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18 setembro 2011

Varatojo: Experiência de Deus (1)

3.º Encontro: A minha alma tem sede do Deus vivo (1)


(Na medida em que vou relendo o que escrevi, a partir das reflexões de Fr. Jaime - no retiro - aqui partilho a minha visão do tema, ou talvez a minha experiência. Algumas reflexões acabem por ficar longas e, por isso, as separo em duas partes)

O dia iniciou-se com a oração e reflexão do salmo 42 e uma vez mais a Oração de abandono de Charles de C.

“Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo! Quando poderei contemplar a face de Deus?”

Este Salmo 42, e a referida oração, remetem-nos para um encontro de intimidade. Somos levados a sentir uma imensa sede do Deus da Vida e mais ainda a querer encontrá-lO. O encontro íntimo com alguém, e aqui neste caso com Deus, será tão mais íntimo e profundo quanto maior for o desejo de que este venha a acontecer, este desejo que o salmista nos apresenta como uma sede tremenda de encontrar a água viva. Este trecho do Salmo toca sempre a alma de qualquer crente, de quem está em comunhão com o Criador, toca de forma muito especial a alma Lusa, ou a de quem do espírito da língua e cultura Lusa se deixa embrenhar, para recordar o sentimento tão nobre e que tão poucos povos sabem definir como nós o definimos: SAUDADE.

Ter saudade de Deus, desejar com todas as veras da alma e do corpo, como dizia S. Francisco, encontra-se com Ele, deliciar-se n’Ele, abandonar-se aos Seu Amor infinitamente misericordioso. “Quando poderei contemplar a face de Deus?”, poderíamos nós repetir em cada amanhecer. Quantas vezes já dissemos, a Deus, que temos sede d’Ele?

QUAL A MINHA EXPERIÊNCIA DE DEUS?

a) A primeira questão que se nos coloca é sobre a nossa experiencia de Deus. Se eu tiver que mostrar aos outros onde está e quem é o meu Deus, como o faria? Como revelaria, a quem questionar as razões da minha fé, o Deus da minha vida, de quem tenho sede e com quem vivo em permanente intimidade? Mais ainda, e como Franciscanos, que realce teria este meu testemunho para mostrar uma experiência de Deus na linha de uma espiritualidade e vida franciscana? O nosso Deus seria o Deus de Francisco de Assis a quem nos propomos seguir? Vivemos nós a espiritualidade do Poverello que nos obriga à relação íntima e profunda com Deus?

Uma experiência de Deus na perspectiva franciscana só é possível na vida fraterna, no convívio orante com os irmãos e no respeito pelo que cada um deles é diante de Deus: “Lembra-te, ó Homem, que vales muito aos olhos de Deus”, diria Francisco a quem o Senhor deu os irmãos que ele quer amar e respeitar porque são um dom do Amor. Caminhar e fazer experiência de Deus leva-me sempre ao caminho trilhado por cada Irmão Menor, na sua individualidade, na sua identidade própria, nos seus carismas que são o meio privilegiado para mostrar o Deus de quem tenho sede, o Deus me habita.

b) Passados oito séculos, ainda hoje se continua a olhar para Francisco de Assis como o “outro Cristo na terra”, dada a sua identificação tão forte com Jesus desde o mistério na Natividade, prolongada em Greccio, ao mistério do Calvário, experiência máxima, em Francisco, do Cristo Crucificado e que ele recebe no Monte Alverne, através dos Sagrados Estigmas, dois anos antes da sua morte.

Desta forma creio que seria bom recordar o quanto Francisco faz a experiência de Deus e de Jesus Cristo sempre a partir da opção pelo pobre: “Jesus quis viver vida de pobreza com Sua Santíssima Mãe”, dirá Francisco na Carta a toda Ordem. O Deus que Francisco experiencia ao longo da sua vida é o Deus que, em Jesus e Maria, se identifica com os mais humildes e pobres recordados no Magnificat: “olhou para a sua humilde Serva… exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens… acolheu Israel…”(Lc 1, 46-56). É desta forma que Francisco, nos seus escritos, nas regras, nas exortações e através dos seus biógrafos que nos testemunham o seu estilo de vida pobre e humilde, nos impele sempre o olhar o outro com um olhar como o de Jesus e Maria pobres e humildes, por amor dos mais pobres, o que leva verdadeiramente a que Francisco deixe muito claro que esta nova Ordem de Irmãos que o Senhor lhe deu se chame sempre Ordem dos Irmãos Menores.

c) Nesta experiência de Deus em perspectiva franciscana, a Fraternidade e ser irmão com os irmão é algo imperativo de ser vivido, como diria Francisco, “com todas as veras do nosso coração e da nossa alma”. Não existe experiência de Deus em Francisco e na vida franciscana sem que ela seja experiência de vida fraterna onde cada um sabe acolher, respeitar e amar o seu irmão. Viver uma experiência desta forma remete-nos de novo para a última ceia em S. João, desde o gesto de lavar os pés ao convite permanente de Cristo para que nos amemos uns aos outros, e sirvamos, como Ele nos amou e serviu até dar a vida por nós. Servir e amar o irmão é reconhecer nele um dom de Deus para mim, é aceitá-lo tal como ele é e fazer caminho fraterno com ele, perdoando-o nas suas fragilidades e ajudando-o no seu caminhar. É ao mesmo tempo reconhecer-me como irmão que também é dom para o outro e, por ele, deixar-me ser amado, ser perdoado e ser companheiro de jornada na estima recíproca e no sentido de quem faz cada dia um novo dia, como Francisco no-lo pediu à hora da morte: “Irmãos recomecemos, porque até agora nada fizemos de bom…”.

Francisco não teme deixar a mãe terra para ir ao encontro do Deus Criador e Amor. Francisco chega a pedir ao médico que o assiste, estando este renitente em lhe dizer que o resto da sua vida terrena não seria longo, que lhe diga o que tem de enfermidade e quanto tempo lhe resta de vida porque anseia ir ao encontro de Deus. Este mesmo sentimento o nutre interiormente e o manifesta já na Porciúncula, na hora da partida, exortando aos irmãos que não chorem por ele porque vai para Deus, tem sede de O ver. Acolher a Irmã Morte exortando os seus irmãos à vida fraterna, à intimidade com Deus e a liberdade das coisas deste mundo só é possível quando se tem uma experiência sedenta de Deus, do Deus vivo: “A minha alma tem sede de Vós…”.

Posto isto que acabámos de reflectir nas alíneas supra, podemos colocar a nós mesmos, e à Vida Religiosa, a questão sobre qual é a experiência de Deus que nós fazemos, onde a fazemos, com quem e como. E já agora como a testemunhamos à nossa volta, junto daqueles que nos questionam ou simplesmente nos olham com um olhar de quem tem sede de encontrar em nós o rosto de Deus.

Nos últimos a Vida Religiosa, como toda a Vocação aos Sagrados Ministérios, tem sofrido com a falta de vocações, com o elevado número de Religiosos, sacerdotes e demais Ministros com idade já avançada e também não menos importante com o desencanto, desalento ou desenamoramento dos mais jovens. Este é um tema sempre presente em momentos de retiro, reflexões ou simples diálogo entre irmãos. A sede de Deus é cada vez maior mas também parece ser cada vez maior o lugar humano onde podemos encontrar a Fonte que mana e corre, como diz o Salmista (Sl 36, 10).

Na formação para a Vida Consagrada este tema continua a ser pertinente na medida em que se procura encontrar a forma, ou o caminho, que leve os Consagrados a ter sede de Deus, do Deus vivo, do Deus da vida que chama, consagra e envia, o Deus que sacia a nossa sede de autenticidade na resposta fiel que lh’E damos. Na reflexão que se faz para encontrar um caminho formativo, para uma Vida Religiosa autêntica, pautado pela fidelidade ao carisma fundador e aos carismas como dom de Deus, parece cada vez mais claro que só encontraremos Deus através dos outros e na forma como vivemos e nos relacionamos com eles e, por eles, com Deus.

Recordando a reflexão feita pelo Fr. Jaime, a propósito do que atrás acabo de escrever, dizia ele que na formação a ministrar aos candidatos à Vida Religiosa, e Franciscana, se deveria ter em conta dois “problemas”, ou talvez lhe possamos chamar desafios formativos:

Abordar cara a cara, sem medo, as estruturas pelas quais nos regemos, e sublinhava o Frei, as estruturas AFECTIVAS. Questionar e questionarmo-nos sobre o que na verdade nos impede, no tempo actual, de viver o enamoramento para com Cristo, a realização dos verdadeiros projectos que Deus nos pede a cada um individualmente, tendo em conta os dons e carismas que cada um de nós recebeu, e tendo em conta a grande força que somos quando fraternamente os pomos todos ao serviço do mundo, da Igreja e dos irmãos. Questionar e questionarmo-nos face a fece e sem medo, sobre as nossas relações fraternas, como testemunho do já referido e manifestado por Jesus na última ceia. Sem afectos não há verdadeira relação humana e fraterna, sem esta relação fraterna, não pode haver relação íntima e amorosa com Deus porque "se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 19-21).

Esta é um problema do nosso tempo, cada vez mais temos convites que conduzem ao individualismo e menos à relação. Temos medo de enfrentar e confrontar as estruturas, algumas até “institucionalizadas”, de uma formação de outros tempos que ainda olham os afectos como um mal e um perigo e não um bem que pode e deve levar a crescer na maturidade do que somos enquanto seres chamados à relação. Temos medo de questionar e enfrentar estas estruturas, de intimidade amadurecida e autêntica, que querem constituir-se e amadurecer no caminhar com os irmãos e não de contornar aquilo de que tantas vezes se fala como perigo na nossa vida. Frei Jaime perguntava se nesta perspectiva nós temos medo dos Amigos íntimos ou do Amigos sinceros? É que muitas vezes fala-se da intimidade amadurecida como os “amigos íntimos” senão quando mesmo sob o nome de “amigos espirituais” para denotar tais expressões com o que é mau, imoral e condenatório em vez de valorizar uma das maiores características do ser humano que é ser em relação com o outro e com Deus.

S. Francisco de Assis viveu uma vida de intimidade profunda com Deus porque vivia a relação amadurecida e fraterna com os irmãos, com Clara e suas irmãs, não esquecendo a sua grande amiga Jacoba de Setesolli, que lhe levava doces e bolinhos e a quem ele permitia entrar no claustro dos irmãos, de tal forma foi esta amizade que hoje os restos mortais desta mulher/amiga repousam na mesma Cripta onde repousam os restos mortais de Francisco e seus primeiros companheiros, no Sacro Convento em Assis.

• A outra questão que Fr. Jaime realça, é esta mesma que temos estado a falar, a da nossa relação com Deus.

Recorda ele que por vezes, na formação, há uma preocupação desmesurada por passar horas em oração, ou melhor orações, mas sem nos preocuparmos com a qualidade dessas mesmas orações. Muitas orações pré-feitas, muitas devoções piedosas de livros ou pagelas, muitos silêncios contudo, que sentimos nós quando as fazemos/rezamos? Que experiência de Deus fazemos nós nos muitos silêncios sob a capa da oração e contemplação? Não, não se trata de desvalorizar aqui qualquer momento celebrativo, devoção ou oração, menos ainda de desvalorizar o silêncio de quem nele se entrega à contemplação e adoração do seu Senhor. Trata-se, isso sim, de reflectir sobre a qualidade destes momentos celebrativos e silenciosos diante de Deus.

Pode parecer estranho o que escrevo mas dou como exemplo dois testemunhos: por um lado irmãos temos, que passam o dia de Terço nas mãos, mesmo até enquanto se celebra a Eucaristia, mesmo até quando se servem à mesa, obrigando o Crucifixo a cair dentro da terrina da sopa ou na travessa, isto porque ainda não se rezaram não sei quantos Terços em honra da Virgem Maria. Em honra? Será?

Diria Deus, de nós, o que outrora disse ao Seu Povo através do profeta Isaías: “Este povo aproxima-se de mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro”. (Is 29, 13)

O outro exemplo que dou é o de santos religiosos que, depois de um dia de muito trabalho e em que não lhes foi possível ir ao Coro rezar com os irmãos os salmos da Liturgia das Horas, deambulam pelos corredores, claustro, capela ou quarto apenas para cumprir um preceito estabelecido. Será esta uma oração de qualidade? Será mais valiosa que as horas de serviço fraterno numa paróquia, instituição ou serviços mais humildes e fraternos de entrega na fidelidade à missão de amar e servir os irmãos, onde Deus, Cristo, Maria e os santos se sentem verdadeiramente honrados e glorificados.

Dentro disto, é mister que perguntemos também o que sentimos quando temos sede de Deus, quando no nosso dia-a-dia procuramos celebrar a Vida e a Fé com os irmãos e através dos irmãos até Deus, que sentimos quando reconhecemos que o outro, através da sua vida, testemunho, relação e partilha nos leva ao Deus que nos chama a amar o outro como a Si mesmo? “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. (Lc 10, 27)
Na vida fraterna, sobretudo franciscana, é Deus quem garante a minha forma de relação e me pede fidelidade. Diz S. Francisco no seu Testamento que “quando o Senhor me deu irmãos, ninguém me dizia o que eu devia fazer, mas o mesmo Senhor mo revelou através do santo Evangelho e eu assim o fiz escrever”. Que lugar ocupa o Evangelho na nossa vida e no nosso caminho com e para Deus?

(em breve a continuação)

08 setembro 2011

Varatojo: identidade cultural

TU ME CONHECES E SONDAS (2)
Continuamos as nossas partilhas do Retiro em Varatojo. Recordo que o que aqui se escreve é a minha releitura feita a partir dos apontamentos que fui anotando das conferências de Fr. Jaime ofm cap.
Ao iniciarmos mais um encontro fizemo-lo ao jeito de oração cantando: “O Senhor é a minha força, ao Senhor o meu canto, n’Ele está a salvação, n’Ele eu confio e nada temo”.
Voltámos então ao tema da IDENTIDADE, aquela que tem a sua raiz na memória (experiências da vida) e na fantasia (os nossos sonhos)
Vejamos agora o que diz respeito à IDENTIDADE CULTURAL:
Muitas são as circunstâncias da nossa vida que ao olhar-mos para nós mesmos e as nossas realidades nos recusamos a ver as nossas feridas. Muitas vezes ouvimos as pessoas dizer que são muito positivas e que o negativismo não as atinge. Na verdade não acredito que isto seja mesmo assim. Se ao olhar-mos para nós só vemos positivo pode ser por dois aspectos: ou verdadeiramente estão saradas e curadas todas as feridas que o tempo nos deixou ou então é porque não as queremos ver na realidade, como diz o nosso povo “o pior cego é aquele que não quer ver”. Nem sempre a nossa linguagem corresponde à nossa realidade vital. Talvez possamos recordar mais um velho dito popular: “muito bem prega frei Tomás, olha para o que ele diz e não para o que ele faz”. Por vezes todos nós somos assim, dizemos uma coisa mas a realidade é bem outra.
Nós cristãos, e aqui no caso, franciscanos, temos que ser os mestres capazes de curar feridas mas nem sempre temos as nossas curadas, somos acompanhantes – espiritualmente – de muitos irmãos mas nem sempre somos acompanhados ao mesmo nível.
Ao nível da nossa IDENTIDADE CULTURAL a primeira coisa que temos que ter em conta é a influência enorme que cada tempo, lugar, povo e cultura exerce sobre nós e a nossa forma de ser e estar, no fundo, a nossa identidade.
A sociedade vai-nos configurando, ainda que a critiquemos, ainda que a vejamos e digamos como algo mau, em crise, mas nós também nos deixamos enredar por ela e pelo materialismo e consumismo desenfreado da sociedade hodierna.
Vejamos três aspectos onde somos influenciados:
a)      Individualismo: Este é hoje muitas vezes proclamado como o cancro da sociedade.
Face a esta tendência do mundo actual, não podemos jamais esquecer que viver como irmãos é a opção clara da Vida Franciscana e não o individualismo. Viver esta Vida é viver em fraternidade de irmãos onde todos se devem sentir unidos no mesmo ideal, carisma e missão.
Ser indivíduo é ter identidade única e irrepetível. Somos únicos porque criados à imagem e semelhança de Deus e Deus não criou repetições. O ser único leva a que nos sintamos singulares na ordem da criação, a que sintamos que somos verdadeiramente importantes porque temos a certeza de que nunca houve, não há e jamais haverá alguém exactamente igual a nós. Nem os processos de clonagem poderão fazer uma tal façanha. Poderá a clonagem repetir traços físicos mas o nosso ser único implica muito mais que isso. Portanto somos seres de identidade única, indivíduos mas que são chamados a viver em relação com todos os outros indivíduos. Sem esta relação então aí sim, caímos no individualismo onde o indivíduo se reveste de negatividade porque se auto-exclui da relação com os outros.
O individualismo aparece então como um convite à auto-suficiência, à não necessidade de nada nem de ninguém e tantas vezes até prescindindo de si mesmo sem dar conta. Alguém que paute a sua existência por um individualismo, desta forma, acaba por se afastar do Deus que o criou, acaba por se sentir cada vez mais só na ordem do universo.
A individualidade é uma atitude sadia, é sã porque implica da parte do indivíduo uma grande maturidade humana e espiritual e um enorme conhecimento de si mesmo e da sua identidade.
No individualismo somos levados a crer que não necessitamos dos outros e tornamo-nos egoístas. De acordo com os estudiosos destas coisas esta é uma questão cultural que cada vez mais a todos nos afecta, como atrás referi.
Também a nível afectivo se passa o mesmo, queremos ser auto-suficientes, não precisamos de nada, de um gesto de confiança, de busca do outro, não precisamos sequer de uma sã inter-dependência tão natural quando existe maturidade humana.
Penso que o mundo actual deveria levar aos bancos das escolas e às estradas da vida, de forma muito amadurecida, a mensagem do Principezinho: “somos responsáveis por aqueles que cativamos”… “Se tu me cativares, eu preciso de ti e tu precisas de mim”… “passamos a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos” e bem lá no final “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante para ti”.
A cultua actual leva-nos cada vez mais a sermos uns sós no meio da multidão, uns sós porque não nos conhecemos, não nos relacionamos, não nos identificamos.
b)      O consumismo, como referimos, é a procura da auto-suficiência e pode ter por consequência a exclusão.
Noutros tempos falava-se de aforro, de juntar, amealhar, agora fala-se de consumir, gastar o que se tem e o que se não tem sob os auspícios de que se assim não for a economia não avança. Seria necessário que cada um de nós perguntasse a si mesmo se temos o que precisamos ou se temos mais do que precisamos. O consumismo leva-me ao encontro com o outro ou exclui-me da vida e do convívio com o outro?
A este respeito podemos recordar aquela história de um noviço que vai pedir a S. Francisco que, para rezar melhor e mais fervorosamente, Francisco lhe dê um Breviário (Livro da Liturgia das Horas), ao que Francisco lhe responde que não lho dá porque agora como noviço pede um Breviário mais tarde vai pedir mais e mais até chegar ao ponto em que mandará aos irmãos que lhe vão buscar o dito Breviário.
Ter as coisas, no sentido da pobreza franciscana, é não ter a posse das mesmas mas usá-las para louvor d’Aquele que tudo nos dá.
c)       Aborrecimento (tédio) espiritual
Uma das características também desta nossa cultura é tédio. À nossa volta parece não haver expectativas, esperanças, novidade ou garra para atingir objectivos. Vivemos num tempo e cultura em que impera o niilismo, o nada, cultura onde não espero nada de mim mesmo, da sociedade em crise, da Igreja, da Ordem, dos outros. É uma espécie de comodismo niilista que nos coloca diante da questão sobre a verdadeira auto-suficiência, ou não, de mim mesmo e dos outros. Tudo parece levar ao aborrecimento, ao tédio, ao vazio e à exclusão. Urge cada vez mais voltar aos valores que nos forem incutidos e que aprendemos provavelmente na nossa infância, os valores da família, do direito e do dever, da justiça e da verdade, da moral e da ética, do sentido do Sagrado em nós.
Teremos que nos questionar sobre o quanto há em mim de individualismo, comodismo, tédio. Que fazer face à realidade que me envolve? Que faço eu?
A alternativa a tudo isto é fugir do individualismo e procurar construir e viver a Fraternidade, sentir-se irmão de igual para igual, irmão do Homem e da Criação inteira. Neste viver a fraternidade e fraternidade cristã/franciscana temos que tem sempre como bastião uma clara opção pelos mais pobres, pelos sem vez nem voz, pelos marginalizados desta nossa sociedade e cultura. Às atitudes de exclusão temos que suplantar atitudes de inclusão que integrem o que somos diante do outro e de Deus.
Dizia o nosso orientador, Fr. Jaime, que quem não tem uma estrutura afectiva e amadurecida de inclusão, não pode ser Franciscano. Atitude amadurecida afectivamente que não leve a uma relação possessiva e exclusiva porque esta seria tudo menos Relação Fraterna.
d)      Contemplação
Outro aspecto importante a ter em conta nesta busca da nossa identidade cultural é o da contemplação. Hoje fala-se muito pouco do valor de contemplar, de silenciar os sentidos para experienciar, pelo olhar e pelo coração, a ternura e o afecto de Deus para connosco.
Muitas vezes se diz que contemplar é permanecer em silêncio e a rezar ou a fazer leitura espiritual. Não é que não o seja mas seria muito redutor olhar a contemplação apenas por este prisma.
Contemplar é uma atitude existencial onde descubro que sou capaz de admirar-me, surpreender-me positivamente face ao mundo do tédio que parece nada ter para me dar.
Nesta atitude de contemplar, a exemplo de Francisco de Assis, a par da oração íntima com Deus, o Irmão Menor (Franciscano) opta pela relação humana, pela atitude de inclusão como Cristo que nunca excluía e que é capaz de se contemplar e contemplar tudo o que o rodeia como dom de Deus. Contemplando a Criação – onde o Homem tem lugar privilegiado – Deus é contemplado e isso só existe na mais estrita intimidade oracional com Deus. Não são apenas as muitas orações, silêncios ou leituras que nos levam a uma contemplação espiritual, sobretudo se não levarmos, a esses momentos, os irmãos que o Senhor nos deu na sua realidade existencial.
Urge ver onde nos situamos, que pregamos aos outros com as palavras e se estas estão em consonância com a vida.
Por fim, Fr. Jaime, levantou três grandes questões pertinentes para a nossa reflexão:
1ª Estou bem comigo mesmo? E com os outros? Isto implica conhecimento e aceitação da minha realidade social e física. Há quem não goste de si, de como é física ou emocionalmente.
2.ª Tenho na minha vida experiências de amor incondicional? Alguém me conhece melhor que eu mesmo e me continua a amar ou há alguém que eu ame tal como é, sem restrições? Aqueles que me conhecem, se me conhecessem tal como sou, sem capas ou máscaras, continuariam a amar-me? Lembramos aqui um pai que tudo fez na vida pelo seu filho, que o ama incondicionalmente, e a quem este filho vem dizer que cometeu um crime, que está na droga, que tem sida ou outra doença que… continuará o pai a amá-lo incondicionalmente? Sem dúvida se na verdade o olhar como pai que é capaz de dar a vida. E se isso acontecesse connosco, com um amigo nosso, com um membro da nossa família ou comunidade? Que atitude teria eu?
3.ª Ao longo dos nossos dias procuramos fazer um projecto vocacional minimamente definido?
Eu que sou franciscano, sei por onde quero ir? Sei como quero ir e com quem no sentido de viver a vida de fraternidade como legado que Francisco de Assis nos deixou?
Um projecto de vida assim minimamente definido, não é algo eclético, super fechado que não permite mudanças de acordo com o senso comum e a vocação de cada irmão, algo tão sagrado para Francisco. Um projecto minimamente definido a partir da nossa identidade e do encontro com Deus e com os irmãos terá sempre, na perspectiva franciscana, que ser um projecto em construção com os outros na procura de responder aos apelos de Deus e à vocação que Deus dá a cada irmã porque todos somos diferentes nos carismas e nas capacidades e é tendo em atenção estes aspectos que Francisco tão marcadamente viveu e pediu que vivêssemos que deve ser vista a vocação e missão do Irmão Menor hoje.
(O pior é quando quem manda não tem atitudes de inclusão mas de exclusão, não olha a pessoa do irmão na sua individualidade e capacidade mas apenas os interesses provenientes de quem manda e como lhe dá mais jeito. Quantos exemplos destes encontramos na nossa vida e Vida Religiosa)

07 setembro 2011

Hábito Franciscano: 25 ANOS

Paz e bem a todos.


Queria ter já publicado mais algumas reflexões do nosso retiro mas ainda me não foi possível. Aos poucos aqui as publicarei depois de rezadas e reescritas a partir do que escrevi enquanto ouvia o nosso orientador partilhar do seu saber e espiritualidade.

Hoje não venho fazer eco de nenhuma dessas reflexões.

Quero deixar aqui a referência, neste dia 7, ao momento em que a Província Portuguesa da Ordem Franciscana assume comigo, e eu com ela, o compromisso de caminhar juntos no sentido de viver a Vocação Franciscana ao jeito de Francisco de Assis.

Porquê marcar este dia? Pois é, não o posso deixar passar porque faz hoje precisamente 25 anos que na Capela da Senhora do Sobreiro datada de 1777, onde se Venera uma pequena imagem encontrada por volta de 1474 dentro da cavidade de um sobreiro da mata do convento, eu tomei o Hábito de S. Francisco.

25 ANOS ENVERGANDO O HÁBITO que noutros tempos era de pobre burel, e CINGIDO COM O CORDÃO franciscano ostentando três nós que recordam os votos feitos ao Senhor de viver em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Essa Profissão Religiosa foi feita um ano depois, estaremos aqui dentro de um ano para recordar e rezar as Bodas de Prata da minha Profissão Religiosa.

Hoje quero recordar o dia, que era sempre tão esperado para os candidatos à Ordem, a tomada de hábito e entrada no Noviciado, o “ano da prova” como lhe chamava S. Francisco.

Apenas os Irmãos Franciscanos presentes, esta é por tradição uma celebração feita na intimidade da Fraternidade, a Capela velhinha ornamentada no seu altar lindíssimo, uma carpete vermelha no chão que fora já antes de outros chãos, cadeira frente ao Altar para o Ministro Provincial, ladeado dos mestres de formação anterior e o que iria receber os novos irmãos: Fr. Albertino da Silva Rodrigues, Fr. Joaquim Augusto Freitas e Fr. Anibal Augusto (este irmão abandonou a Vida Religiosa).

Vestidos com uma peça de roupa exterior – género de um casaco – ali estamos diante da Fraternidade. Era a Hora de Vésperas e as celebramos na simplicidade Franciscana mas com muito canto e alegria. Depois dos Salmos de Vésperas escutamos as palavras do Evangelho e a seguir as palavras de S: Francisco no que se refere à “nossa vida” e ao “ano de prova”. Terminam estes textos com a palavra de Francisco aos Ministros: “e depois de ditas todas estas coisas dêem-lhes o hábito da Ordem…”. E assim foi, os hábitos dobrados com o cordão em cima deles foram então benzidos pelo Ministro Provincial e um a um os entregou ao mestre de Noviciado e este ao nosso padrinho. Era tradição da Ordem – e este ano recuperou-se esta mesma tradição – que nós escolhêssemos um frade para ser o nosso padrinho, eu escolhi o amigo e irmão Fr. Carlos Santana. Era o padrinho que assumia caminhar connosco, rezar por nós e ajudar no que fosse pertinente na nossa caminhada franciscana.

Benzidos e entregues os hábitos ao padrinho, nós retirámos a veste simbólica que tínhamos vestida e o padrinho vestiu-nos o Hábito em forma de TAU, colocou o Capz lembrando as penas da irmã cotovia – assim o relatam os primeiros biógrafos de Francisco – e nos ajudava a cingir com o cordão franciscano onde se realçam os três nós como memória permanente dos Votos Religiosos.

Depois de revestidos com o Hábito de S. Francisco a Capela encheu-se de alegria no louvor ao Deus da Vocação e um por um os irmãos presentes acolhem com um enorme abraço os irmãos agora revestidos de Francisco.

Então, o mestre da formação entregou oficialmente os irmãos ao mestre de Noviços e assim se iniciou o noviciado no lindo e Real Convento de Varatojo.

Foi assim há 25 anos dia da minha tomada de Hábito e entrada no Noviciado.

Desde esse dia e até hoje, sempre que visto o Hábito de S. Francisco, sinto-me muito identificado com Francisco e toda a Ordem. Tenho sempre presente que vestido de Hábito não vou sozinho mas, neste sinal exterior, está toda a Ordem e a espiritualidade Franciscana.

Usar o Hábito é um momento de muito respeito e deve encher-nos de sentimentos cada vez mais Fraternos… “porque o Senhor me deu irmão”, assim o fez escrever S. Francisco.

Passados 25 anos louvo a Deus por tudo o que Ele realizou por mim e em mim.

AVISO LEGAL – Procurarei fazer, neste blog, uma utilização cautelosa de textos, imagens, sons e outros dados, respeitando os direitos autoriais dos mesmos. Sempre que a legislação exigir, ou reclamados os referidos direitos de autor, procurarei prontamente respeitá-los, corrigindo informação ou retirando os mesmos do blog

 
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