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08 setembro 2011

Varatojo: identidade cultural

TU ME CONHECES E SONDAS (2)
Continuamos as nossas partilhas do Retiro em Varatojo. Recordo que o que aqui se escreve é a minha releitura feita a partir dos apontamentos que fui anotando das conferências de Fr. Jaime ofm cap.
Ao iniciarmos mais um encontro fizemo-lo ao jeito de oração cantando: “O Senhor é a minha força, ao Senhor o meu canto, n’Ele está a salvação, n’Ele eu confio e nada temo”.
Voltámos então ao tema da IDENTIDADE, aquela que tem a sua raiz na memória (experiências da vida) e na fantasia (os nossos sonhos)
Vejamos agora o que diz respeito à IDENTIDADE CULTURAL:
Muitas são as circunstâncias da nossa vida que ao olhar-mos para nós mesmos e as nossas realidades nos recusamos a ver as nossas feridas. Muitas vezes ouvimos as pessoas dizer que são muito positivas e que o negativismo não as atinge. Na verdade não acredito que isto seja mesmo assim. Se ao olhar-mos para nós só vemos positivo pode ser por dois aspectos: ou verdadeiramente estão saradas e curadas todas as feridas que o tempo nos deixou ou então é porque não as queremos ver na realidade, como diz o nosso povo “o pior cego é aquele que não quer ver”. Nem sempre a nossa linguagem corresponde à nossa realidade vital. Talvez possamos recordar mais um velho dito popular: “muito bem prega frei Tomás, olha para o que ele diz e não para o que ele faz”. Por vezes todos nós somos assim, dizemos uma coisa mas a realidade é bem outra.
Nós cristãos, e aqui no caso, franciscanos, temos que ser os mestres capazes de curar feridas mas nem sempre temos as nossas curadas, somos acompanhantes – espiritualmente – de muitos irmãos mas nem sempre somos acompanhados ao mesmo nível.
Ao nível da nossa IDENTIDADE CULTURAL a primeira coisa que temos que ter em conta é a influência enorme que cada tempo, lugar, povo e cultura exerce sobre nós e a nossa forma de ser e estar, no fundo, a nossa identidade.
A sociedade vai-nos configurando, ainda que a critiquemos, ainda que a vejamos e digamos como algo mau, em crise, mas nós também nos deixamos enredar por ela e pelo materialismo e consumismo desenfreado da sociedade hodierna.
Vejamos três aspectos onde somos influenciados:
a)      Individualismo: Este é hoje muitas vezes proclamado como o cancro da sociedade.
Face a esta tendência do mundo actual, não podemos jamais esquecer que viver como irmãos é a opção clara da Vida Franciscana e não o individualismo. Viver esta Vida é viver em fraternidade de irmãos onde todos se devem sentir unidos no mesmo ideal, carisma e missão.
Ser indivíduo é ter identidade única e irrepetível. Somos únicos porque criados à imagem e semelhança de Deus e Deus não criou repetições. O ser único leva a que nos sintamos singulares na ordem da criação, a que sintamos que somos verdadeiramente importantes porque temos a certeza de que nunca houve, não há e jamais haverá alguém exactamente igual a nós. Nem os processos de clonagem poderão fazer uma tal façanha. Poderá a clonagem repetir traços físicos mas o nosso ser único implica muito mais que isso. Portanto somos seres de identidade única, indivíduos mas que são chamados a viver em relação com todos os outros indivíduos. Sem esta relação então aí sim, caímos no individualismo onde o indivíduo se reveste de negatividade porque se auto-exclui da relação com os outros.
O individualismo aparece então como um convite à auto-suficiência, à não necessidade de nada nem de ninguém e tantas vezes até prescindindo de si mesmo sem dar conta. Alguém que paute a sua existência por um individualismo, desta forma, acaba por se afastar do Deus que o criou, acaba por se sentir cada vez mais só na ordem do universo.
A individualidade é uma atitude sadia, é sã porque implica da parte do indivíduo uma grande maturidade humana e espiritual e um enorme conhecimento de si mesmo e da sua identidade.
No individualismo somos levados a crer que não necessitamos dos outros e tornamo-nos egoístas. De acordo com os estudiosos destas coisas esta é uma questão cultural que cada vez mais a todos nos afecta, como atrás referi.
Também a nível afectivo se passa o mesmo, queremos ser auto-suficientes, não precisamos de nada, de um gesto de confiança, de busca do outro, não precisamos sequer de uma sã inter-dependência tão natural quando existe maturidade humana.
Penso que o mundo actual deveria levar aos bancos das escolas e às estradas da vida, de forma muito amadurecida, a mensagem do Principezinho: “somos responsáveis por aqueles que cativamos”… “Se tu me cativares, eu preciso de ti e tu precisas de mim”… “passamos a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos” e bem lá no final “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante para ti”.
A cultua actual leva-nos cada vez mais a sermos uns sós no meio da multidão, uns sós porque não nos conhecemos, não nos relacionamos, não nos identificamos.
b)      O consumismo, como referimos, é a procura da auto-suficiência e pode ter por consequência a exclusão.
Noutros tempos falava-se de aforro, de juntar, amealhar, agora fala-se de consumir, gastar o que se tem e o que se não tem sob os auspícios de que se assim não for a economia não avança. Seria necessário que cada um de nós perguntasse a si mesmo se temos o que precisamos ou se temos mais do que precisamos. O consumismo leva-me ao encontro com o outro ou exclui-me da vida e do convívio com o outro?
A este respeito podemos recordar aquela história de um noviço que vai pedir a S. Francisco que, para rezar melhor e mais fervorosamente, Francisco lhe dê um Breviário (Livro da Liturgia das Horas), ao que Francisco lhe responde que não lho dá porque agora como noviço pede um Breviário mais tarde vai pedir mais e mais até chegar ao ponto em que mandará aos irmãos que lhe vão buscar o dito Breviário.
Ter as coisas, no sentido da pobreza franciscana, é não ter a posse das mesmas mas usá-las para louvor d’Aquele que tudo nos dá.
c)       Aborrecimento (tédio) espiritual
Uma das características também desta nossa cultura é tédio. À nossa volta parece não haver expectativas, esperanças, novidade ou garra para atingir objectivos. Vivemos num tempo e cultura em que impera o niilismo, o nada, cultura onde não espero nada de mim mesmo, da sociedade em crise, da Igreja, da Ordem, dos outros. É uma espécie de comodismo niilista que nos coloca diante da questão sobre a verdadeira auto-suficiência, ou não, de mim mesmo e dos outros. Tudo parece levar ao aborrecimento, ao tédio, ao vazio e à exclusão. Urge cada vez mais voltar aos valores que nos forem incutidos e que aprendemos provavelmente na nossa infância, os valores da família, do direito e do dever, da justiça e da verdade, da moral e da ética, do sentido do Sagrado em nós.
Teremos que nos questionar sobre o quanto há em mim de individualismo, comodismo, tédio. Que fazer face à realidade que me envolve? Que faço eu?
A alternativa a tudo isto é fugir do individualismo e procurar construir e viver a Fraternidade, sentir-se irmão de igual para igual, irmão do Homem e da Criação inteira. Neste viver a fraternidade e fraternidade cristã/franciscana temos que tem sempre como bastião uma clara opção pelos mais pobres, pelos sem vez nem voz, pelos marginalizados desta nossa sociedade e cultura. Às atitudes de exclusão temos que suplantar atitudes de inclusão que integrem o que somos diante do outro e de Deus.
Dizia o nosso orientador, Fr. Jaime, que quem não tem uma estrutura afectiva e amadurecida de inclusão, não pode ser Franciscano. Atitude amadurecida afectivamente que não leve a uma relação possessiva e exclusiva porque esta seria tudo menos Relação Fraterna.
d)      Contemplação
Outro aspecto importante a ter em conta nesta busca da nossa identidade cultural é o da contemplação. Hoje fala-se muito pouco do valor de contemplar, de silenciar os sentidos para experienciar, pelo olhar e pelo coração, a ternura e o afecto de Deus para connosco.
Muitas vezes se diz que contemplar é permanecer em silêncio e a rezar ou a fazer leitura espiritual. Não é que não o seja mas seria muito redutor olhar a contemplação apenas por este prisma.
Contemplar é uma atitude existencial onde descubro que sou capaz de admirar-me, surpreender-me positivamente face ao mundo do tédio que parece nada ter para me dar.
Nesta atitude de contemplar, a exemplo de Francisco de Assis, a par da oração íntima com Deus, o Irmão Menor (Franciscano) opta pela relação humana, pela atitude de inclusão como Cristo que nunca excluía e que é capaz de se contemplar e contemplar tudo o que o rodeia como dom de Deus. Contemplando a Criação – onde o Homem tem lugar privilegiado – Deus é contemplado e isso só existe na mais estrita intimidade oracional com Deus. Não são apenas as muitas orações, silêncios ou leituras que nos levam a uma contemplação espiritual, sobretudo se não levarmos, a esses momentos, os irmãos que o Senhor nos deu na sua realidade existencial.
Urge ver onde nos situamos, que pregamos aos outros com as palavras e se estas estão em consonância com a vida.
Por fim, Fr. Jaime, levantou três grandes questões pertinentes para a nossa reflexão:
1ª Estou bem comigo mesmo? E com os outros? Isto implica conhecimento e aceitação da minha realidade social e física. Há quem não goste de si, de como é física ou emocionalmente.
2.ª Tenho na minha vida experiências de amor incondicional? Alguém me conhece melhor que eu mesmo e me continua a amar ou há alguém que eu ame tal como é, sem restrições? Aqueles que me conhecem, se me conhecessem tal como sou, sem capas ou máscaras, continuariam a amar-me? Lembramos aqui um pai que tudo fez na vida pelo seu filho, que o ama incondicionalmente, e a quem este filho vem dizer que cometeu um crime, que está na droga, que tem sida ou outra doença que… continuará o pai a amá-lo incondicionalmente? Sem dúvida se na verdade o olhar como pai que é capaz de dar a vida. E se isso acontecesse connosco, com um amigo nosso, com um membro da nossa família ou comunidade? Que atitude teria eu?
3.ª Ao longo dos nossos dias procuramos fazer um projecto vocacional minimamente definido?
Eu que sou franciscano, sei por onde quero ir? Sei como quero ir e com quem no sentido de viver a vida de fraternidade como legado que Francisco de Assis nos deixou?
Um projecto de vida assim minimamente definido, não é algo eclético, super fechado que não permite mudanças de acordo com o senso comum e a vocação de cada irmão, algo tão sagrado para Francisco. Um projecto minimamente definido a partir da nossa identidade e do encontro com Deus e com os irmãos terá sempre, na perspectiva franciscana, que ser um projecto em construção com os outros na procura de responder aos apelos de Deus e à vocação que Deus dá a cada irmã porque todos somos diferentes nos carismas e nas capacidades e é tendo em atenção estes aspectos que Francisco tão marcadamente viveu e pediu que vivêssemos que deve ser vista a vocação e missão do Irmão Menor hoje.
(O pior é quando quem manda não tem atitudes de inclusão mas de exclusão, não olha a pessoa do irmão na sua individualidade e capacidade mas apenas os interesses provenientes de quem manda e como lhe dá mais jeito. Quantos exemplos destes encontramos na nossa vida e Vida Religiosa)

9 comentários:

Mª Teresa disse...

"Frei Jaime",
Paz e Bem!
Reconheço seu desusado talento na decomposição de nossa IDENTIDADE CULTURAL. Grata, bastante grata!
Decididamente reportou 99,9% de sua enorme e complexa composição: a IDENTIDADE CULTURAL de cada criatura...
Alocar os predicados definidos, atentar o que podemos corrigir ou melhorar ( na Identidade de cada um)...
EDUCAÇÃO, acima de tudo pulso firme na EDUCAÇÃO, me afasta BASTANTE de materialismo e de consumismo... Só estou partilhando isto, porque isto não cresce com idade... ou "Se é bom e já nasce feito..."
Por certo Ele escuta ambos os "critérios", irá (Ele)promover intervenção? Na Terra, cuido que não...
Na Terra, observa-se o que Homem dispõe... e aqui Homem "construiu patamares" para se nivelar... Glup! Entende?

Anónimo disse...

E havia tanto para dizer...
Quantos são os Franciscanos que 'vivem' de uma forma tão... pouco franciscana? Quantos são aqueles que, altar a baixo, pregam a AMIZADE entre os irmãos e não a fomenta nem pratica? Quantos pregam a SSOLIDARIEDADE e vivem na mordomia que em nada se compadece a verdadeira VIDA FRANCISCANA???

E 'quantos' ÉS TU que tiveste que deixar de olhar para cada injustiça e, com a tua Fé, a tua vocação (e muita 'calma natural') deixaste que o outro fizesse de ti um alvo das suas frustrações?
E 'quantos' EU assisti a isso?

Continua!
Com a mesma Fé, a mesma Força, o mesmo sentido de Entrega e perdoa... sobretudo perdoa porque 'Eles não sabem o que fazem'!

um anjo

maresia disse...

Amigo, quantas ideias surgiram ao ler este texto. Lembrei-me de tempos na infância, da importância de tantos momentos em Família, que vai ser forçoso aqui voltar para reflectir.
Bem haja.

mariana disse...

Que profundidade de texto!

Quero relê-lo novamente mais demoradamente, e fazer algumas pausas, depois farei aqui minha partilha.
Obrigada pela tão bela reflexão.

Mª Teresa disse...

Bom dia FA,
P+B!
Meu 2º comentário se dirige não a Frei Jaime...
E SIM a quem tão magnificamente e por demais com sabedoria e justeza nos confia seu próprio caminhar... Por certo HÁ muita coisa que o Homem (e para mais Franciscano!) CUSTA entender e... aceitar.
Rezo...

cecilia disse...

Li e reli com os olhos cheios de água...

O mundo que mais nos convém não existe nem nunca vai existir. Há que estar atento para saber receber o que vem ao nosso encontro e nos acrescenta como seres humanos. Há que ser generoso e caminhar para fora de nós para encontrar o mundo a meio caminho. Temos de aprender a encaixar sem distorcer nem manipular porque nos convém ou porque nos dá jeito. Temos, sobretudo, de respeitar para merecer respeito.

Obrigada

Mª Teresa disse...

Irmã Cecília,
Paz e Bem!
Cumpre-me dizer... Agradável: tanto BOA SENSO, tanta SENSATEZ! Bem haja! Por certo Lá do Alto Ele Está Bem Feliz|

mariana disse...

Hoje confundimos pessoa, indivíduo, e individualismo. A nossa Sociedade está marcada pela cultura do Individualismo e do Consumismo em detrimento do altruísmo e do personalismo. O outro, o próximo, o semelhante, o irmão, o diferente, o necessitado são colocados em segundo lugar e até marginalizados.
O individualismo globalizado expressa-se pelo ter, pelo poder e pelo prazer. Os outros são descartáveis e excluídos.

De facto, urge saber onde nos encontramos, onde assentam os valores pelos quais pautamos a nossa vida, para onde queremos ir e caminhar...!

Anónimo disse...

Jesus, Paz e Bem!
Quantos dias, horas MINUTOS... demorei a aceitar alcance de, bem rude comentário de Anjinho! Sou demorada mas, acabo por discernir...
Afinal atrevo-me a entender TANTA coisa...
Enfim,se calhar tenho a ENORME felicidade de A desconhecer (tanta coisa, obviamente)!
Mas, só completo comentário reforçando estima por FA...

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