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Senhor! Fazei-me instrumento da vossa paz!

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18 setembro 2011

Varatojo: Experiência de Deus (1)

3.º Encontro: A minha alma tem sede do Deus vivo (1)


(Na medida em que vou relendo o que escrevi, a partir das reflexões de Fr. Jaime - no retiro - aqui partilho a minha visão do tema, ou talvez a minha experiência. Algumas reflexões acabem por ficar longas e, por isso, as separo em duas partes)

O dia iniciou-se com a oração e reflexão do salmo 42 e uma vez mais a Oração de abandono de Charles de C.

“Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo! Quando poderei contemplar a face de Deus?”

Este Salmo 42, e a referida oração, remetem-nos para um encontro de intimidade. Somos levados a sentir uma imensa sede do Deus da Vida e mais ainda a querer encontrá-lO. O encontro íntimo com alguém, e aqui neste caso com Deus, será tão mais íntimo e profundo quanto maior for o desejo de que este venha a acontecer, este desejo que o salmista nos apresenta como uma sede tremenda de encontrar a água viva. Este trecho do Salmo toca sempre a alma de qualquer crente, de quem está em comunhão com o Criador, toca de forma muito especial a alma Lusa, ou a de quem do espírito da língua e cultura Lusa se deixa embrenhar, para recordar o sentimento tão nobre e que tão poucos povos sabem definir como nós o definimos: SAUDADE.

Ter saudade de Deus, desejar com todas as veras da alma e do corpo, como dizia S. Francisco, encontra-se com Ele, deliciar-se n’Ele, abandonar-se aos Seu Amor infinitamente misericordioso. “Quando poderei contemplar a face de Deus?”, poderíamos nós repetir em cada amanhecer. Quantas vezes já dissemos, a Deus, que temos sede d’Ele?

QUAL A MINHA EXPERIÊNCIA DE DEUS?

a) A primeira questão que se nos coloca é sobre a nossa experiencia de Deus. Se eu tiver que mostrar aos outros onde está e quem é o meu Deus, como o faria? Como revelaria, a quem questionar as razões da minha fé, o Deus da minha vida, de quem tenho sede e com quem vivo em permanente intimidade? Mais ainda, e como Franciscanos, que realce teria este meu testemunho para mostrar uma experiência de Deus na linha de uma espiritualidade e vida franciscana? O nosso Deus seria o Deus de Francisco de Assis a quem nos propomos seguir? Vivemos nós a espiritualidade do Poverello que nos obriga à relação íntima e profunda com Deus?

Uma experiência de Deus na perspectiva franciscana só é possível na vida fraterna, no convívio orante com os irmãos e no respeito pelo que cada um deles é diante de Deus: “Lembra-te, ó Homem, que vales muito aos olhos de Deus”, diria Francisco a quem o Senhor deu os irmãos que ele quer amar e respeitar porque são um dom do Amor. Caminhar e fazer experiência de Deus leva-me sempre ao caminho trilhado por cada Irmão Menor, na sua individualidade, na sua identidade própria, nos seus carismas que são o meio privilegiado para mostrar o Deus de quem tenho sede, o Deus me habita.

b) Passados oito séculos, ainda hoje se continua a olhar para Francisco de Assis como o “outro Cristo na terra”, dada a sua identificação tão forte com Jesus desde o mistério na Natividade, prolongada em Greccio, ao mistério do Calvário, experiência máxima, em Francisco, do Cristo Crucificado e que ele recebe no Monte Alverne, através dos Sagrados Estigmas, dois anos antes da sua morte.

Desta forma creio que seria bom recordar o quanto Francisco faz a experiência de Deus e de Jesus Cristo sempre a partir da opção pelo pobre: “Jesus quis viver vida de pobreza com Sua Santíssima Mãe”, dirá Francisco na Carta a toda Ordem. O Deus que Francisco experiencia ao longo da sua vida é o Deus que, em Jesus e Maria, se identifica com os mais humildes e pobres recordados no Magnificat: “olhou para a sua humilde Serva… exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens… acolheu Israel…”(Lc 1, 46-56). É desta forma que Francisco, nos seus escritos, nas regras, nas exortações e através dos seus biógrafos que nos testemunham o seu estilo de vida pobre e humilde, nos impele sempre o olhar o outro com um olhar como o de Jesus e Maria pobres e humildes, por amor dos mais pobres, o que leva verdadeiramente a que Francisco deixe muito claro que esta nova Ordem de Irmãos que o Senhor lhe deu se chame sempre Ordem dos Irmãos Menores.

c) Nesta experiência de Deus em perspectiva franciscana, a Fraternidade e ser irmão com os irmão é algo imperativo de ser vivido, como diria Francisco, “com todas as veras do nosso coração e da nossa alma”. Não existe experiência de Deus em Francisco e na vida franciscana sem que ela seja experiência de vida fraterna onde cada um sabe acolher, respeitar e amar o seu irmão. Viver uma experiência desta forma remete-nos de novo para a última ceia em S. João, desde o gesto de lavar os pés ao convite permanente de Cristo para que nos amemos uns aos outros, e sirvamos, como Ele nos amou e serviu até dar a vida por nós. Servir e amar o irmão é reconhecer nele um dom de Deus para mim, é aceitá-lo tal como ele é e fazer caminho fraterno com ele, perdoando-o nas suas fragilidades e ajudando-o no seu caminhar. É ao mesmo tempo reconhecer-me como irmão que também é dom para o outro e, por ele, deixar-me ser amado, ser perdoado e ser companheiro de jornada na estima recíproca e no sentido de quem faz cada dia um novo dia, como Francisco no-lo pediu à hora da morte: “Irmãos recomecemos, porque até agora nada fizemos de bom…”.

Francisco não teme deixar a mãe terra para ir ao encontro do Deus Criador e Amor. Francisco chega a pedir ao médico que o assiste, estando este renitente em lhe dizer que o resto da sua vida terrena não seria longo, que lhe diga o que tem de enfermidade e quanto tempo lhe resta de vida porque anseia ir ao encontro de Deus. Este mesmo sentimento o nutre interiormente e o manifesta já na Porciúncula, na hora da partida, exortando aos irmãos que não chorem por ele porque vai para Deus, tem sede de O ver. Acolher a Irmã Morte exortando os seus irmãos à vida fraterna, à intimidade com Deus e a liberdade das coisas deste mundo só é possível quando se tem uma experiência sedenta de Deus, do Deus vivo: “A minha alma tem sede de Vós…”.

Posto isto que acabámos de reflectir nas alíneas supra, podemos colocar a nós mesmos, e à Vida Religiosa, a questão sobre qual é a experiência de Deus que nós fazemos, onde a fazemos, com quem e como. E já agora como a testemunhamos à nossa volta, junto daqueles que nos questionam ou simplesmente nos olham com um olhar de quem tem sede de encontrar em nós o rosto de Deus.

Nos últimos a Vida Religiosa, como toda a Vocação aos Sagrados Ministérios, tem sofrido com a falta de vocações, com o elevado número de Religiosos, sacerdotes e demais Ministros com idade já avançada e também não menos importante com o desencanto, desalento ou desenamoramento dos mais jovens. Este é um tema sempre presente em momentos de retiro, reflexões ou simples diálogo entre irmãos. A sede de Deus é cada vez maior mas também parece ser cada vez maior o lugar humano onde podemos encontrar a Fonte que mana e corre, como diz o Salmista (Sl 36, 10).

Na formação para a Vida Consagrada este tema continua a ser pertinente na medida em que se procura encontrar a forma, ou o caminho, que leve os Consagrados a ter sede de Deus, do Deus vivo, do Deus da vida que chama, consagra e envia, o Deus que sacia a nossa sede de autenticidade na resposta fiel que lh’E damos. Na reflexão que se faz para encontrar um caminho formativo, para uma Vida Religiosa autêntica, pautado pela fidelidade ao carisma fundador e aos carismas como dom de Deus, parece cada vez mais claro que só encontraremos Deus através dos outros e na forma como vivemos e nos relacionamos com eles e, por eles, com Deus.

Recordando a reflexão feita pelo Fr. Jaime, a propósito do que atrás acabo de escrever, dizia ele que na formação a ministrar aos candidatos à Vida Religiosa, e Franciscana, se deveria ter em conta dois “problemas”, ou talvez lhe possamos chamar desafios formativos:

Abordar cara a cara, sem medo, as estruturas pelas quais nos regemos, e sublinhava o Frei, as estruturas AFECTIVAS. Questionar e questionarmo-nos sobre o que na verdade nos impede, no tempo actual, de viver o enamoramento para com Cristo, a realização dos verdadeiros projectos que Deus nos pede a cada um individualmente, tendo em conta os dons e carismas que cada um de nós recebeu, e tendo em conta a grande força que somos quando fraternamente os pomos todos ao serviço do mundo, da Igreja e dos irmãos. Questionar e questionarmo-nos face a fece e sem medo, sobre as nossas relações fraternas, como testemunho do já referido e manifestado por Jesus na última ceia. Sem afectos não há verdadeira relação humana e fraterna, sem esta relação fraterna, não pode haver relação íntima e amorosa com Deus porque "se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 19-21).

Esta é um problema do nosso tempo, cada vez mais temos convites que conduzem ao individualismo e menos à relação. Temos medo de enfrentar e confrontar as estruturas, algumas até “institucionalizadas”, de uma formação de outros tempos que ainda olham os afectos como um mal e um perigo e não um bem que pode e deve levar a crescer na maturidade do que somos enquanto seres chamados à relação. Temos medo de questionar e enfrentar estas estruturas, de intimidade amadurecida e autêntica, que querem constituir-se e amadurecer no caminhar com os irmãos e não de contornar aquilo de que tantas vezes se fala como perigo na nossa vida. Frei Jaime perguntava se nesta perspectiva nós temos medo dos Amigos íntimos ou do Amigos sinceros? É que muitas vezes fala-se da intimidade amadurecida como os “amigos íntimos” senão quando mesmo sob o nome de “amigos espirituais” para denotar tais expressões com o que é mau, imoral e condenatório em vez de valorizar uma das maiores características do ser humano que é ser em relação com o outro e com Deus.

S. Francisco de Assis viveu uma vida de intimidade profunda com Deus porque vivia a relação amadurecida e fraterna com os irmãos, com Clara e suas irmãs, não esquecendo a sua grande amiga Jacoba de Setesolli, que lhe levava doces e bolinhos e a quem ele permitia entrar no claustro dos irmãos, de tal forma foi esta amizade que hoje os restos mortais desta mulher/amiga repousam na mesma Cripta onde repousam os restos mortais de Francisco e seus primeiros companheiros, no Sacro Convento em Assis.

• A outra questão que Fr. Jaime realça, é esta mesma que temos estado a falar, a da nossa relação com Deus.

Recorda ele que por vezes, na formação, há uma preocupação desmesurada por passar horas em oração, ou melhor orações, mas sem nos preocuparmos com a qualidade dessas mesmas orações. Muitas orações pré-feitas, muitas devoções piedosas de livros ou pagelas, muitos silêncios contudo, que sentimos nós quando as fazemos/rezamos? Que experiência de Deus fazemos nós nos muitos silêncios sob a capa da oração e contemplação? Não, não se trata de desvalorizar aqui qualquer momento celebrativo, devoção ou oração, menos ainda de desvalorizar o silêncio de quem nele se entrega à contemplação e adoração do seu Senhor. Trata-se, isso sim, de reflectir sobre a qualidade destes momentos celebrativos e silenciosos diante de Deus.

Pode parecer estranho o que escrevo mas dou como exemplo dois testemunhos: por um lado irmãos temos, que passam o dia de Terço nas mãos, mesmo até enquanto se celebra a Eucaristia, mesmo até quando se servem à mesa, obrigando o Crucifixo a cair dentro da terrina da sopa ou na travessa, isto porque ainda não se rezaram não sei quantos Terços em honra da Virgem Maria. Em honra? Será?

Diria Deus, de nós, o que outrora disse ao Seu Povo através do profeta Isaías: “Este povo aproxima-se de mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro”. (Is 29, 13)

O outro exemplo que dou é o de santos religiosos que, depois de um dia de muito trabalho e em que não lhes foi possível ir ao Coro rezar com os irmãos os salmos da Liturgia das Horas, deambulam pelos corredores, claustro, capela ou quarto apenas para cumprir um preceito estabelecido. Será esta uma oração de qualidade? Será mais valiosa que as horas de serviço fraterno numa paróquia, instituição ou serviços mais humildes e fraternos de entrega na fidelidade à missão de amar e servir os irmãos, onde Deus, Cristo, Maria e os santos se sentem verdadeiramente honrados e glorificados.

Dentro disto, é mister que perguntemos também o que sentimos quando temos sede de Deus, quando no nosso dia-a-dia procuramos celebrar a Vida e a Fé com os irmãos e através dos irmãos até Deus, que sentimos quando reconhecemos que o outro, através da sua vida, testemunho, relação e partilha nos leva ao Deus que nos chama a amar o outro como a Si mesmo? “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. (Lc 10, 27)
Na vida fraterna, sobretudo franciscana, é Deus quem garante a minha forma de relação e me pede fidelidade. Diz S. Francisco no seu Testamento que “quando o Senhor me deu irmãos, ninguém me dizia o que eu devia fazer, mas o mesmo Senhor mo revelou através do santo Evangelho e eu assim o fiz escrever”. Que lugar ocupa o Evangelho na nossa vida e no nosso caminho com e para Deus?

(em breve a continuação)

3 comentários:

maresia disse...

Boa noite Amigo!
"...aqui partilho a minha visão do tema...", é por si dito no início deste texto. Ao partilhar com todos nós, os temas do retiro, penso que tem em vista, que eles sejam também para nós, uma ponte para um encontro com Deus. Se estiver errada, corrija-me.
Tem razão, a oração que fazemos é, muitas vezes, saída apenas dos lábios e não do coração. Por outro lado, é também um monologo...só nós falamos, não esperamos para ouvir a resposta de Deus através da escuta da Sua Palavra.
É um caminho longo que temos pela frente. Muito há ainda a dizer sobre este texto tão profundo...
Parabéns pelo novo cabeçalho e pela sua dedicação a este cantinho do céu.

www.freespirit-sjorge.blogspot.com. disse...

Frei Albertino,
Registro minha presença na leitura e meditaçao deste dia 18,agradeço mais uma vez este seu zelo em partilhar essa riqueza que o sr como religioso e franciscano tem a dita , o privilegio e o merecimento de receber tais mimos com mais assiduidade.O efeito desta " semeadura" so mesmo o Dono da Messe tem conhecimento...
Muito grata, e continue pois a cada dia precisamos saciar nossa sede!
Sirlene

Mª Teresa disse...

Família Retalhos 2,
Paz e Bem!
Li, reli a partilha com RESMAS de pertinência! Bastante grata e feliz por ter "acedido" ao bendito retiro!
Suspeito que não fugirá ao espírito desta partilha, antes permite salpicar de encanto, apreendermos também as palavras de São João Mª Batista Vianney:
"QUANDO COMUNGA, A ALMA SE IMPREGNA DO BÁLSAMO DO AMOR, COMO A ABELHA DO PERFUME DAS FLORES"
... Como, rápido , rápido aceito este pensamento, justo no século XXI... ASSIM SEJA,

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