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Senhor! Fazei-me instrumento da vossa paz!

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30 agosto 2011

Varatojo: Realidade e identidade pessoal

TU ME SONDAS E CONHECES:
Este será o tema central das reflexões deste dia.
Iniciámos o dia com uma alusão, na Hora de Laudes, ao texto do Evangelho de Mt 16, 21-28: “Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me...”
Tomar a Cruz todos os dias? Grande desafio para o novo amanhecer, ter consciência de que seguir Jesus Cristo não é para facilidades, tem uma cruz como Ele teve a sua e nos desafia a carregá-la, não como sinal de sofrimento pelo sofrimento mas como expressão máxima do amor de Deus para connosco e do caminho de amor que fazemos com Jesus.
No final deste caminho perguntaremos como nos apresentamos nós diante de Deus? Habitualmente desejamos não nos apresentar diante de Deus com as mãos vazias, quase como paradigma de quem nada tem para lhe apresentar – qual administrador infiel – e tememos que Deus nos venha a punir por termos as mãos vazias. Mas será que ter mãos vazias é sempre sinal de má administração dos bens de Deus? Na perspectiva criastã, e aqui no caso Franciscana, estar diante de Deus de mãos vazias mais não deve significar que recebenmos bens da parte de Deus e os partilhámos com os demais, não aprisionámos tais bens somente para nós ou para os devolver a Deus com juros senão que os partilhámos na gratuidade com os outros a quem Deus nos envia. “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8).
É esta a perspectiva de Francisco de Assis que na primeira Regra nos faz referência a esta forma de ser e estar diante de Deus e uns dos outros na gratuidade (Cf. 1R 23). Isto leva-nos a dizer como Santa Teresa de Jesus: “nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus basta”.
1º ENCONTRO: A NOSSA REALIDADE E IDENTIDADE PESSOAL
Antes de mais é importante recordar que todo o Homem é um mistério e que por mais que queiramos entrar no seu mistério esse se nos depara como que oculto na medida em que eu só posso conhecer o outro e a sua realidade na medida em que ele me deixa entrar.
Não se trata de saber quem sou mas sim o que estou sendo. Este mistério da pessoa humana é o que podemos chamar de parte não esgotada da realidade que há em mim, algo que ainda não está completo em mim, que não conheço e que está em permanente descoberta existencial e neste sentido importa que cada um se redescubra a si mesmo face à realidade do que ele mesmo é e está sendo.
Existem variados conceitos para definir o ser humano, pensemos na arte, por exemplo, e na forma como hoje se pinta ou esculpe o homem.
Os filósofos, através das suas teorias, também procuram definir o ser humano como Freud que diz que “o homem é um meio de complexos e definições, o homem é insegurança”. Também Vich (não sei bem se é este o nome) refere que “o homem é poder, é super-homem” e ainda Nietzsche que diz que “dentro de cada um há um pequeno animal quando procura dominar e esmagar o outro”.
Quantas deixamos que estas teorias ou conceitos se façam sentir e influenciem a nossa Vida Religiosa? Parece um absurdo pensar desta forma mas não andaremos todos nós com medo de o pensar? Olhemos bem a nossa realidade e a daqueles que connosco vivem. Quantas vezes na vida fraterna o poder não é o do serviço do lava pés mas o do poder dominador, da posse sobre o outro, como se fosse uma coisa ou objecto. “compreendeis o que vos fiz – disse Jesus – se eu que sou mestre e Senhor vos lavei os pés, fazei-o vós também uns aos outros” (Jo 13, 14).
O homem é a capacidade de transformação permanente, de crescimento contínuo. Muitas vezes enchemos a boca com palavras sobre o que é a gratuidade, a entrega ao outro desinteressadamente mas na verdade à nossa volta tudo parece ser negociável até mesmo na nossa relação com Deus. Quantas vezes, sob a capa das nossas orações e devoções, dos nossos sacrifícios físicos e promessas várias, pensamos que estamos a viver uma profunda experiência de entrega a Deus e na verdade mais não estamos a fazer que negociar com Ele uma coisa que queremos ver realizada, independentemente de ser algo bom ou mau. E esta realidade podemos vê-la não só na nossa relação com os outros mas também muitas vezes ao nível da Vida Consagrada. Basta olhar para a forma como terminam a maior parte dos formulários que proferimos aquando da Profissão Religiosa, não terminam quese todos com algo parecido com: “se estas coisas observares, te prometo da parte de Deus a vida eterna”? Claro que temos muitos argumentos para justificar esta linguagem mas será que não parece aos olhos dos outros um negócio? Se deres a Deus isto tudo terás a vida eterna, se não deres terás a condenação.
Estes aspectos da nossa existência, em que tudo parece poder ser motivo de negociação a nosso belo prazer, leva a que alguém refira que o homem é um animal, é um lobo para os outros homens. Vivemos um tempo de dominismo (domínio), da evolução onde quem se adapta é o mais forte e os que não são capazes de se adaptar são excluídos de forma natural. É o tempo da lei do mais forte e da lei do mais fraco. O homem de hoje parece viver uma certa tendência para a animalizção em detrimento da humanização que torna o ser humano um par com os seus pares reconhecendo no outro os mesmos direitos e deveres que pretende lhe sejam reconhecidos.
A bondade, a ternura e o amor é o que nos diferencia dos animais, é o que nos deve fazer ir ao encontro do outro não para o usar e dominar mas para partilhar vida e afectos como testemunho do amor de Deus que eu vivo e sou.
Se estou indiferente ao sofrimento do meu irmão não estou a ser fiél à antropologia cristã que nos diz que o homem é imagem e semelhança de Deus (desde a sua orígem, Gn 1, 26), tema tão querido à Escola Franciscana sobretudo com S. Boaventura. A natureza humana é a bondade e a ternura que nos vem de Deus e que devemos elevar de novo a Deus num acto de louvor e gratidão. Nós somos assim como que a capacidade amorosa de Deus no mundo, somos relação de Deus junto dos outros como defende S. Agostinho. Nós somos a graça original e não o pecado original como princípio permanente. Não podemos insultar o Criador como fazem tantos movimentos religiosos que parece verem apenas no homem a sua condição de pecadores e esquecem a graça de Deus no homem pecador. Há que descobrir uma antropologia positiva porque eu sou centelha do amor infinito de Deus e não pecado, pecado, pecado...
A solidão e o encontro, tema sempre presente em ambientes de retiro, são duas faces que nos leva a encontrar com a nossa própria realidade, connosco mesmos, sem medo desse encontro íntimo e pessoal com a nossa realidade existencial. Se o não fizermos não teremos a capacidade de partilhar a nossa intimidade com o outro, logos continuaremos a perder o tempo de graça que Deus nos proporciona.
Surge aqui a questão sobre a qualidade da nossa relação com os outros. Falamos aos outros de nós mesmos ou das futilidades que nos envolvem como a moda, os preços, desporto...
Neste sentido devemos perguntar-nos sobre quem é o Homem para nós, para mim? Colocar esta questão é perguntar o que é que sou eu, é fazer perguntas acerca de mim mesmo o que implica que eu me abra a escutar-me, a conhecer-me bem.
Ao conhecer-me é importante levantar uma outra questão que é a do corpo e da alma, o que muda e o que permanece em nós. A minha identidade é o conjunto das experiências da minha vida que vão permanecendo em mim. Não se trata daquilo que eu sou mas sim do que estou sendo, não se trata de uma identidade estática que já está finalizada mas de uma identidade sempre em advir, dinâmica que se vai cinstruindo a partir da minha realidade existencial. Esta identidade implica:
a)      Memória afectiva: experiências e encontros que eu tive e que podem influenciar o meu futuro impulsionando-o ou bloqueando-o. Quem não se referiu já a algo, alguém ou algum momento como algo com valor afectivo? Pois é aí que reside parte desta memória.
b)      Fantasia: o que eu sonho para o meu futuro, os meus projectos, ambições e objectivos sem nunca esquecer que o futuro sou eu mesmo e que sou imprevisível na medida em que ainda não sou mas estou sendo.
A primeira grande experiência de Jesus é a da filiação e isto remete-nos para um Deus que é família, relação. Deus não bloqueia a nossa vida, Deus impulsiona-a. O homem é que se condiciona a si mesmo e à sua vida, condicionando a sua capacidade de sonhar, de voar, de ir sendo na relação com o outro.
Sem experiencias de encontros fortes não há nada pelo qual dar a vida, não há motivação para a partilha, não sei quem sou.
Que preço tem tudo o que fazemos? Que sentido tem tudo o que experienciamos na vida? Temos experiência de que nos amam pelo que somos ou pelo que parecemos?
Ao terminar este encontro perguntaremos afinal quem sou eu?
Quais as experiências fundantes, positivas e negativas, da minha vida?
Que sonhos, objectivos e caminhos desejo construir?
(continuaremos na próxima publicação o tema da identidade)

5 comentários:

Nª Teresa disse...

Paz e bem FA,
De "mãos vazias" eu ouso me aproximar de Ti...
PREÇO, VALOR, sempre mereceram meio GRANDE devaneio e ATÉ CONCENTRAÇÃO!
Atenção, aceito que este filme só foi rodado durante minha juventude... Depois, sem menosprezar tudo o que aprendi, tenho arrumado numa "prateleira" cada vez mais ALTA... e creio que já perdi o norte "desse" armário...
Lindo é poder sonhar, voar, tudo isso que tão bem nos apresenta, FA...
Para Mª Teresa é só aceder (em sonho, obviamente) a uma viagem no TranSiberiano...
Mas sempre Te ter bem presente, ao longo do dia! Não sei se posso desprezar "tanto" luxo...

maresia disse...

Amigo este texto é um poço sem fundo.
Desde a reflexão sobre a Cruz, às "mãos vazias" ao exercício do poder dos "grandes" sobre os "pequenos"...
É um texto que merece uma reflexão mais profunda, pois implica olhar para Cristo e abraçar a Cruz que faz parte da minha vida, mas que não a carrego sozinha, ELE vai comigo...

Mª Teresa disse...

Paz e Bem, Família Retalhos 2,
... Todos NÓS somos criaturas que andam na Terra... todos nós carregamos nossos erros, nossos pecados... mas sempre engendro esta formosa composição: não "viramos" bonzinhos de supetão... Ele sempre reconhece passos dados por cada um, tantas vezes BEM pequeninos! Mesmo assim Ele Fica contente... Nós,sofrêgos, não temos sossego para aguardar mudanças, por vezes TÃO lentas! Mas Ele tem todo o Tempo do Mundo... Por isso aguarda que tudo se observe mesmo de mansinho!
Para Ele suspeito não vigora o ditado por minha avó bem repetido:"arrocho que nasce torto, tarde ou NUNCA se endireita!"

Mª Teresa disse...

FA, Paz E Bem!
Interrogo-me a partir de uma realidade que acabo de CONSTRUIR: cada criatura vai definindo a sua própria identidade... Mas há diferentes ritmos para o fazer? Duas criaturas podem cruzar-se quando atingem um estádio semelhante, mas se nos afastarmos um pouco, realizamos que suas constantes evoluções se dão a ritmos diversos...
Aí, a cautela pode ser "nosso amiga"!
Acho que vou abandonar TranSiberiano...

Mãe Lena disse...

Durante este mês de Agosto tenho acompanhado esta Família Retalhos, mas por questões de tecnologia não consegui deixar nenhuma mensagem. Sexta-feira ultrapassei isto e tentei dar o meu testemunho, mas só agora consigo publicá-lo:

Difícil esta caminhada de retiro, um assunto muito essencial à nossa vivência. Para mim, falta o ambiente desse magnífico convento, onde o ser e o estar implica o sentir, reflectir, chorar e rir. Sinto muita falta de um retiro franciscano… concordo com “maresia”, este texto é um poço sem fundo.

No cantinho da minha casa, lendo o teu testemunho, mergulho neste tema “Tu me sondas e conheces”. Leio e releio as tuas palavras, Frei Albertino, e canto baixinho “nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem, nada lhe falta, nada te perturbe, nada te falte, só Deus basta”.

Sim, só Deus basta. Estamos num mundo onde o homem acha-se “dono e senhor”da verdade esquecendo olhar e sentir o seu coração, naquele mistério vazio e cheio do Amor de Deus.

Sim, o homem condiciona a sua vida, a sua relação com o outro e consigo próprio, sem partilhar emoções e afectos, não se dá a conhecer, anda escondido atrás de uma imagem que quer e deseja que os outros vejam. Não sendo nós próprios, na essência mais pura, não somos amados pelo que somos, mas pelo que parecemos ser e, muitas vezes usados para alcançar coisas ou simplesmente porque temos “poder na sociedade”. Olhar para trás no nosso caminho e ver quem ainda está ao nosso lado, verdadeiro e entregue a nós, o que conseguimos construir juntos é uma benção de quem foi puro no seu caminhar.

Esta reflexão é muito importante para todos nós, realço o facto de ser um retiro frequentado por jovens a iniciar um caminho franciscano e também por irmãos Sacerdotes e não Sacerdotes. Que Deus vos acompanhe nesta caminhada para serem verdadeiros testemunhos e rostos de Deus, sendo construtivos e verdadeiros convosco próprios e com os outros.

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