Retalhos Bem-vindo! Retalhos Willkommen! Retalhos Bienvenido! Retalhos Bienvenue! Retalhos Benvenuti! Retalhos Welcome! Retalhos 歡迎! Retalhos Καλως ηλθατε! Retalhos Добро пожаловать! Retalhos!مرحبا Retalhos

PORTUGAL: BEM VINDO SANTO PADRE!

VÍDEOS: Para visualizar e ouvir os vídeos deverá dasativar a música de fundo no painel aqui do lado esquerdo

25 outubro 2014

FRANCISCO no encerramento do Sínodo

Papa no encerramento do Sínodo:
"Esta é a Igreja, nossa mãe!"
 

Eminências, Beatitudes, Excelências, irmãos e irmãs,
É com o coração cheio de reconhecimento e gratidão que gostaria de dar graças, juntamente convosco, ao Senhor que nos acompanhou e orientou ao longo dos dias passados, com a luz do Espírito Santo!
Agradeço de coração ao senhor cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo, a D. Fábio Fabene, subsecretário, e, com eles, agradeço ao relator, senhor cardeal Péter Erdő, que trabalhou muito mesmo em dias de luto familiar, bem como ao secretário especial, D. Bruno Forte, aos três presidentes delegados, aos escritores, consultores, tradutores e pessoas anónimas, enfim a todos aqueles que nos bastidores trabalharam com verdadeira fidelidade, com dedicação total à Igreja e sem descanso: muito obrigado!
Estou grato de igual modo a todos vós, amados padres sinodais, delegados fraternos, auditoras, auditores e assessores, pela vossa participação concreta e frutuosa. Rezarei por vós, pedindo ao Senhor que vos recompense com a abundância dos seus dons de graça!
Posso tranquilamente afirmar que — com um espírito de colegialidade e de sinodalidade — vivemos verdadeiramente uma experiência de «Sínodo», um percurso solidário, um «caminho conjunto». E, como acontece em todo o caminho —dado que se tratou de um «caminho» —, houve momentos de corrida apressada, como se se quisesse vencer o tempo e chegar quanto antes à meta; momentos de cansaço, como se se quisesse dizer basta; e outros momentos de entusiasmo e ardor. Houve momentos de profunda consolação, ouvindo o testemunho de autênticos pastores (cf. Jo 10 e cânn. 375, 386 e 387), que trazem sabiamente no coração as alegrias e as lágrimas dos seus fiéis. Momentos de consolação, graça e conforto, ouvindo os testemunhos das famílias que participaram no Sínodo e compartilharam connosco a beleza e a alegria da sua vida matrimonial. Um caminho onde o mais forte se sentiu no dever de ajudar o menos forte, onde o mais perito se prestou para servir os demais, inclusive através de confrontos. Mas, tratando-se de um caminho de homens, juntamente com as consolações houve também momentos de desolação, de tensão e de tentações, das quais poderíamos mencionar algumas possibilidades:
— uma: a tentação do endurecimento hostil, ou seja, o desejo de se fechar dentro daquilo que está escrito (a letra) sem se deixar surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito); dentro da lei, dentro da certeza daquilo que já conhecemos, e não do que ainda devemos aprender e alcançar. Desde a época de Jesus, é a tentação dos zelantes, dos escrupulosos, dos cautelosos e dos chamados — hoje — «tradicionalistas», e também dos intelectualistas.
— A tentação da bonacheirice destrutiva, que em nome de uma misericórdia enganadora liga as feridas sem antes as curar e medicar; que trata os sintomas e não as causas nem as raízes. É a tentação dos «bonacheiristas», dos temerosos e também dos chamados «progressistas e liberalistas».
— A tentação de transformar a pedra em pão para interromper um jejum prolongado, pesado e doloroso (cf. Lc 4, 1-4) e também de transformar o pão em pedra e lançá-la contra os pecadores, os frágeis e os doentes (cf. Jo 8, 7), ou seja, de o transformar em «fardos insuportáveis» (Lc 10, 27).
— A tentação de descer da cruz, para contentar as massas, e não permanecer nela, para cumprir a vontade do Pai; de ceder ao espírito mundano, em vez de o purificar e de o sujeitar ao Espírito de Deus.
— A tentação de descuidar o «depositum fidei», considerando-se não guardiões mas proprietários e senhores ou, por outro lado, a tentação de descuidar a realidade, recorrendo a uma terminologia minuciosa e uma linguagem burilada, para falar de muitas coisas sem nada dizer! Acho que a isto se chamava «bizantinismos»...
Caros irmãos e irmãs, as tentações não nos devem assustar nem desconcertar e menos ainda desanimar, porque nenhum discípulo é maior que o seu mestre; portanto, se o próprio Jesus foi tentado — e até chamado Belzebu (cf. Mt 12, 24) — os seus discípulos não devem esperar um tratamento melhor.
Pessoalmente, ficaria muito preocupado e triste, se não tivesse havido estas tentações e estes debates animados – este movimento dos espíritos, como lhe chamava Santo Inácio (cf. EE, 6) –, se todos tivessem estado de acordo ou ficassem taciturnos numa paz falsa e quietista. Ao contrário, vi e ouvi — com alegria e reconhecimento — discursos e intervenções cheios de fé, de zelo pastoral e doutrinal, de sabedoria, de desassombro, de coragem e de parresia. E senti que, diante dos próprios olhos, se tinha o bem da Igreja, das famílias e a «suprema lex», a «salus animarum» (cf. cân. 1752). E isto — já o dissemos aqui na Sala — sem nunca se pôr em discussão as verdades fundamentais do sacramento do Matrimónio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a procriação, ou seja, a abertura à vida (cf. cânn. 1055 e 1056; Gaudium et spes, 48).
E esta é a Igreja, a vinha do Senhor, a Mãe fecunda e a Mestra solícita, que não tem medo de arregaçar as mangas para derramar o azeite e o vinho sobre as feridas dos homens (cf. Lc 10, 25-37); que não observa a humanidade a partir de um castelo de vidro para julgar ou classificar as pessoas. Esta é a Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e formada por pecadores, necessitados da sua misericórdia. Esta é a Igreja, a verdadeira Esposa de Cristo, que procura ser fiel ao seu Esposo e à sua doutrina. É a Igreja que não tem medo de comer e beber com as prostitutas e os publicanos (cf.Lc  15). A Igreja que tem as suas portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos, e não apenas os justos ou aqueles que se julgam perfeitos! A Igreja que não se envergonha do irmão caído nem finge que não o vê, antes pelo contrário sente-se comprometida e quase obrigada a levantá-lo e a encorajá-lo a retomar o caminho, acompanhando-o rumo ao encontro definitivo, com o seu Esposo, na Jerusalém celeste.
Esta é a Igreja, a nossa Mãe! E quando a Igreja, na variedade dos seus carismas, se exprime em comunhão, não pode errar: é a beleza e a força do sensus fidei, daquele sentido sobrenatural da fé, que é conferido pelo Espírito Santo a fim de que, juntos, possamos todos entrar no âmago do Evangelho e aprender a seguir Jesus na nossa vida, e isto não deve ser visto como motivo de confusão e mal-estar.
Muitos comentadores, ou pessoas que falam, imaginaram ver uma Igreja em litígio, na qual uma parte está contra a outra, duvidando até do Espírito Santo, o verdadeiro promotor e garante da unidade e da harmonia na Igreja. O Espírito Santo, que ao longo da história sempre guiou a barca, através dos seus Ministros, mesmo quando o mar se mostrava contrário e agitado, e os ministros eram infiéis e pecadores.
E, como ousei dizer-vos no início, era necessário viver tudo isto com tranquilidade, com paz interior, inclusivamente porque o Sínodo se realiza cum Petro et sub Petro, e a presença do Papa é garantia para todos.
Agora, falemos um pouco do Papa na sua relação com os bispos... Ora, a tarefa do Papa é garantir a unidade da Igreja; é recordar aos pastores que o seu primeiro dever é alimentar a grei — nutrir o rebanho — que o Senhor lhes confiou e procurar receber — com paternidade e misericórdia, e sem falsos temores — as ovelhas tresmalhadas. Aqui enganei-me: disse receber, mas queria dizer ir ao seu encontro!
A sua tarefa é recordar a todos que na Igreja a autoridade é serviço (cf. Mc 9, 33-35), como explicou com clareza o Papa Bento XVI, com palavras que cito textualmente: «A Igreja está chamada e compromete-se a exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo... De facto, através dos Pastores da Igreja, Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro... participassem nesta sua missão de cuidar do Povo de Deus, de ser educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, “cuidar que cada fiel seja levado, no Espírito Santo, a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, a uma caridade sincera e operosa e à liberdade com que Cristo nos libertou” (Presbyterorum ordinis, 6)... é através de nós — continua o Papa Bento — que o Senhor alcança as almas, que as instrui, guarda e guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz: “Seja, portanto, compromisso de amor apascentar o rebanho do Senhor” (123, 5); esta é a norma suprema de conduta dos ministros de Deus, um amor incondicional, como o do Bom Pastor, cheio de alegria, aberto a todos, atento aos que estão perto e solícito pelos afastados (cf. Santo Agostinho, Discurso 340, 1; Discurso 46, 15), delicado para com os mais débeis, os pequeninos, os simples, os pecadores, para manifestar a misericórdia infinita de Deus com as palavras alentadoras da esperança (cf. Id., Carta 95, 1)» (Bento XVI, Audiência geral de quarta-feira, 26 de Maio de 2010).
Por conseguinte, a Igreja é de Cristo — é a sua Esposa — e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de a guardar e servir, não como patrões mas como servidores. Neste contexto, o Papa não é o senhor supremo mas, ao contrário, o supremo servidor — o «servus servorum Dei»; o garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja, pondo de lado qualquer arbítrio pessoal, embora seja — por vontade do próprio Cristo — o «supremo Pastor e Doutor de todos os fiéis» (cân. 749), e goze «na Igreja de poder ordinário, supremo, pleno, imediato e universal» (cf. cânn. 331-334).
Agora, caros irmãos e irmãs, temos ainda um ano para maturar, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e os inúmeros desafios que as famílias devem enfrentar; para dar resposta aos numerosos motivos de desânimo que envolvem e sufocam as famílias.
Um ano para trabalhar sobre a «Relatio synodi», que é o resumo fiel e claro de tudo aquilo que foi dito e debatido nesta Sala e nos círculos menores. E é apresentada às Conferências Episcopais como «Lineamenta».
Que o Senhor nos acompanhe, nos guie neste percurso, para glória do seu Nome, com a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José! E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim!


 Papa Francisco

19 outubro 2014

Sínodo: Mensagem Final


Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos
Cidade do Vaticano (RV) – Os Padres Sinodais aprovaram, no decorrer da 14ª Congregação Geral na manhã deste sábado, a mensagem final da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre o tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”. O documento conclusivo do Sínodo - Relatio Synodi - será divulgado posteriormente enquanto o documento final será provavelmente publicado na forma de uma Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco, em 2015, após o Sínodo Ordinário. 
Abaixo, a íntegra da mensagem:

"Nós, Padres Sinodais reunidos em Roma junto ao Santo Padre na Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, nos dirigimos a todas as famílias dos diversos continentes e, em particular, àquelas que seguem Cristo Caminho, Verdade e Vida. Manifestamos a nossa admiração e gratidão pelo testemunho quotidiano que vocês oferecem a nós e ao mundo com a sua fidelidade, fé, esperança e amor.
Também nós, pastores da Igreja, nascemos e crescemos em uma família com as mais diversas histórias e acontecimentos. Como sacerdotes e bispos, encontramos e vivemos ao lado de famílias que nos narraram em palavras e nos mostraram em atos uma longa série de esplendores mas também de cansaços.
A própria preparação desta assembleia sinodal, a partir das respostas ao questionário enviado às Igrejas do mundo inteiro, nos permitiu escutar a voz de tantas experiências familiares. O nosso diálogo nos dias do Sínodo nos enriqueceu reciprocamente, ajudando-nos a olhar toda a realidade viva e complexa em que as famílias vivem. A vocês, apresentamos as palavras de Cristo: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Como costumava fazer durante os seus percursos ao longo das estradas da Terra Santa, entrando nas casas dos povoados, Jesus continua a passar também hoje pelos caminhos das nossas cidades. Nas vossas casas se experimentam luzes e sombras, desafios exaltantes mas, às vezes, também provações dramáticas. A escuridão se faz ainda mais densa até se tornar trevas, quando se insinuam no coração da família o mal e o pecado.
Existe, antes de tudo, os grandes desafios da fidelidade no amor conjugal, do enfraquecimento da fé e dos valores, do individualismo, do empobrecimento das relações, do stress, de um alvoroço que ignora a reflexão, que também marcam a vida familiar. Se assiste, assim, a não poucas crises matrimoniais enfrentadas, frequentemente, em modo apressado e sem a coragem da paciência, da verificação, do perdão recíproco, da reconciliação e também do sacrifício. Os fracassos dão, assim, origem a novas relações, novos casais, novas uniões e novos matrimónios, criando situações familiares complexas e problemáticas para a escolha cristã.
Entre estes desafios queremos evocar também o cansaço da própria existência. Pensemos ao sofrimento que pode aparecer em um filho portador de deficiência, em uma doença grave, na degeneração neurológica da velhice, na morte de uma pessoa querida. É admirável a fidelidade generosa de muitas famílias que vivem estas provações com coragem, fé e amor, considerando-as não como alguma coisa que é arrancada ou infligida, mas como alguma coisa que é doada a eles e que eles doam, vendo Cristo sofredor naquelas carnes doentes.
Pensemos às dificuldades económicas causadas por sistemas perversos, pelo “fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” (Evangelii Gaudium 55), que humilha a dignidade das pessoas. Pensemos ao pai ou à mãe desempregados, impotentes diante das necessidades também primárias de suas famílias, e aos jovens que se encontram diante de dias vazios e sem expectativas, e que podem tornar-se presa dos desvios na droga e na criminalidade.
Pensemos também na multidão das famílias pobres, àquelas que se agarram em um barco para atingir uma meta de sobrevivência, às famílias refugiadas que sem esperança migram nos desertos, àquelas perseguidas simplesmente pela sua fé e pelos seus valores espirituais e humanos, àquelas atingidas pela brutalidade das guerras e das opressões. Pensemos também às mulheres que sofrem violência e são submetidas à exploração, ao tráfico de pessoas, às crianças e jovens vítimas de abusos até mesmo por parte daqueles que deveriam protegê-las e fazê-las crescer na confiança e aos membros de tantas famílias humilhadas e em dificuldade. “A cultura do bem-estar anestesia-nos e (...) todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma” (Evangelii Gaudium, 54). Fazemos apelo aos governos e às organizações internacionais para promoverem os direitos da família para o bem comum.
Cristo quis que a sua Igreja fosse uma casa com a porta sempre aberta na acolhida, sem excluir ninguém. Somos, por isso, agradecidos aos pastores, fiéis e comunidades prontos a acompanhar e a assumir as dilacerações interiores e sociais dos casais e das famílias.
Existe, contudo, também a luz que de noite resplandece atrás das janelas nas casas das cidades, nas modestas residências de periferia ou nos povoados e até mesmos nas cabanas: ela brilha e aquece os corpos e almas. Esta luz, na vida nupcial dos cônjuges, se acende com o encontro: é um dom, uma graça que se expressa – como diz o Livro do Génesis (2,18) – quando os dois vultos estão um diante o outro, em uma “ajuda correspondente”, isto é, igual e recíproca. O amor do homem e da mulher nos ensina que cada um dos dois tem necessidade do outro para ser si mesmo, mesmo permanecendo diferente ao outro na sua identidade, que se abre e se revela no dom mútuo. É isto que manifesta em modo sugestivo a mulher do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é para mim e eu sou sua...eu sou do meu amado e meu amado é meu”, (Cnt 2,16; 6,3).
Para que este encontro seja autêntico, o itinerário inicia com o noivado, tempo de espera e de preparação. Realiza-se em plenitude no Sacramento onde Deus coloca o seu selo, a sua presença e a sua graça. Este caminho conhece também a sexualidade, a ternura, e a beleza, que perduram também além do vigor e do frescor juvenil. O amor tende pela sua natureza ser para sempre, até dar a vida pela pessoa que se ama (cf. João 15,13). Nesta luz, o amor conjugal único e indissolúvel persiste, apesar das tantas dificuldades do limite humano; é um dos milagres mais belos, embora seja também o mais comum.
Este amor se difunde por meio da fecundidade e do ‘gerativismo’, que não é somente procriação, mas também dom da vida divina no Batismo, educação e catequese dos filhos. É também capacidade de oferecer vida, afeto, valores, uma experiência possível também a quem não pode gerar. As famílias que vivem esta aventura luminosa tornam-se um testemunho para todos, em particular para os jovens.
Durante este caminho, que às vezes é um percurso instável, com cansaços e caídas, se tem sempre a presença e o acompanhamento de Deus. A família de Deus experimenta isto no afeto e no diálogo entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs. Depois vive isto ao escutar juntos a Palavra de Deus e na oração comum, um pequeno oásis do espírito a ser criado em qualquer momento a cada dia. Existem, portanto, o empenho quotidiano na educação à fé e à vida boa e bonita do Evangelho, à santidade. Esta tarefa é, frequentemente, partilhada e exercida com grande afeto e dedicação também pelos avôs e avós. Assim, a família se apresenta como autêntica Igreja doméstica, que se alarga à família das famílias que é a comunidade eclesial. Os cônjuges cristãos são, após, chamados a tornarem-se mestres na fé e no amor também para os jovens casais.
O vértice que reúne e sintetiza todos os elos da comunhão com Deus e com o próximo é a Eucaristia dominical quando, com toda a Igreja, a família se senta à mesa com o Senhor. Ele se doa a todos nós, peregrinos na história em direção à meta do encontro último quando “Cristo será tudo em todos” (Col 3,11). Por isto, na primeira etapa do nosso caminho sinodal, refletimos sobre o acompanhamento pastoral e sobre o acesso aos sacramentos pelos divorciados recasados.
Nós, Padres Sinodais, vos pedimos para caminhar connosco em direção ao próximo Sínodo. Em vocês se confirma a presença da família de Jesus, Maria e José na sua modesta casa. Também nós, unindo-nos à Família de Nazaré, elevamos ao Pai de todos a nossa invocação pelas famílias da terra:
Senhor, doa a todas as famílias a presença de esposos fortes e sábios,
que sejam vertente de uma família livre e unida.
Senhor, doa aos pais a possibilidade de ter uma casa onde viver em paz com a família.
Senhor, doa aos filhos a possibilidade de serem signo de confiança e aos jovens a coragem do compromisso estável e fiel. 
Senhor, doa a todos a possibilidade de ganhar o pão com as suas próprias mãos, de provar a serenidade do espírito e de manter viva a chama da fé mesmo na escuridão.
Senhor, doa a todos a possibilidade de ver florescer uma Igreja sempre mais fiel e credível, uma cidade justa e humana, um mundo que ame a verdade, a justiça e a misericórdia.

O Cardeal Raymundo Damasceno de Assis, um dos relatores-presidente do Sínodo, comentou a redação da mensagem final durante uma Conferênca de imprensa no final da manhã deste sábado, na Sala de Imprensa da Santa Sé. 

http://www.news.va/pt/news/sinodo-extraordinario-documento-final

16 outubro 2014

Ecos do Sínodo

Passada a primeira semana de trabalhos sinodais, deixo uma resenha de pontos ventilados, como resumo rápido e pessoal do que vai acontecendo.
Sala Sinodal
Lembro que a reflexão incide sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, não se detendo em alguns temas que têm polarizado a atenção mediática, como o que se refere aos “divorciados recasados”, ou às “uniões de pessoas do mesmo sexo”. Têm sido de facto abordados, mas não constituem o cerne da reflexão sinodal. 

Esta incide sempre, direta ou diretamente, na família em geral – não apenas no seu núcleo conjugal – e no modo mais adequado de propor a respetiva visão cristã e de formar os crentes para a sua constituição e vivência. 
Muito importante tem sido a presença cordial do Papa Francisco, bem como o foram as suas palavras iniciais, insistindo em que falássemos com grande franqueza (parresia) e ouvíssemos com humildade (cf.L’Osservatore Romano, 6-7 out. 2014, p. 12). E assim tem sido, com disponibilidade para falar e ouvir opiniões concordes ou eventualmente discordes, sobre pontos concretos e com sensibilidades distintas. 
Nunca está em causa a visão cristã do casal e da família, a partir das palavras de Cristo e da Tradição eclesial, ao mesmo tempo idêntica nas afirmações essenciais e dinâmica na relação com as situações e a própria evolução humana e social. Pouco a pouco, fica mesmo mais claro o que é essencial e o que devemos fazer, para que tal essencialidade se reapresente agora, face aos “desafios” que a atualidade nos lança.
Do que se tem dito e ouvido, sobressai a consciência do contraste entre muito do que a sociocultura globalizada difunde e sugere sobre a conjugalidade e a família e o que a visão crente e cristã entende sobre elas. Rarefação dos vínculos tradicionais e individualização das decisões e das existências, desinstitucionalização e efemeridade dos compromissos, desvalorização do que não seja imediato e logo compensatório: estas e outras notas tornam-se mentalidade e sensibilidade generalizadas, sem grandes diferenças à escala mundial. Foi por isso acentuado que «os cristãos devem saber responder adequadamente às verdadeiras e próprias emergências que nos chegam, além do mais, numa atmosfera cultural em crescente contraste com os valores propostos pela Igreja […]. Referem-se as posições ideológicas que se difundem e tendem a influenciar os próprios ordenamentos jurídicos» (L’O.R., 9 out., p. 7). 

Daqui que o Sínodo vá sublinhando a necessidade e a urgência de esclarecimento cristão sobre a realidade familiar e de tomar este ponto como verdadeiramente prioritário para as nossas comunidades, movimentos e grupos. Apoiar sempre a família, na respetiva formação e na complementaridade e intergeracionalidade dos seus membros, evidencia-se como a base de toda a pastoral a empreender.
Posso até dizer que este ponto é o mais saliente dos presentes trabalhos sinodais, tal é a consciência do desafio sociocultural que a família cristã tem pela frente. Salientou-se, a propósito, o lugar do testemunho familiar cristão, como neste resumo de várias intervenções: «Falou-se da importância de percorrer a via do testemunho para uma eficaz preparação do matrimónio, sem nos preocuparmos com a possibilidade de um percurso formativo mais sério fazer diminuir o número de esposos». E chegou a dizer-se que tudo se há de fazer «para que a Igreja não passe de “hospital de campanha” a “morgue” em que se multiplicam as autópsias de matrimónios defuntos» (cf. L’O.R., 8 out., p. 8). Parecendo forte a imagem, não é menos real a constatação dos fracassos conjugais que tantos problemas trazem aos próprios e aos respetivos familiares. 

O Sínodo não ilude a questão, nem as consequências sacramentais, no caso de divorciados recasados. Tem sido ponto recorrente, em contraste com o primeiro, acima indicado: «O sínodo voltou a refletir sobre os casais em dificuldade, os divorciados recasados. A Igreja deve apresentar não um juízo mas uma verdade. Quanto ao acesso à Eucaristia, reafirmou-se que não é sacramento dos perfeitos mas dos que estão a caminho» (ibidem). Sendo necessário, antes, durante e depois, estar de facto “a caminho”, ou seja, em conversão permanente – para todos e especialmente para os casos referidos. Da realidade vivida ao desígnio inultrapassável de Cristo há sempre caminho a percorrer, caminho aberto… 
Muitas referências são feitas também à necessidade de agilizar os processos de verificação da validade dos matrimónios celebrados, quando há razões para tal. Como, por exemplo: «Antes de mais, acentuou-se em várias intervenções a necessidade de acelerar o processo canónico para o reconhecimento das nulidades matrimoniais, para que os fiéis não fiquem privados dos sacramentos por muito tempo» (L’O.R., 9 out., p. 7). 
E o resumo mais fiel de quanto se disse das “situações “irregulares” será este: «Os padres sinodais explicaram detalhadamente as suas razões sobre a admissão ou não dos divorciados recasados à Eucaristia. Com posições diversas. Também se contaram histórias particulares de pessoas que vivem em condições de sofrimento. Por exemplo, evidenciou-se a necessidade de distinguir entre os que abandonaram injustamente o cônjuge e os que, pelo contrário, foram abandonados injustamente. Registaram-se intervenções significativas, seja de quem acha que não é possível introduzir a comunhão para os divorciados recasados, seja de quem convida ao discernimento das várias situações, para não praticar uma pastoral do “tudo ou nada”» (cf. L’O.R., 10 out., p. 8).

Nestes dois pontos se tem principalmente insistido: a necessidade de fazer da família, cristãmente entendida, e da pastoral familiar, continuamente exercitada, o critério de ação das nossas comunidades, assim mesmo transformadas em “famílias de famílias”; e o atendimento positivo dos casos de dificuldade ou fracasso conjugal, na sequência do que tem sido o desenvolvimento da doutrina e da prática eclesial. 
Pode aliás lembrar-se a evolução verificada, do Código de Direito Canónico de 1917, que tratava os divorciados recasados como bígamos e infames, que podiam ser atingidos pela excomunhão e interdição pessoal, ao Código de Direito Canónico de 1984, que não prevê tais punições, mas restrições menos graves; ou às exortações apostólicasFamiliaris Consortio (João Paulo II, 1981) e Sacramentum Caritatis (Bento XVI, 2007), que falam com afabilidade de tais cristãos, afirmando que não são excomungados, mas antes convidados à participação eclesial, ainda que sem confissão sacramental nem comunhão eucarística, enquanto durar tal situação pessoal. 
Também para aqui apontou o Cardeal Kasper na sua alocução ao consistório de fevereiro passado – feita a convite do Papa Francisco, recordemos –, quando disse estarmos numa situação semelhante à do Concílio Vaticano II, ao tratar da liberdade religiosa. Na minha intervenção sinodal, referi-me explicitamente a este ponto, nos seguintes termos: «Há cinquenta anos, não foi propriamente fácil aos padres conciliares conjugarem a liberdade religiosa com a objetividade da verdade revelada. Mas acabaram por incluir nesta mesma objetividade o espaço que Deus dá a cada um para prosseguir na descoberta da verdade e na adesão a ela (cf. Declaração Dignitatis Humanae, 2). Creio que, com as devidas distinções de tema e solução, há neste importantíssimo ponto conciliar uma luz oportuna para o que nos ocupa agora, a bem da família e da sua dimensão sacramental, a manter e a recuperar sempre que possível».
Seguem-se nestes dias as reuniões de grupo e a preparação da mensagem (nuntius) final, com o mesmo clima de franqueza e humildade que o Papa Francisco desejou e felizmente se verifica. Sem esquecer que esta é apenas uma etapa preparatória do Sínodo de 2015 e do que o Papa decidir depois. Rezemos entretanto, para que o Espírito nos conduza àquela “verdade total” que Deus nos ofereceu em Cristo e só pouco a pouco se desvenda, sempre idêntica a si mesma e continuamente desdobrada na história.

 Roma, 12 de outubro de 2014
 + Manuel Clemente   
(Patriarca de Lisboa)   


02 outubro 2014

Francisco e a Irmã Morte

"Louvado sejas, meu Senhor, pla nossa Irmã, a morte corporal"
Assim S. Francisco terminava o seu belo Cântico das Criaturas.
Celebrar este ano a Solenidade do Poverello de Assis tem para mim um significado mais rico.
Faz um mês que Deus chamou o meu pai e 15 dias que chamou a minha mãe. Como eles gostavam de S. Francisco e de Sto António...
Com este clip de vídeo presto homenagem ao Santo dos pobres e com ele aos meus pais.
"Que o Senhor vos abençoe e vos guarde!"
(a seguir outros vídeos entram automaticamente)

AVISO LEGAL – Procurarei fazer, neste blog, uma utilização cautelosa de textos, imagens, sons e outros dados, respeitando os direitos autoriais dos mesmos. Sempre que a legislação exigir, ou reclamados os referidos direitos de autor, procurarei prontamente respeitá-los, corrigindo informação ou retirando os mesmos do blog

 
© 2009 | RETALHOS 2 | Por Templates para Você