. Isto é uma forma de contemplação, como diria João Paulo II “olhos nos olhos, coração a coração”. Se assim entendermos o silêncio então falaremos não por falar, diremos palavras não apenas por dizer mas tudo o que for palavra será certamente silêncio contemplativo onde cada um procura o modo de viver e ter ouvidos interiores.
Terminou o nosso irmão Fr. Jaime por recordar que pelo facto deste retiro ter um tão grande números de irmãos em formação inicial, como referi no início, as suas partilhas farão sempre referência aos aspectos importantes da Vida Religiosa e Franciscana, como os Votos, tenso sempre como ponto de partida o Mestre Jesus Cristo que na Última Ceia lava os pés aos seus numa atitude de serviço, testemunho, missão e ao mesmo tempo de Francisco de Assis com tudo o que foi a sua experiência de vida fraterna com as suas alegrias e tristezas, luzes e sombras existenciais do seu peregrinar com os irmãos.

AVISO LEGAL – Procurarei fazer, neste blog, uma utilização cautelosa de textos, imagens, sons e outros dados, respeitando os direitos autoriais dos mesmos. Sempre que a legislação exigir, ou reclamados os referidos direitos de autor, procurarei prontamente respeitá-los, corrigindo informação ou retirando os mesmos do blog

 
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